Dados de 'Pokémon Go' foram usados no treinamento de IA para drones militares nos EUA
Parceria entre as empresas Niantic e Vantor visa criar um sistema de navegação que opere em ambientes onde o GPS não funciona; jogadores de Pokémon Go alimentaram esse sistema por anos
A Niantic, co-criadora do Pokémon Go em parceria com a Nintendo, revela que utilizou dados fornecidos pelos jogadores para treinar modelos de inteligência artificial capazes de reconhecer e interpretar espaços físicos com precisão. Agora, esses dados serão usados em softwares de navegação de drones militares nos Estados Unidos.
Lançado em 2016, o jogo de realidade aumentada Pokémon Go se popularizou por transformar ambientes do mundo real em um grande tabuleiro, onde os jogadores poderiam caçar Pokémons, coletar itens e batalhar em ginásios. Em 2021, o jogo introduziu a função de mapeamento, que permitia que os jogadores escaneassem locais reais em troca de recompensas dentro do próprio aplicativo.
Ao longo dos anos, porém, a Niantic reuniu esses escaneamentos, e, em 2025, vendeu sua divisão de jogos para a Scopely. Enquanto a Scopely assumiu os games, a Niantic fundou a Niantic Spatial, com o objetivo de criar soluções tecnológicas para robótica e navegação autônoma. "Robôs, agentes e sistemas autônomos precisam de modelos do mundo real baseados em física e geometria, não em imaginação", diz o site da empresa.
Em dezembro do ano passado, a Niantic Spatial anunciou uma parceria com a Vantor, empresa especializada em software de navegação e detecção espacial para drones, incluindo sistemas usados por forças militares nos EUA.
Como funciona o sistema?
Brian McClendon, CTO da Niantic Spatial, que anteriormente liderou a equipe por trás do Google Maps, Google Earth e Street View, afirmou que a abordagem criada pelas empresas permite que equipamentos operam em ambientes onde o GPS não funciona — seja por falhas técnicas, interferência, como cidades densamente povoadas, ou locais onde os sinais são bloqueados deliberadamente, como zonas de guerra.
Um relatório explica que, a partir de mais de 30 bilhões de imagens capturadas, o "Sistema de Posicionamento Visual" da Niantic transforma "dispositivos de captura aérea e terrestre em um sensor preciso de posicionamento e orientação, fornecendo localização exata em praticamente qualquer lugar".
A parceria visa combater uma "vulnerabilidade crítica" nas operações modernas. "Quando os sinais de satélite são comprometidos, sistemas autônomos e equipes de campo perdem a capacidade de se orientar, coordenar ou manter consciência situacional precisa."
De acordo com o site DroneXL, o processo ocorre em três etapas: os jogadores escaneiam o mundo físico, a Niantic Spatial transforma esses escaneamentos em um mapa 3D (permitindo que o robô se localize visualmente, sem sinal de GPS), e esse sistema terrestre é integrado ao software de navegação aérea da Vantor, para uso em operações militares.
A reação dos jogadores
O caso levanta preocupações entre especialistas e jogadores sobre o destino de dados coletados por aplicativos. "Desinstalei o aplicativo no momento em que me pediram para escanear um prédio para ganhar uma recompensa. Não há motivo para ter que escanear fisicamente um prédio, a menos que queiram os dados 3D/visuais/de mapa daquele prédio, o que me pareceu desagradável e artificial", escreveu um usuário do Reddit.
Outro usuário escreveu: "É genial e assustador como eles fizeram isso. Criaram um jogo viral para fazer as pessoas escanearem cada centímetro do mundo ao seu redor. Está faltando algum lugar específico atrás de um prédio? Coloque um Pokémon raro lá. Pronto, você tem uns 50 escaneamentos daquela área em poucos minutos".
O envio das imagens e dados de localização era voluntário e estava descrito nos Termos de Serviço e na Política de Privacidade do aplicativo, ressalta a Niantic. A empresa também afirmou, em novo comunicado, que não compartilha mais esses dados. "A descontinuação da leitura de RA e o fim do compartilhamento de dados com a Niantic Spatial fizeram parte do planejamento de transição associado à mudança do Pokémon Go para a Scopely."
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