Hordes of Hunger perde força onde mais precisava acertar
Ambientação e proposta chamam atenção, mas sistemas centrais carecem de maior profundidade
Os jogos do subgênero survivorlike viraram uma verdadeira febre nos últimos anos. O sucesso de títulos que apostam em hordas intermináveis de inimigos, progressão rápida e partidas curtas abriu espaço para uma enxurrada de variações que misturam elementos de roguelite, bullet hell e ação automática.
Hordes of Hunger surge nesse cenário tentando dar um passo além da fórmula tradicional. Em vez de seguir apenas o modelo de visão superior com foco total na sobrevivência passiva, o jogo aposta em exploração livre, combate mais próximo do hack and slash e até escolhas de câmera que alteram a forma de jogar.
Enfrentando hordas na versão 1.0
Hordes of Hunger nos coloca diretamente na linha de frente com Mirah, o único bastião capaz de proteger sua terra natal enquanto uma onda crescente de criaturas demoníacas avança sobre o território. Ao lado dela, durante a jornada e atuando como mentor, está seu pai, que, por conta da idade, já não é capaz de lutar, mas segue essencial por carregar um vasto conhecimento sobre o mundo e sobre magia. Com essa orientação, Mirah precisa assumir o papel de principal defensora e se transformar na maior resistência contra a ameaça que consome tudo ao redor.
Diferente de outros jogos do subgênero survivorlike, a história não é contada apenas em segundo plano. Durante as investidas contra dezenas de inimigos, há um diferencial por conta dos objetivos que precisam ser cumpridos nessas sessões de combate, além de comentários da própria Mirah sobre os acontecimentos.
Muitas dessas missões acabam sendo simples, como destruir um número específico de objetos pelo mapa ou derrotar uma quantidade exata de inimigos para avançar no progresso. Ao concluir essas tarefas, é possível ir até um refúgio e conversar com o pai da personagem para adquirir novas habilidades, facilitando as próximas incursões. Caso o jogador prefira, também é possível continuar na fase até enfrentar o guardião da área e, assim, concluir de fato a missão daquela cidade.
Um ponto interessante em Hordes of Hunger é a possibilidade de escolher o tipo de câmera, o que afeta diretamente a jogabilidade. As duas opções disponíveis são automática e manual. A automática apresenta uma visão superior, com a câmera fixa acima da personagem, nos moldes dos jogos de sobrevivência atuais, embora o estilo gráfico acabe lembrando mais a franquia Diablo.
Já a visão manual adota um estilo em terceira pessoa, acompanhando a ação pelas costas da personagem. A câmera é posicionada próxima das costas da personagem, semelhante a alguns jogos de ação mais antigos do gênero hack and slash. Entre as duas opções, essa acaba combinando mais com a proposta do jogo, mesmo ele sendo estruturado como um título de sobrevivência contra hordas.
Apesar da possibilidade de escolha, algo que pode agradar diferentes perfis de jogadores, as duas câmeras não funcionam tão bem quanto deveriam. A jogabilidade de Hordes of Hunger se distancia bastante de jogos como Vampire Survivors e Brotato, principalmente por permitir exploração livre do cenário e apostar mais em elementos de hack and slash do que em um bullet hell, que costuma ser quase padrão nos survivorlike. Com isso, parte do peso da sobrevivência se dilui, aproximando o jogo de um roguelite mais genérico.
Mesmo dentro da proposta roguelite, o jogo decepciona em alguns pontos. Existem melhorias que adicionam dano elemental ou invocam uma chuva de espadas, mas a maioria dos aprimoramentos obtidos ao coletar pontos dos inimigos derrotados é pouco impactante. Grande parte deles se resume a bônus passivos, como aumento de velocidade ou mais dano com a vida alta, em vez de introduzir golpes novos que realmente ampliem as possibilidades de combate.
Embora esses problemas afetem diretamente o que sustenta a experiência, ainda é possível dar um voto de confiança aos desenvolvedores. Alguns caminhos escolhidos funcionam bem, como o universo com tom gótico e melancólico das cidades vazias. O design dos inimigos também segue uma progressão interessante, começando com ameaças mais fracas e aumentando a intensidade conforme nos aproximamos do guardião, elevando o senso de urgência. Ainda assim, é uma pena que os demais sistemas não acompanhem essa evolução.
Considerações
Hordes of Hunger tem boas ideias e uma ambientação que chama atenção, principalmente pelo tom mais sombrio e pela tentativa de inserir narrativa ativa dentro de um gênero que normalmente deixa a história em segundo plano. A progressão de inimigos e o conceito de enfrentar guardiões ao final das áreas também ajudam a criar um senso maior de objetivo.
Por outro lado, o sistema de evolução ainda precisa de ajustes para entregar impacto real nas partidas, e as câmeras, que deveriam ampliar as possibilidades, acabam não funcionando tão bem quanto poderiam. Há espaço para melhorias, mas será preciso refinar seus sistemas principais para se destacar em um gênero que já se tornou bastante competitivo.
Hordes of Hunger está disponível para PC.
Esta análise foi feita no PC, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Kwalee.