Atletas dos EUA de vôlei criticam 'teste de feminilidade' obrigatório do COI: 'Merecemos dignidade'
Seleção Feminina de Vôlei dos EUA pede maior transparência e proteção à privacidade médica em nova política do Comitê Olímpico Internacional
A Seleção Feminina de Vôlei dos Estados Unidos se pronunciou sobre a nova política de testes de gênero anunciada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) em março deste ano. Em nota, a equipe informou que todas as atletas atenderam aos requisitos dos testes de SRY, conduzidos pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB), mas demonstrou preocupação com o processo e com a maneira como a medida vem sendo implementada para definir a elegibilidade de competidoras na categoria feminina.
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Em uma nota divulgada nas redes sociais nesta terça-feira, 16, as atletas levantaram questionamentos sobre a transparência no tratamento das informações genéticas obtidas nos exames. "Fomos solicitadas a passar por testes biológicos invasivos sem transparência suficiente sobre o tratamento de informações genéticas profundamente sensíveis", dissseram.
Segundo as jogadoras, não houve esclarecimentos suficientes sobre o armazenamento dos dados, quem poderá acessá-los, por quanto tempo permanecerão arquivados e quais critérios serão adotados para um eventual uso futuro dessas informações.
As atletas também defenderam a criação de mecanismos mais transparentes para contestação de resultados, incluindo situações envolvendo possíveis falsos positivos. "Este comunicado não é sobre resistir à responsabilidade ou se recusar a cumprir regras. Trata-se de afirmar que as atletas merecem os mesmos padrões de privacidade médica, justiça processual, transparência e dignidade esperados em qualquer ambiente profissional que envolva informações genéticas e de saúde sensíveis", destacaram.
Como funciona a medida do COI?
A nova regra do Comitê Olímpico Internacional (COI) será aplicada a todas as modalidades dos Jogos Olímpicos, tanto individuais quanto coletivas. Pela política, a participação na categoria feminina dependerá de um exame capaz de identificar a presença ou ausência do gene SRY (Sex-determining Region Y), associado ao desenvolvimento biológico masculino.
Segundo o COI, a medida foi baseada em evidências científicas reunidas por um grupo de especialistas liderado por Jane Thornton, diretora de saúde e ciência da entidade. O comitê também destaca que a identificação do gene pode ser feita por métodos considerados pouco invasivos, como análises de saliva ou sangue.
O teste precisará ser realizado apenas uma vez ao longo da vida do atleta. Quem apresentar resultado negativo para o gene SRY será considerado apto a competir na categoria feminina sem a necessidade de novas avaliações. Já os casos com resultado positivo não terão direito a uma segunda testagem para confirmação.
Confira o comunicado da seleção feminina dos EUA na íntegra:
"O COI (Comitê Olímpico Internacional) determinou testes genéticos para todas as atletas mulheres que possam participar de eventos olímpicos. As atletas da Seleção Feminina dos Estados Unidos cumpriram os requisitos de testes de SRY conforme administrados pela FIVB. No entanto, sentimos a necessidade de expressar formalmente nossas grandes preocupações em relação tanto ao processo quanto à implementação dessa política.
Como atletas mulheres, fomos solicitadas a passar por testes biológicos invasivos sem transparência suficiente sobre o tratamento de informações genéticas profundamente sensíveis. No momento do teste, as atletas não foram claramente informadas sobre onde esses dados seriam armazenados, quem teria acesso a eles, como seriam protegidos, por quanto tempo seriam mantidos ou quais limitações existiriam em relação ao seu uso futuro.
Também estamos igualmente preocupadas com a falta de um processo independente de recurso claramente definido em caso de resultados contestados ou falsos positivos. Qualquer política que traga consequências tão sérias precisa incluir garantias transparentes de direito de defesa, procedimentos de confirmação e proteções para as atletas. A natureza desse mandato colocou as atletas em uma posição impossível: submeter-se a exames genéticos invasivos ou correr o risco de perder a oportunidade de competir no esporte e na profissão aos quais dedicamos nossas vidas. Essa não é uma dinâmica que pareça colaborativa, informada ou centrada nas atletas.
Este comunicado não é sobre resistir à responsabilidade ou se recusar a cumprir regras. Trata-se de afirmar que as atletas merecem os mesmos padrões de privacidade médica, justiça processual, transparência e dignidade esperados em qualquer ambiente profissional que envolva informações genéticas e de saúde sensíveis.
Embora a FIVB tenha respondido algumas das questões levantadas, acreditamos que as preocupações em torno desse processo são legítimas e merecem um debate sério. As atletas deveriam fazer parte da conversa e da construção de novos sistemas desde o início, e não serem recebidas com silêncio, incerteza ou pressão para cumprir regras sem questionamento.
Continuaremos defendendo proteções mais claras, comunicação, transparência e um processo justo para todas as atletas daqui para frente."
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