Ex-pegador de bolinhas, Júlio Silva critica declaração de Lula
"Tênis é esporte da burguesia, p...! Por que você não treina natação?". A declaração do presidente Lula a um garoto de uma zona carente do Rio de Janeiro em vídeo divulgado pela internet revoltou os tenistas brasileiros, mas um jogador ficou especialmente magoado com a visão do governante: Júlio Silva, que atualmente é o oitavo melhor atleta do Brasil no esporte.
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Profissional desde 1999, o paulista de Jundiaí começou como pegador de bolinhas em um clube. De vez em quando, tinha a oportunidade de assumir a raquete e aprendeu a jogar. Mostrou tanto talento que acabou entrando para a elite da modalidade e já esteve na chave principal de dois Grand Slams, Roland Garros-2006 e o Aberto dos Estados Unidos-2010.
"Eu vi o vídeo e achei uma coisa triste, especialmente pela forma como o moleque foi tratado. Não se pode ter este tipo de mentalidade no Brasil, pois o país só vai começar a mudar se começar a ter esperança nas pessoas que vêm de baixo. Elas são fortes por estarem vindo de uma favela e querendo um espaço no mundo", afirmou o atleta, que chegou a ser o 144° melhor do mundo em novembro do ano passado.
Silva conta que a falta de apoio quase o obrigou a desistir da carreira. "No começo, várias pessoas do clube me ajudaram com o dinheiro da passagem e do hotel e em outras vezes eu financei rifa de raquete. Também joguei torneios de dinheiro no Brasil. Hoje, consigo me virar com o dinheiro dos torneios", explica o jogador. "O governo tinha é que incentivar o tênis para pessoas de baixa renda porque de lá podem sair vários jogadores. No Brasil, só se investe em atleta quando ele já estorou é um top 100", reclama.
Atualmente já estabilizado, com um total de US$ 420 mil dólares (cerca de R$ 720 mil) em premiações ao longo da carreira, Silva pretende ser mais um esforço na tentativa de suprir a ausência de chances para meninos como ele foi, desfazendo assim qualquer tipo de preconceito.
"Daqui a dois ou três anos eu espero mexer com moleques carentes porque acho que vários deles têm futuro. Se não vierem a ser grandes atletas, que pelo menos sejam grandes cidadãos", afirma o tenista.