Preconceito contra jogadores franceses revela 'desconhecimento' e 'visão estereotipada' do país, diz historiador
Pela terceira vez seguida, a França chega a uma semifinal de Copa do Mundo. Dentro de campo, o adversário da vez será a Espanha. Fora das quatro linhas, entretanto, o país enfrenta um rival desleal que vem se repetindo a cada edição: o preconceito contra os jogadores franceses de origem estrangeira.
Para o historiador especialista em questões migratórias e no esporte, Yvan Gastaut, esse tipo de comportamento revela ao mesmo tempo uma falta de conhecimento sobre a história migratória francesa e um reflexo de como esses países enxergam o tema.
"Acredito que há duas razões. Uma delas, sem dúvida, é um desconhecimento sobre a França, uma visão muito estereotipada do país, que remete a uma França do início do século 19. Esse é um primeiro ponto. Essas pessoas não querem saber ou ignoram que a França é um país que acolhe imigrantes há muito tempo e o futebol é algo que, absolutamente, revela esse movimento migratório", argumenta o historiador.
"Além desse desconhecimento, me parece que isso também revela um 'espelho' dessas sociedades, mostrando que, talvez, esses países sejam muito pouco abertos e muito pouco diversos", opina Gastaut.
Ele lembra que, desde a sua origem, o futebol francês conta com jogadores com raízes estrangeiras, inclusive de países africanos. Entretanto, o historiador afirma que um "olhar desconfiado e pérfido" não permite aos críticos enxergarem esses fatos.
"Todos os grandes times franceses foram reforçados por estrelas que vieram da imigração, como Larbi ben Barek (de ascendência marroquina), nos anos 1930, Raymond Kopa, de origem polonesa, Michel Platini, de família italiana, Zinédine Zidane, com raízes argelinas, entre outros", recorda.
Ataques "ainda mais intensos"
Desde 2018, quando conquistou sua segunda Copa do Mundo, jogadores franceses vêm sendo alvos de comentários preconceituosos a respeito de suas origens, principalmente os de ascendência africana.
Um dos episódios mais recentes envolve o ex-primeiro-ministro conservador da Espanha, Mariano Rajoy. Em artigo de opinião publicado pelo jornal El Debate, ele descreve a seleção da França como uma equipe "sem franceses".
"É interessante porque este tipo de ideia vem desde 2018, quando a França conquistou a Copa do Mundo. Mas agora é ainda mais intenso (...) Frequentemente a gente vê esse tipo de comportamento entre torcedores, que não têm exatamente funções políticas. Mas nesse caso, se trata de pessoas que têm responsabilidades nos seus países", lamenta Yvan Gastaut.
A provocação acontece dois dias antes da semifinal do Mundial, que colocará Kylian Mbappé e seus companheiros de equipe diante da Espanha. O jogo será nesta terça-feira (14), às 16h (de Brasília), em Dallas, nos Estados Unidos.
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