Por que Arábia Saudita vem deixando de investir nos esportes
Poucas são as modalidades entre as mais populares, como futebol, tênis e MMA, que não têm apoio saudita. Mas o reino está se retirando do golfe e cancelando contratos. Seria o fim da era esportiva saudita?Os enormes investimentos esportivos da Arábia Saudita, do futebol ao snowboard, têm sido um dos principais temas de debate no esporte na última década.
O rico Estado do Golfo Pérsico ofereceu salários astronômicos a jogadores de futebol no ocaso de suas carreiras, conquistou o direito de sediar a Copa do Mundo de futebol após desenvolver fortes laços com o órgão máximo do futebol mundial, a Fifa; comprou um clube da liga de futebol inglesa, a Premier League; dividiu o mundo do golfe e buscou sediar todos os tipos de eventos, do snooker ao tênis feminino e à luta livre.
Essas extravagâncias estavam ligadas à estratégia Vision 2030, recentemente ajustada, que visa diversificar os interesses do país e reduzir a dependência do petróleo. A iniciativa é amplamente considerada uma forma de sportswashing, por meio da qual um país usa o esporte para "lavar" sua imagem e desviar a atenção de alegações de violações de direitos humanos.
De quais esportes a Arábia Saudita se retirou?
A desistência mais notável ocorreu na semana passada, no golfe. O LIV Golf, uma liga profissional de golfe operada pelo Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita (PIF, na sigla em inglês), um braço do Estado, foi cancelado pelo país. O fundo alegou que o "investimento substancial" exigido pelo evento a longo prazo "não é mais consistente com a fase atual da estratégia de investimento do PIF".
Fundado em 2021, o LIV se separou do estabelecido PGA Tour - o principal circuito profissional de golfe masculino do mundo - e atraiu alguns de seus melhores jogadores com salários elevados. Com o LIV prestes a fechar as portas sem novos investimentos, o retorno desses jogadores ao PGA Tour se tornou um ponto de controvérsia.
No futebol, o PIF vendeu em abril uma participação de 70% no Al Hilal, clube da Liga Profissional Saudita, justificando a medida como uma "estratégia para maximizar retornos e reinvestir capital na economia doméstica". O fundo não fez nenhum movimento para vender o clube inglês Newcastle United e parece querer manter alguns investimentos no futebol, antes de o país sediar a Copa do Mundo de 2034.
Outros esportes populares, como as artes marciais mistas (MMA), também parecem estar em uma situação mais segura por enquanto.
Ainda assim, vários eventos originalmente programados para o reino não serão mais realizados. O torneio Masters de snooker da Arábia Saudita foi cancelado na semana passada, dois anos após o início de um acordo de dez anos; a associação de tênis feminino (WTA) teve seu financiamento cortado e um evento de final de temporada cancelado. A Arábia Saudita também abandonou os planos de sediar a Copa do Mundo de Rugby de 2035 e os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029.
Por que interromper os investimentos em esportes?
Os motivos parecem ser tanto econômicos quanto políticos. Na semana passada, o administrador do PIF, Yasir al-Rumayyan, afirmou que a instituição estava "revisando seus investimentos e acordos" e "reavaliando suas prioridades" em decorrência das consequências da guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, bem como dos retornos mínimos obtidos com investimentos esportivos.
"A estratégia para 2026-2030 marca uma evolução natural, à medida que o PIF passa de um período de rápido crescimento e aceleração para uma nova fase de criação de valor sustentável, com foco reforçado na maximização do impacto, no aumento da eficiência dos investimentos e na aplicação dos mais altos padrões de governança, transparência e excelência institucional", declarou o fundo, em comunicado à imprensa.
Como é típico na Arábia Saudita, Al-Rumayyan também é presidente do Newcastle, da estatal petrolífera saudita Aramco e da maior mineradora do país, a Ma'aden. Ele é um aliado próximo do príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman. Esses tipos de relacionamentos e cargos interligados ajudam o governo a manter o controle de seus ativos esportivos, enquanto a Aramco também patrocina diversos eventos esportivos de grande repercussão. Um investimento tão amplo e diversificado torna complexo desvendar a relação da Arábia Saudita com o esporte.
Por que o investimento saudita no esporte é controverso?
A ONG Human Rights Watch (HRW), assim como a maioria das demais organizações de direitos humanos, considera isso um caso claro de sportswashing.
"Os investimentos do PIF em eventos esportivos e de entretenimento de grande repercussão, tanto nacionais quanto internacionais, são usados para encobrir o péssimo histórico de direitos humanos do país", afirmou a HRW.
Embora tenha havido alguma discordância no mundo esportivo, o dinheiro saudita tem circulado com bastante liberdade na maioria das modalidades.
No futebol, a Arábia Saudita precisou desenvolver uma relação próxima com a Fifa, enquanto outros esportes com menos recursos financeiros não conseguiram resistir à tentação do investimento. Críticos argumentam que isso deixa muitos esportes em uma posição precária caso o fluxo de dinheiro saudita seja interrompido, como ocorre agora.
Quais outros esportes podem perder o financiamento saudita?
A Fórmula 1 pode estar em risco, já que o Grande Prêmio da Arábia Saudita foi cancelado em abril devido à guerra no Irã. Além da corrida, o PIF detém participação em duas equipes e a Aramco - a empresa estatal de petróleo e gás do país - é uma das principais patrocinadoras da F1. Corridas de cavalos, xadrez, handebol e muitos outros esportes também dependem, em certa medida, de uma relação esportiva com a Arábia Saudita.
Ao que parece, essas e outras modalidades esportivas que dependem de investimentos sauditas precisarão demonstrar uma lucratividade que não tiveram até agora para não se tornarem o próximo LIV Golf.
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