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Cinco anos após 'caso Héverton', Lusa patina em dívidas e tenta se reerguer

Portuguesa cede Canindé para eventos e vê 'feirinha' como forma de amenizar dívida de R$ 350 milhões. Planejamento para Série A2 do Paulista lida com bloqueio de cota de TV

16 dez 2018
09h30
atualizado às 11h51
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Há exatos cinco anos, a Portuguesa iniciava um calvário em sua história ao ser punida no STJD por escalação irregular do meia Héverton diante do Grêmio, na última rodada, e rebaixada para a segunda divisão nacional. Na sequência, vieram três rebaixamentos consecutivos, dois em nível nacional - à Série C, em 2014, e à Série D, em 2016 - e um no Paulistão, caindo para a Série A2 em 2015, onde permanece. A Lusa iniciará um novo ano com realidade difícil: segue sem estar em uma divisão nacional e tentará voltar à elite paulista asfixiada por dívidas.

- Peguei o clube em uma situação dificílima, praticamente do zero. Com uma sucessão de dívidas trabalhistas, fiscais, cíveis, que envolvem desde ações movidas por ex-jogadores até empréstimos feitos por ex-presidentes. Acreditamos que o valor da dívida gire em torno de R$ 350 milhões - expôs ao LANCE! atual presidente, Alexandre Barros, que assumiu o cargo no início do ano passado.

Mesmo tendo bens penhorados e contas bloqueadas, o clube busca formas de continuar recolhendo os cacos do fatídico 16 de dezembro de 2013 e para voltar a ganhar projeção no cenário nacional.

CANINDÉ É LOCAL DE EVENTOS E DEVE ABRIGAR UMA 'FEIRINHA'

'Feirinha' não abriu ainda por entraves burocráticos (Reprodução/Facebook)

O Canindé se tornou uma das formas de a Lusa garantir renda. O estádio, que tem área de 42.350 metros quadrados, passou a ser alugado para eventos como festas e "raves".

Já outra medida tomada no clube causou controvérsias entre os sócios. As piscinas do parque aquático cederão espaço a uma futura "feirinha". O dirigente disse que foi uma forma de lucrar com um local que estava ocioso:

- Um dos compromissos que tive no início de mandato foi a reabertura de uma piscina, porque o parque aquático estava há sete anos inutilizado. Mas, quando vi, os tubos estavam penhorados e também deteriorados. Agora, teremos esta diminuição da área do espaço, mas acreditamos que esta feirinha vai nos ajudar a honrar nossos compromissos financeiros.

Contudo, o clube ainda passa por problemas burocráticos para iniciar a "Feira da Madrugada".

- O maior deles é a liberação do alvará da empresa "Feira da Madrugada". Existe o projeto e a gente quer cumprir o mais cedo possível.

Segundo a assessoria do clube, a Portuguesa também aluga outros terrenos, como uma churrascaria, o Village Canindé, além de um ginásio na Marginal Tietê, cedido a uma igreja evangélica. Porém, a agremiação lida com um grande obstáculo: os valores que entram na conta do clube são penhorados.

A Portuguesa ainda é assombrada pelo risco de o Canindé ir a leilão para saldar as dívidas protestadas em juízo. Aos olhos de Alexandre Barros, esta ameaça será frequente:

- A gente sabe que um juiz pode decretar o leilão a qualquer momento. O estádio está em garantia. Temos de fazer acordos trabalhistas com jogadores que entraram com ações contra o clube. Como o senhor Rogério Pinheiro, que recebe R$ 50 mil por mês. Ou senhor Marcos Vinícius, Ricardo Oliveira, Thiago Barcelos, que foi um que nunca atuou como profissional na Portuguesa, mas ganha dinheiro às custas do clube.

BLOQUEIOS AFETAM PLANEJAMENTO DA SÉRIE A2 E PAGAMENTO DE SALÁRIOS

'Temos ajuda de associados, de torcedores fanáticos e permutas' (Foto: Divulgação)

A penúria financeira trouxe sequelas dentro de campo. O planejamento para a Série A2 do Paulistão renderá desafios:

- Já estamos atrás dos demais clubes que disputam a Série A2 do Paulistão, porque temos 100% da cota de TV bloqueada. Nossa receita é a que fica menor por conta de bloqueios - afirmou Alexandre Barros sobre o valor repassado pela emissora que detém os direitos da competição para cada clube, que é de R$ 1 milhão.

De acordo com o mandatário, a ajuda financeira atual no clube acontece também graças ao carinho da torcida:

- Temos ajudas de associados, de torcedores apaixonados, parcerias, propagandas e permutas.

O LANCE! apurou que houve atrasos salariais para funcionários. O dirigente confirmou o problema, mas assegurou que na sua gestão tem batalhado para solucionar o problema:

- Quando assumimos o clube, eram nove meses de salários atrasados. Reduzimos para atraso de um mês. Dentro de dois dias, vamos quitar o mês de novembro. Depois, programaremos o mês de dezembro e o décimo-terceiro. Com alguns jogadores que foram embora, nós fizemos um acordo.

O volante Matheusão confirmou que houve atraso no pagamento de jogadores:

- Não é aquilo de estar em dia (nos salários dos jogadores). Tem alguns atletas que estão há três meses sem receber. Eu estou há dois meses.

Porém, o jogador, que é formado nas categorias de base, frisa que o clube vem tendo melhoras pontuais:

- Acho que mudou em relação à estrutura, à qualidade de alimentação. Melhorou muito. Sei porque jogo desde os oito anos aqui.

Um dos remanescentes do elenco que disputou a Série A2, Jonatas Paulista minimizou a questão salarial:

- Estas situações acontecem em todo o futebol brasileiro. Tem time multimilionário que está assim. Aqui já aconteceu, mas foram poucos dias.

SÉRIE A2 DO PAULISTA: REFORMULAÇÃO PARA OBTER O ACESSO

'Rei do Acesso', Luís Carlos Martins será o técnico da Portuguesa em 2019 (Foto: Divulgação)

Em meio às adversidades, a Portuguesa aposta nas mudanças para voltar a subir degraus no futebol. A reformulação foi a tônica para a Série A2 do Paulistão de 2019. Além de restarem apenas seis jogadores do elenco deste ano, a confiança passa pelo novo técnico:

- Contratamos o Luís Carlos Martins, pródigo em acessos. Já estamos montando um elenco experiente na divisão. É claro que prometer um acesso ninguém pode. Mas vamos nos empenhar muito - afirmou o presidente da Portuguesa.

Martins recebeu o apelido de "O Rei do Acesso" pelos recorrentes feitos de ascender de divisão: Comercial, Guaçuano, Matonense, União Barbarense e Mirassol, além de, em nível nacional, fazer América-RN e Oeste subirem de patamar.

Matheusão vê com otimismo as mudanças na Portuguesa. Além disso, traz motivos para o torcedor confiar na volta à elite do Paulistão:

- O Luis Carlos (Martins) chegou, trouxe muitos jogadores experientes, que conhecem bem a disputa da Série A2. Na disputa deste ano, a gente tinha um elenco muito limitado, com muitos jogadores da base. Faltou um pouco de experiência para buscar algo maior.

Já para Jonatas Paulista, estar entre os remanescentes torna-se um desafio:

- A gente sabe que quem ficou foi escolhido a dedo. Por isso, a responsabilidade e as cobranças vão ser maiores. Mas o grupo vem sendo montado, a estrutura está boa e a gente tem conversado bem com nosso novo técnico.

COBRANÇA 'DE SÉRIE A'

'É uma exigência maior, a cobrança aqui é muito grande', diz Matheusão (Divulgação/ Portuguesa)

Passados cinco anos, a sensação entre os jogadores é de que a torcida da Portuguesa mantém sua confiança e cobra um resgate no gramado:

- Para quem é de São Paulo, percebe o quanto é difícil jogar aqui na Portuguesa. O clube vem caindo muito, são muitos rebaixamentos seguidos, o primeiro do jeito que foi. É uma exigência maior, a cobrança é muito grande. Mas eu, por ter vindo da base, sou visto com um pouco mais de carinho - declara Matheusão.

Aos olhos de Jonatas Paulista, os jogadores têm de ver pelo lado positivo:

- Isso é bom. Um clube sem cobrança não se motiva a brigar pelo acesso. E aqui a pressão é que nem a de Série A.

Entre os torcedores, há aqueles que sofrem muito com o estágio em que o clube se encontra. É o caso de José Maria Oliveira, sócio da Portuguesa há cinquenta anos.

- Estou muito chateado com o que se passou com a Portuguesa. criei dois filhos dentro do Canindé. Eles eram torcedores da Portuguesa, não conseguem torcer para mais ninguém - contou à reportagem.

VIRAR A PÁGINA DO 'CASO HÉVERTON'?

Héverton, pivô do descenso da Lusa: de lá para cá, foram vários descensos da equipe (Mauro Horita/AGIF)

Enquanto torcedores ainda cobram explicações sobre 2013, o presidente Alexandre Barros não considera o "caso Héverton" o pontapé inicial para a crise que hoje assola a Portuguesa. Ele foi categórico:

- Na verdade, a Portuguesa deixou de ser aquela equipe que brigou por títulos nos anos 1990. De 2000 para cá, foram anos vivendo de lampejos. Campanhas fracas na elite, idas para a Série B e até quase caindo para a Série C. O último grande momento foi a "Barcelusa" de 2011 (time que fez campanha marcante na Série B nacional, içando o clube de volta à elite). Em 2013, quando veio o "caso Héverton", a Portuguesa já tinha sérios problemas financeiros, no ano em que fez uma campanha em que se arrastou na elite.

Cinco anos depois, o desejo no Canindé é dar o primeiro passo para uma reação:

- A gente pensa em fazer uma boa campanha na Série A2. Honrar a camisa que veste e ir subindo de jogo em jogo. O Luís Carlos (Martins) está buscando pouco a pouco montar uma equipe bem forte. E eu garanto que a gente quer colocar a Portuguesa no lugar de onde nunca devia sair, que é o cenário nacional - garante Matheusão.

já Barros espera que as boas notícias venham dentro e fora de campo:

- Tenho de me pautar dia após dia. Teremos duas competições em 2019, a Série A2 e a Copa Paulista. Vamos nos empenhar, mas, é óbvio que ao torcedor só interessa a vitória, os títulos. Agora, nosso grande objetivo é estancar ao máximo nossas dívidas e não aumentar as ações trabalhistas.

Passados cinco anos, o desafio é amenizar as cicatrizes da Lusa. Para voltar a disputar a principal competição nacional, a Lusa precisa conquistar vaga na Série D - a quarta divisão - e o ingresso a ela depende de desempenho no Paulistão ou na Copa do Brasil.

Lance!
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