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Esporte e política: minha experiência como atleta

'Jogos Olímpicos não podem enfrentar todos os desafios políticos e sociais, mas podem servir de exemplo para um mundo onde todos respeitam uns aos outros'

23 out 2020
14h10
atualizado às 16h44
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Participar dos Jogos Olímpicos é uma experiência incrível para todos os atletas. Mas é também um exercício de humildade quando percebemos que fazemos parte de algo maior. Fazer parte de um evento que une o mundo. Nos Jogos Olímpicos, somos todos iguais. Todos respeitam as mesmas regras, independentemente do contexto social, gênero, raça, orientação sexual ou crença política.

A primeira vez que vivenciei esta magia foi nos Jogos Olímpicos de Montreal em 1976. A partir do momento em que me mudei para a Vila Olímpica, senti o espírito Olímpico ganhar vida. Viver em conjunto com os meus colegas atletas de todo o mundo abriu-me os olhos para o poder unificador do esporte. Como atletas, competimos no esporte, mas na Vila Olímpica, vivemos todos em paz sob o mesmo teto. Sempre que os atletas Olímpicos se reúnem, independentemente de onde viemos ou quando competimos nos Jogos, esta experiência compartilhada torna-se imediatamente o tema das nossas conversas.

No entanto, um incidente manchou a minha primeira experiência olímpica. Pouco antes da Cerimônia de Abertura, olhei pela janela do nosso quarto na Vila Olímpica e vi um grande grupo de atletas africanos de malas feitas. Muitos deles estavam em lágrimas, outros cabisbaixos em desespero. Depois de perguntar o que estava acontecendo, descobri que eles tinham de ir embora devido a uma decisão de última hora dos seus governos de boicotarem os Jogos. A devastação de ter o sonho Olímpico destruído no último momento, depois de tantos anos de trabalho árduo e antecipação, ainda me atormenta hoje.

Isto foi o prenúncio de outro momento decisivo, quatro anos depois, quando vivenciei a impotência política do esporte por ocasião do boicote aos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980. Como presidente da comissão de atletas da Alemanha Ocidental, opus-me veementemente a este boicote porque castigou a nós atletas por algo com o qual não tivemos nada a ver - a invasão do Afeganistão pelo exército soviético. Tive de perceber que as organizações esportivas tinham muito pouca influência política, se alguma, e nós, como atletas, tínhamos muito pouco a dizer. As nossas vozes não foram ouvidas, nem pelos políticos, nem pelos nossos dirigentes esportivos. Foi uma experiência muito humilhante.

No final, o Comitê Olímpico Nacional da Alemanha Ocidental foi um dos muitos a boicotar os Jogos. Não serve de consolo que, em última análise, se tenha provado que estávamos certos quanto ao fato de este boicote não só ter punido as pessoas erradas, como também não ter tido qualquer efeito político: o exército soviético permaneceu mais nove anos no Afeganistão. Na verdade, o boicote de 1980 só desencadeou o boicote de vingança nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984.

Estas duas experiências ainda hoje moldam o meu pensamento. Tornaram claro para mim que a missão central dos Jogos Olímpicos é reunir os melhores atletas do mundo de 206 Comitês Olímpicos Nacionais (CONs) numa competição esportiva pacífica.

Os Jogos Olímpicos não se centram em política. O Comitê Olímpico Internacional (COI), enquanto organização civil não governamental, é sempre estritamente neutro do ponto de vista político. Nem a escolha da sede nem a participação nos Jogos são um julgamento político em relação ao país anfitrião. Os Jogos Olímpicos são regidos pelo COI e não por governos. O COI emite o convite aos CONs (Comitê Olímpico Nacional) para participarem. Os convites não são provenientes do governo do país anfitrião. É o CON que posteriormente convida as respectivas autoridades políticas a acompanharem os seus atletas aos Jogos. O chefe de Estado do país anfitrião só pode dizer uma frase, escrita pelo COI, para abrir oficialmente os Jogos. Nenhum outro político está autorizado a desempenhar qualquer papel, nem mesmo durante as cerimônias de entrega de medalhas.

Os Jogos Olímpicos não têm a ver com lucro. O COI reinveste 90% de todas as suas receitas em atletas de todo o mundo, principalmente nos países em desenvolvimento. O dinheiro vai para os organizadores dos Jogos Olímpicos que dão aos atletas o palco para estes brilharem. Os Jogos Olímpicos só podem unir o mundo inteiro através do esporte se todos puderem participar. É por isso que a solidariedade beneficia todos os atletas do mundo. Não apenas alguns países, ou alguns esportes. O nosso dinheiro beneficia todos os atletas de todos os 206 CONs, da Equipe Olímpica de Refugiados do COI e de todos os esportes Olímpicos, garantindo assim uma verdadeira universalidade e diversidade.

Os Jogos Olímpicos são, em primeiro lugar, sobre esporte. Os atletas personificam os valores de excelência, solidariedade e paz. Eles expressam esta inclusão e respeito mútuo ao serem também politicamente neutros no campo de jogo e durante as cerimónias. Por vezes, este foco no esporte tem de ser conciliado com a liberdade de expressão de que todos os atletas gozam também nos Jogos Olímpicos. É por isso que existem regras para o campo de jogo e as cerimônias que protegem este espírito esportivo. O poder unificador dos Jogos só pode ser desenvolvido se todos demonstrarem respeito e solidariedade uns com os outros. Caso contrário, os Jogos se transformarão em um festival de manifestações de todos os tipos, dividindo e não unindo o mundo.

Os Jogos Olímpicos não podem evitar guerras e conflitos. Também não podem enfrentar todos os desafios políticos e sociais do nosso mundo. Mas podem servir de exemplo para um mundo onde todos respeitam as mesmas regras e uns aos outros. Podem inspirar-nos a resolvermos problemas com amizade e solidariedade. Podem construir pontes que levem a uma melhor compreensão entre as pessoas. Desta forma, podem abrir as portas para a paz.

Os Jogos Olímpicos são uma reafirmação da nossa humanidade compartilhada e contribuem para a unidade em toda a nossa diversidade. Como aprendi através da minha experiência, garantir que os Jogos Olímpicos possam revelar esta magia e unir o mundo inteiro em paz é algo pelo qual vale a pena lutar todos os dias.

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Estadão
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