Irmãos se parecem e também nadam de maneira semelhante
Em um café pitoresco em Florença, Hillary Phelps pediu um cappuccino. Era quinta-feira, um dia de folga para Michael, seu irmão mais novo, no campeonato mundial de natação, e a mãe deles havia fugido do Foro Italico em busca de algumas horas de calma e tranquilidade.
Phelps entregou o cartão de crédito ao caixa, e quando ele viu seu nome, os olhos do jovem se iluminaram: "Você é a irmã de Michael Phelps?", ele perguntou.
Logo que ela respondeu afirmativamente, ele saiu correndo de trás do balcão para pedir que ela tirasse uma foto com ele.
Phelps, que trabalha como organizadora de eventos em Baltimore, atraiu olhares espantados, em Pequim, e pessoas já pediram seu autógrafo em Boston. Quando ela e Whitney, sua irmã mais nova, saem juntas, desconhecidos que as conhecem por as verem em cerimônias de premiação em eventos de natação perguntam "vocês são as irmãs de Michael?" Ou "vocês são as meninas Phelps?"
"Muita gente nos pergunta como é viver à sombra de um irmão como o nosso", disse Hillary na sexta. "Eu costumo responder brincando, e digo que fomos nós que ensinamos tudo a ele".
Ser irmã de um atleta de sucesso pode ser uma experiência desorientadora: é preciso competir por atenção, em casa, e em público se torna impossível escapar a ela.
A equipe norte-americana no mundial de natação de Roma este ano inclui duas irmãs, Alyssa e Haley Anderson, e entre seus membros há outros casos de irmãos e irmãs nadadores que inspiraram seus familiares na escolha do esporte.
Nas biografias que constam de suas fichas, 14 dos membros da equipe mencionam irmãos ou irmãs mais velhos que praticavam natação como motivo de sua escolha do esporte. O que fica sem dizer é o delicado equilíbrio requerido para manter harmonia em casa quando o mais jovem supera o mais velho em termos de tempos, títulos ou ambos.
Elizabeth Pelton, que chegou à final dos 200 metros nado de costas no sábado, é a segunda dos quatro filhos de Greg e Anne Quade Pelton, uma família de nadadores.
"Tentamos não dar atenção demasiada a qualquer um deles", diz Pelton. "Nas últimas semanas, muitos repórteres e outras pessoas nos procuraram, por conta do desempenho de Liz, mas tento não falar demais porque não quero que meus filhos mais novos pensem que é só nisso que pensamos".
O irmão mais velho de Elizabeth, Greg Jr., vai começar a faculdade, e a saída dele da casa paterna coincide com a ascensão de sua irmã na natação.
"Quando entrei em Harvard, em novembro, foi meu momento de brilhar", ele diz. "Agora é o dela".
Depois que Pelton conquistou a primeira de suas quatro vagas nas provas individuais do mundial de natação, Greg Jr. decidiu abandonar seus planos de disputar o US Open de natação, que acontece esta semana em Federal Way, Washington, vendeu no eBay um monte de brinquedos e roupas descartados pelo pessoal de sua casa e comprou uma passagem de avião para assistir ao desempenho de sua irmã em Roma.
Aos 12 anos de idade, ele estabeleceu um recorde para aquela faixa etária na prova dos 50 metros estilo livre. Elizabeth se classificou para uma seletiva olímpica, naquela idade.
"Foi mais ou menos àquela altura que ela me superou em elogios e realizações", diz Greg Jr. "E não foi fácil lidar com isso".
Ele acrescentou que "eu nunca tive inveja, porque há coisas que eu faço bem e de que ela não gosta tanto".
O estudo é uma delas. "Isso é algo a que posso me apegar à medida que ela melhora", ele diz.
Greg Jr. afirma que para ele e sua irmã as coisas são mais fáceis porque não competem diretamente. São mais parecidos com os irmãos John e Tracy Austin, no tênis, enquanto as irmãs Anderson se assemelham a Venus e Serena Williams.
Alyssa, que está no segundo ano da Universidade do Arizona, é 14 meses mais velha que Haley. As duas se formaram com um ano de diferença na Granite Bay High School, Califórnia, e as duas se especializam em provas de nado livre. Alyssa, 18, conquistou uma medalha de prata em Roma como parte da equipe de revezamento quatro por 200 metros, nado livre. Haley, 17, obteve o 28° lugar na disputa dos 800 metros livres.
Nos campeonatos de sua escola de segundo grau, Haley esteve a ponto de bater o recorde regional estabelecido por sua irmã nos 500 metros livres dois anos antes, mas não conseguiu, e Alyssa, que estava de férias da faculdade e assistiu à disputa, disse que não sabia se devia se sentir feliz ou triste. "Foi uma espécie de conflito interno", disse.
As irmãs Anderson, que tem mais uma irmã, de 12 anos, são tão amigas que completam as sentenças uma da outra. Mas não lamentam muito a distância física que existe entre elas desde que Alyssa começou a faculdade.
"Creio que houve um momento em que eu achava que ela estava copiando tudo que eu fazia", disse Alyssa. "Eu ficava lamentando que não pudesse ter nada de só meu. As pessoas me diziam que ela estava nadando tão rápido que logo me ultrapassaria. E eu pensava: será que eles não sabem que sei disso?"
Haley se voltou para Alyssa e comentou: "Bem, também não é fácil para mim, porque as pessoas sempre ficam te elogiando quando falam comigo".
As duas trocaram um olhar e um sorriso. Alyssa acariciou de leve o joelho da irmã.
Na família Phelps, quem caiu na água com maior entusiasmo foi Hilary; Aos 11 anos de idade, ela pediu aos pais, Debbie e Fred, que permitissem que ela incluísse em sua agenda diária uma segunda sessão de treino de natação.
A paixão dela era tamanha que Michael e Whitney terminaram arrastados na correnteza. Já que eram forçados a acompanhar a mãe quando esta levava Hilary à piscina para treinar, eles começaram a tomar lições de natação, porque melhor isso do que esperar no carro. Hilary recorda que Whitney, e especialmente Michael, viam o esporte com ambivalência, no começo.
"Ele dizia que de jeito nenhum queria enfiar o rosto na água", ela conta, rindo. "Lembro que, quando tinha oito anos, ele disputou uma prova contra meninos de 10 anos e, ao final, disse que para ele chegava, queria voltar para casa. E nós dissemos que ele não podia voltar, porque tinha passado para a final".
Mas a maré virou quando Whitney e Michael chegaram à adolescência. Whitney começou a nadar mais rápido que Hilary.
Aos 14 anos, Whitney conquistou vaga para a equipe dos Estados Unidos no mundial de 1994, em Roma. Na seletiva para a Olimpíada de 1996, ela entrou com o primeiro lugar no ranking dos 200 metros borboleta, mas terminou em sexto. Ninguém sabia, na época, mas ela tinha problemas de hérnia de disco e duas fraturas por estresse nas costas. As lesões a convenceram a deixar o esporte mais cedo do que havia planejado.
Enquanto Whitney ganhava destaque nacional, Hilary perdia o entusiasmo pela natação. Conversou com a mãe sobre trocar as piscinas pelo lacrosse. "Naquela altura, eu só queria encontrar algo de meu", diz Hilary.
Mas ela persistiu na natação, e conquistou uma bolsa para a Universidade de Richmond. Em 2000, Michael assistiu à última prova universitária que ela disputou. No verão daquele ano, Hilary e Whitney estavam presentes quando o irmão, então com 15 anos, chegou à sua primeira olimpíada, nos 200 metros borboleta.
A primeira pessoa que ele abraçou depois da prova foi Whitney, que não foi à Olimpíada de Sydney naquele ano. Ela não conseguiu assistir ao seu irmão nas provas olímpicas durante quatro anos.
"Creio, refletindo sobre o assunto, que era difícil para ela porque, em 2000, Michael chegou à equipe em companhia de nadadoras que ela costumava vencer", disse Hilary. "Whitney sempre apoiou Michael ao máximo, mas no começo era difícil para ela assistir às provas".
Michael, agora com 24 anos, diz ter aprendido muita coisa de útil ao observar as trajetórias de suas irmãs. Ele se queixa quando sente dores físicas. Estabelece metas mas só as revela ao seu técnico, Bob Bowman, de forma a manter baixa a pressão externa.
Hilary diz que ela e a irmã torcem melhor agora porque sabem como era competir nas piscinas.
"Temos de nos lembrar constantemente", diz Hilary, "que podemos acompanhar das arquibancadas, a família toda de mãos dadas, inquieta nas cadeiras, mas em última análise o resultado estão completamente fora de nosso controle. Tudo cabe a Michael".
Mas irmãos que nadam juntos continuam juntos. E isso é impossível de esquecer.
Tradução: Paulo Migliacci ME