Com laços históricos, Marrocos tem cinco titulares nascidos e formados na França
Questões de territoriais e imigração tornam clima tenso entre as seleções que se enfrentam nas quartas de final da Copa
A relação entre França e Marrocos tem alguns componentes íntimos que acirram ainda os ânimos para a partida de quartas de final, nesta sexta, às 17h, em Boston. Além da crescente rivalidade no campo, com o confronto de semifinal da última Copa do Mundo, os países mantêm laços históricos que vão desde invasão ao território a questões imigratórias delicadas.
Na bola, hoje, a seleção africana tem vários "espiões". Afinal, seis jogadores nasceram em solo francês e são formados no futebol local. Cinco deles devem ser titulares: Issa Diop, Neil El Aynaoui, Samir El Mourabet, Redouane Halhal e Ayyoub Bouaddi (Gessime Yassine é reserva).
A França, aliás, é disparado o país com mais jogadores convocados nesta Copa. São 99 no total, dos quais 76 defenderam outras seleções. O segundo lugar deste ranking é a Holanda, com 53 nomes (28 deles distribuídos por times africanos e Curaçao). O Brasil está no top 10, com 29 atletas - os 26 da Seleção e mais Matheus Nunes (Portugal) Maurício (Paraguai) e Lucas Mendes (Catar).
Invasão e independência
Em 1844, tropas franceses ocuparam o Marrocos logo após anexarem a vizinha Argélia. Após décadas de exploração e conflitos, o país africano se tornou um Protetorado em 1912, em virtude de uma tentativa de invasão da Alemanha. Dessa forma, a França manteve o controle militar e das relações exteriores, ainda que sob governo marroquino. Essa condição durou 44 anos.
Mesmo com a independência, em 1955, muitos nativos continuaram o processo de imigração para a França, em busca de melhores oportunidades de trabalho. Estima-se que haja 1 milhão em território francês. A mistura étnica se tornou, ao longo do tempo, uma marca de várias nações europeias.
Casos semelhantes ocorrem com outros participantes da Copa, como Argélia, Tunísia, Costa do Marfim e Senegal. Todos têm o francês como um dos idiomas oficiais e esiveram sob o domínio externo por algumas décadas em séculos passados. Aliás, o último destes a ter sua independência formalizada foi a Argélia, em 1962, após uma guerra sangrenta contra as tropas francesas.
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Hoje, porém, França e Marrocos são parceiros comerciais e geopolíticos e vivem momento diplomático mais tranquilo, depois de realinharem as regras para imigração, em 2023, o que até então causava tensão e milhares de deportações. Além disso, o governo francês declarou apoio aos marroquinos na questão da soberania à área do Saara Ocidental.
Artilheiro dos anos 50 é marroquino
O nome de um atacante histórico ressurgiu neste Mundial. Trata-se de Justin Fontaine, até hoje o maior goleador de um só torneio, com 13 gols, em 1958 - ano do primeiro dos cinco títulos do Brasil. Com os números expressivos de Messi (8 gols), Mbappé (7) e Haaland (7), o recorde começa a correr a perigo. Fontaine nasceu no Marrocos, em 1933, filho de mãe espanhola e pai francês.
Por sinal, o craque chegou a defender a seleção de sua terra natal antes de se mudar em definitivo para a França. Hoje, Ayyoub Bouaddi e Issa Diop vivem situação parecida, ainda que inversa. Afinal, ambos chegaram a jogar sub-20 da França até decidir aceitar o convite marroquino.
O único convocado por Didier Deschamps que não nasceu em solo francês é Michael Olise. O meia-atacante do Bayern de Munique tem pai nigeriano, mãe franco-argelina e, por isso, pôde aplicar para múltiplas cidadanias. Ele é o principal assistente da seleção, com seis passes para gol.
França e Marrocos se enfrentaram seis vezes na história, com quatro vitórias europeias, um empate e uma vitória africana (nos pênaltis, em torneio amistoso de 1998). O último e mais importante encontro foi em dezembro de 2022, pela semifinal da Copa do Catar, e terminou 2 a 0 para os franceses.
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