Coreia do Norte busca ampliar hegemonia no futebol feminino de base e se reafirmar como potência
País asiático domina competições internacionais da modalidade e busca alçar voos maiores na transição para a equipe principal
Fruto de um projeto estatal iniciado em 2013, a Coreia do Norte consolidou-se como potência no futebol feminino de base, acumulando títulos mundiais no Sub-17 e disputando nova final no Sub-20. O desafio atual é transferir essa hegemonia para a seleção principal, já classificada para a Copa do Mundo de 2027 após anos de ausência, superando barreiras como o isolamento internacional e sanções econômicas que limitam a ida de atletas aos grandes clubes mundiais.
A Coreia do Norte entra em campo neste domingo, 27, às 13h (de Brasília), para encarar a Espanha na decisão da Copa do Mundo Feminina Sub-20. Potência nas categorias de base da modalidade, o país colhe frutos de projeto que começou em 2013 e modernizou prática do futebol no local.
Naquele ano, Kim Jong-un, líder supremo da nação asiática, construiu as primeiras escolas internacionais de futebol na capital Pyongyang, com o objetivo de profissionalizar e desenvolver o esporte no país.
A medida ocorreu em um período que a Coreia estava banida de disputar as eliminatórias e participar da Copa do Mundo Feminina de 2015, por conta de uma série de jogadoras reprovadas em testes antidoping durante a participação da edição anterior.
Agora, a equipe principal garantiu sua vaga no torneio de 2027, que será sediado no Brasil, depois de vencer a fase de play-in da Copa da Ásia. As norte-coreanas golearam Taipei Chinês por 4 a 0 e se classificaram à Copa pela primeira vez desde 2011.
Crescimento e protagonismo na base
Os principais resultados do projeto governamental foram colhidos nas categorias de base. No sub-20, a Coreia do Norte venceu duas das últimas quatro edições da Copa do Mundo da categoria e está na final de mais uma competição, diante das espanholas.
Neste ano, na Polônia, a meia Choe Yon-a vem tendo de destaque saindo do banco de reservas e lidera a artilharia do time com cinco gols marcados. A defesa também é um ponto forte da equipe comandada pelo técnico Han Chol-hak, setor que ainda não foi vazado em nenhuma das partidas.
O sub-17 também está mostrando sua força em torneios intercontinentais. As norte-coreanas são as atuais bicampeãs consecutivas do Mundial da categoria. Na edição de 2025, foram sete vitórias em sete jogos disputados, 25 gols marcados e apenas três sofridos, com direito a um 3 a 0 sobre a Holanda na decisão.
Transição para o profissional
O grande desafio para a Coreia é aproveitar o sucesso na base e potencializar seus talentos na seleção principal. O retorno à Copa do Mundo Feminina pode ser um primeiro passo depois de ciclos acidentados nos últimos anos.
"No caminho para o Mundial de 2019, nas eliminatórias para a Copa da Ásia, a cidade de Pyongyang recebeu o direito de sediar o processo seletivo. Surpreendentemente, a Coreia do Sul caiu nesse mesmo grupo, mas ainda mais surpreendente foi a seleção sul-coreana conseguir empatar com a RPDC (República Democrática da Coreia) fora de casa. Uma série de resultados permitiu a classificação da Coreia do Sul pelo saldo de gols. Ficar fora da Copa da Ásia de 2018 significava também ficar fora da Copa do Mundo de 2019?, explicou o dono do perfil chileno "Fútbol en Coreia del Norte", que fala sobre o esporte praticado no país nas redes sociais.
"O caminho para o Mundial de 2023 foi interrompido pela pandemia de Covid-19, pois a Coreia retirou todos os seus atletas das competições internacionais devido a isso. É possível que o pouco intercâmbio internacional seja um problema no futuro, já que as jogadoras de alto nível não podem ser contratadas por grandes clubes das ligas femininas devido às sanções impostas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, que proíbem a contratação de trabalhadores norte-coreanos, incluindo os futebolistas", completou.
No universo de clubes, o Naegohyang é a principal equipe norte-coreana. Na temporada 2025/26, o time conquistou a Liga dos Campeões da Ásia Feminina e assegurou sua vaga para a edição inaugural da Copa do Mundo de Clubes Feminina, em 2028.
"Minhas expectativas são altas (pela participação no torneio), pois o clube conta com a melhor atacante da Coreia, Kim Kyong-yong. Além disso, o treinador Ri Yu-il é muito astuto no esquema tático das partidas, mas não tenho certeza se o Naegohyang viajará para os Estados Unidos devido às relações com esse país", disse o dono do "Fútbol en Coreia del Norte", que revelou que se atualiza sobre a modalidade praticada na nação pelos jornais locais disponíveis na internet.
Neste momento, Kyong-yong está representando a Coreia do Norte nos Jogos Asiáticos, que acontecem no Japão. A atacante tem três gols marcados no torneio e ajudou sua seleção a alcançar a fase de semifinal. Elas voltam a campo na próxima terça-feira, 29, às 03h, para enfrentar a China.
Comparação com o masculino
Enquanto o feminino mostra uma evolução e um trabalho a longo prazo no futebol, o time masculino da Coreia não possui o mesmo desempenho. As mulheres irão disputar sua quinta Copa do Mundo, ao mesmo tempo que os homens jogaram somente duas.
Na última vez, em 2010, o país caiu no grupo do Brasil, que levou a melhor e venceu o confronto por 2 a 0. Já em 1966, os norte-coreanos surpreenderam o planeta e derrotaram a Itália pelo placar mínimo, só caindo para Portugal na fase de quartas de final.
"Sendo a Coreia do Norte um país comunista Juche, a igualdade de gênero está incluída na ideologia, de modo que o plano (de profissionalizar o futebol) foi voltado tanto para homens quanto para mulheres", disse o chileno.
Em relação a Copa da Ásia, a equipe masculina soma seis participações (incluindo a de 2027) e uma quarta colocação em 1980. O feminino, por sua vez, competiu em 11 torneios e acumula três títulos (2001, 2003 e 2008).
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