Congelar hoje para jogar amanhã: maternidade no tempo das atletas
Médica Fabyanne Mazutti detalhou o relógio biológico das mulheres que são atletas e caminhos que podem ser tomados
O relógio biológico sempre foi um dos adversários mais silenciosos na carreira de atletas de alto rendimento. No futebol feminino, onde o auge físico muitas vezes coincide com a fase mais fértil da vida, a decisão entre seguir competindo ou formar uma família ainda impõe dilemas profundos. Nos últimos anos, porém, um recurso da medicina reprodutiva tem mudado esse jogo: o congelamento de óvulos.
A técnica, conhecida como criopreservação de oócitos, vem ganhando espaço entre jogadoras profissionais que desejam prolongar a carreira sem abrir mão do sonho da maternidade. Em um cenário de crescente profissionalização do futebol feminino, o tema começa a ser discutido com mais abertura - inclusive por grandes nomes do esporte.
A atacante norte-americana Alex Morgan, campeã mundial e uma das vozes mais influentes da modalidade, já abordou publicamente os desafios de conciliar maternidade e alta performance. A atleta deu à luz em 2020 e retornou aos gramados em alto nível poucos meses depois - um feito que, embora admirável, não é facilmente replicável por todas. Sua experiência ajudou a ampliar o debate sobre planejamento familiar no esporte.
No Brasil, a lendária Marta, seis vezes eleita melhor jogadora do mundo pela FIFA, frequentemente levanta discussões sobre longevidade no futebol feminino. Aos 40 anos, segue competitiva e traz à tona, ainda que indiretamente, uma questão inevitável: até quando é possível adiar decisões pessoais em nome da carreira?
Especialistas apontam que o congelamento de óvulos pode ser uma ferramenta estratégica.
- A atleta consegue preservar sua fertilidade em um momento biologicamente mais favorável e decidir pela gestação em um momento mais oportuno da carreira, sem precisar abrir mão dos seus planos pessoais e profissionais - explicou a médica especialista em reprodução humana Fabyanne Mazutti.
Apesar dos benefícios, o procedimento ainda enfrenta barreiras - principalmente financeiras. No Brasil, o custo pode variar entre R$ 15 mil e R$ 30 mil por ciclo, além das taxas anuais de armazenamento. Para muitas jogadoras, especialmente fora das grandes ligas, o acesso ainda é limitado.
Além disso, há o aspecto emocional. Adiar a maternidade não é apenas uma decisão técnica, mas também envolve questões pessoais, culturais e até contratuais. Clubes e patrocinadores começam, ainda que timidamente, a discutir políticas mais inclusivas para atletas que desejam ser mães - incluindo o congelamento de óvulos como benefício, algo já adotado por algumas empresas fora do esporte.
O debate sobre maternidade no esporte também dialoga com uma pauta mais ampla: equidade de gênero. Enquanto jogadores homens raramente enfrentam questionamentos sobre paternidade e desempenho, mulheres ainda lidam com expectativas conflitantes. Nesse contexto, o congelamento de óvulos surge não apenas como uma solução médica, mas como um símbolo de autonomia.
Uma forma de afirmar que, sim, é possível escolher - e que o apito final da carreira não precisa marcar também o fim de outros sonhos. No futebol feminino contemporâneo, onde cada vez mais atletas conquistam espaço, visibilidade e direitos, planejar o futuro deixou de ser um tabu. E, talvez, no jogo da vida, essa seja uma das estratégias mais importantes: garantir que o tempo esteja, finalmente, do lado delas.
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