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Futebol

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Fim do futebol? Como a possível proibição das bets no Brasil impacta nas finanças dos clubes

Discussão sobre a participação dos jogos de azar nos times brasileiros envolve altas cifras e solução requer tempo e planejamento

19 set 2026 - 04h57
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Palmeiras foi um dos oito clubes que assinaram o manifesto pelas manutenção das bets regulamentadas
Palmeiras foi um dos oito clubes que assinaram o manifesto pelas manutenção das bets regulamentadas
Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon

O manifesto em defesa das bets regulamentadas assinado por oito clubes da Série A do Brasileirão e duas federações estaduais inflamou um debate que, frequentemente, volta à tona no país: futebol do Brasil é totalmente dependente das casas de aposta? De acordo com o texto, escrito em tom apelativo, sim. Entretanto, o debate vai muito além da relação direta criada entre os times e seus patrocinadores e abrange discussões sobre os impactos sociais que esse mercado impõem à sociedade. 

Uma Medida Provisória (MP) que pode ser publicada pelo Governo Federal tem como principal objetivo proibir os jogos de cassino online no país. No manifesto assinado pelos clubes, o texto afirma que, diante das regulamentações feitas pelo Governo Federal desde 2023, não há porque não seguir com o mercado regulamentado em andamento e que a proibição dos cassinos não só dará força às bets ilegais como também “acabará com o futebol brasileiro”, segundo a própria carta publicada na quinta-feira, 17.

A possível aprovação da MP, apesar de não citar a proibição de apostas esportivas, pode, sim, ser responsável por alterar a estrutura financeira das bets no Brasil. Isso porque quase a totalidade do faturamento dessas empresas não vem do dinheiro perdido nas partidas de futebol, e sim de jogos de cassino inclusos em cada plataforma. 

O debate surge em um momento conturbado para as bets no Brasil. Desde a Copa do Mundo, com um boom de publicidade e acessos nas casas de aposta, a discussão sobre os impactos financeiros na população, principalmente em famílias de baixa renda, ganhou força. Um estudo realizado pela Similarweb, empresa especializada em análise de dados, identificou que a média de acessos em plataformas de aposta em dias de jogos da Seleção era de 78 milhões em todo o país.

A evolução das bets no Brasil

O mercado de apostas ganhou seu espaço aos poucos. O ano de 2023 foi fundamental para aumentar o ritmo de crescimento, com a aprovação da Lei de regulamentação nº 14.790/2023. Esse fato contribuiu positivamente para as empresas, que passaram a contar com uma segurança jurídica junto ao Ministério da Fazenda, além de facilitar a comunicação e expandir a atuação do marketing dessas marcas.

A autorização também contou com uma contrapartida financeira relevante. Cada bet desembolsou R$ 30 milhões em outorga ao Governo Federal para garantir a concessão de funcionamento. A regulamentação gerou altos valores em impostos pagos pelas empresas, que chegaram a mais de R$ 9 bilhões só em 2025, de acordo com a Receita Federal.

Três após a regulamentação, observa-se que as bets atingiram um patamar de relevância no país, usando as apostas esportivas como uma porta de entrada. Essa foi a forma encontrada que passa credibilidade e está conectada com o dia a dia da população. A conexão se dá por meio dos patrocínios nos clubes e também com a compra de naming rights de competições, como acontece no Brasileirão e Copa do Brasil, e até de estádios, a exemplo da Arena Fonte Nova, em Salvador. Na América do Sul, a Conmebol fechou contratos de patrocínio com pelo menos três marcas para o triênio 2023 a 2026.

Ainda que o futebol seja uma parte mínima dos faturamentos bilionários das bets, já é o suficiente para pesar no bolso dos clubes. Em 2025, as bets representaram 35% das receitas comerciais das equipes da Série A do Brasileirão, pouco mais de R$ 1 bilhão, de acordo com o Relatório Convocados.

O documento foi produzido pelo economista Cesar Grafietti em parceria com a companhia de investimentos Galápagos Capital, ainda destaca que os faturamentos dos clubes da elite relacionados à bets subiu 67% entre 2024 e 2025. Mesmo diante das cifras, o especialista é cauteloso na análise e afirma que o futebol brasileiro não é totalmente dependente desse mercado.

“Não, o futebol não é dependente dessas receitas, mas elas são importantes no bolo. Vamos lembrar que além dos patrocínios diretos, as bets aparecem nas placas de campo e nas transmissões, o que contribuiu para conseguirmos receitas recordes com direitos de transmissão”, disse em entrevista ao Terra.

Grafietti pondera que o futebol não vai, de fato, acabar, mas entende que a aprovação da MP precisa vir acompanhada de um plano de ajuste. “O futebol não vai acabar, mas algum ajuste de custos terá que ser feito. Muitos clubes já perderam patrocínios no último ano, e sofrem por isso. Mas tinham alternativas de substituição. O problema do movimento atual é o risco de corte abrupto, sem organização, nem plano de ajuste”, completa.

Flamengo, Palmeiras e Cruzeiro assinaram o manifesto pelas manutenção das bets regulamentadas
Flamengo, Palmeiras e Cruzeiro assinaram o manifesto pelas manutenção das bets regulamentadas
Foto: Gilvan de Souza/CRF / Cesar Greco/Palmeiras/by Canon / Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Como as bets fazem dinheiro

O alto volume de injeção financeira das casas de aposta pode ser explicado pelo modelo de negócio. Um alto volume de acessos, fluxo constante de dinheiro depositado e um mercado em crescimento. Em 2025, mais de 25 milhões de pessoas apostaram no Brasil, segundo dados do Ministério da Fazenda, e, quase a totalidade, faz isso pelo celular.

A pesquisa da Similarweb, que usou a Copa do Mundo como objeto de análise, mostra que em apenas 51 dias o Mundial gerou 3,6 bilhões de visitas aos sites de aposta, o que representa 29% do total de acessos às plataformas nos sete meses anteriores. O mercado que já é grande se torna ainda mais forte durante grandes eventos esportivos.

Em média, os apostadores também aumentaram a frequência de visita às páginas, chegando a nove acessos diferentes em um único dia, além de terem aumentado em 8% o tempo dentro das plataformas, chegando a 8.73 minutos por usuário.

Esses dados dizem respeito à totalidade das plataformas, o que inclui os jogos de azar. E são essas ferramentas que mais movimentam dinheiros nos sites. A conversão de usuário das apostas esportivas para os jogos de cassino é uma estratégia do marketing chamada de “cross selling”.

Quem pode substituir as bets?

Ao contrário do que os clubes que assinaram o manifestam acreditam, a saída das bets não acaba com o futebol brasileiro. É o que destaca o especialista em marketing e gestão esportiva Amir Somoggi, que é diretor da plataforma de consultoria e análise Sports Value. Para isso, ele recorre às lembranças da Fórmula 1, que lá atrás mudaram suas esttaégias comerciais quando o mercado de tabaco foi proibido na modalidade.

“A própria Fórmula 1 viveu isso quando proibiram o tabaco. Empresas de tecnologia, por exemplo, tomaram conta. Então [com a proibição das bets no Brasil], haveria um corte inicial, mas que poderia até gerar um ganho com marcas muito melhores e com muito mais afinidade com a população para patrocinar os clubes. Ainda que no início pagassem menos do que as bets, por exemplo”, aponta.

Somoggi destaca que há dinheiro no mercado e que esse não é o principal problema. A dificuldade está no fato do futebol brasileiro ter deixado de ser tão atrativo para grandes marcas por dores que os próprios clubes causam à modalidade. 

“Eu diria que empresas que faturam muito mais que as bets deixaram de patrocinar os clubes por desinteresse. Os clubes não geram o valor necessário até por questões de compliance, muita polêmica e má gestão. Notícias negativas. O futebol foi perdendo os setores mais importantes”, analisa Amir Somoggi.

Cesar Grafietti vai na mesma linha. O economista ressalta o poder que o mercado publicitário brasileiro tem como uma das justificativas de que ainda teria uma saída para diversificar ou até mesmo substituir marcas de casas de aposta. “O Brasil é um dos maiores investidores publicitários do mundo, e a despeito do cenário econômico desafiador, há segmentos em expansão e que podem ocupar o espaço das bets”, diz o especialista, que em seguida faz uma provocação: “O que eu diria para os tantos setores que questionam as empresas [bets] é para ocuparem esses espaços. Sejam ativos, invistam não apenas no futebol, mas em outros esportes”.

Aston Villa foi um dos times da Premier League a trocar de patrocinador master
Aston Villa foi um dos times da Premier League a trocar de patrocinador master
Foto: Reprodução/X/@AstonVilla

Europa encontrou uma solução 

Se o futebol brasileiro tanto se inspira em clubes europeus, a estratégia do mercado e da gestão da modalidade no país também pode olhar para o que foi feito pelas ligas na Europa para encontrar uma solução. Na Espanha houve o banimento total das propagandas das bets no futebol gerido pela La Liga, enquanto a Premier League, na Inglaterra, restringiu os patrocínios dessas marcas camisas e placas de publicidade. 

Vale ressaltar que esses são exemplos de campeonatos geridos por ligas, o que facilita a negociação e estabelecimento de regras, o que não existe no Brasil. Ainda há a diferença que nesses países as apostas são regulamentadas e controladas por órgãos do governo. Em território inglês, a legalização existe desde os anos 1960.

Já na Espanha é mais recente, quando a regulamentação foi iniciada em 2011. Esse cenários servem como um modelo de como gerir o mercado de bets tanto pelo governo quanto pelos clubes, mesmo que não resolvam todas as questões levantadas em relação ao Brasil.

E enquanto os próprios clubes brasileiros não chegam a um consenso sobre a real influência das casas de apostas e dos jogos de azar para o funcionamento do futebol brasileiro, há um pensamento unitário de que melhorar a qualidade da gestão de todas as equipes, principalmente da elite, é um caminho necessário e urgente.

Fonte: Portal Terra
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