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Futebol

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Da indústria às bets: como a economia mudou os patrocinadores do futebol brasileiro

Medida provisória do governo federal pode promover mais uma de várias mudanças de tendência nas camisas dos clubes brasileiros

25 set 2026 - 19h01
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Resumo
A evolução dos patrocínios no futebol brasileiro reflete a economia do país desde a liberação das marcas nos uniformes em 1982. A presença de empresas alimentícias e automobilísticas nos anos 1990 deu lugar a marcas de eletrônicos e telecomunicações na década de 2000, seguidas por instituições financeiras e estatais. Desde a legalização em 2018, as casas de apostas tornaram-se dominantes e cruciais para a receita dos clubes, que agora temem fortes impactos financeiros diante de medidas restritivas.

Proibidas por uma medida provisória do governo federal, as bets dominam os patrocínios no futebol brasileiro. Quando a MP assinada pelo presidente Lula nesta sexta-feira ainda era uma ideia, os clubes chegaram a dizer que o veto (à época apenas aos cassinos online) seria o "fim do futebol brasileiro".

O mercado de patrocínios do futebol no Brasil caminha junto da economia do País, acompanhando contextos de desindustrialização e consumo da população. As marcas apareceram em uniformes inicialmente para "salvar" os clubes diante da crise econômica na década de 1980.

A autorização para ter patrocínios nos uniformes esportivos foi concedida por meio de uma portaria do Conselho Nacional de Desportos (CND), em 1982. O contexto era de alta inflação em uma das crises mais graves do Brasil.

O impacto disso nas camisas de futebol foi uma diversificação de marcas. O caso mais emblemático é a parceria da italiana Parmalat com o Palmeiras, entre 1992 e 2000.

A empresa, que também teve relativo sucesso com Juventude e Paulista de Jundiaí, viu as vendas crescerem. O clube paulista viveu uma das épocas mais vitoriosas da história, após anos de jejum, com 11 títulos. Outras companhias do setor alimentício também fizeram suas investidas: Batavo (Corinthians), Cirio (São Paulo), Bauducco (Coritiba) e Mabel (Goiás), por exemplo.

Na mesma toada, o final da década ainda teve participação da indústria automobilística. A sul-coreana Hyundai apareceu no Fluminense. Com fábrica em Betim (MG), a Fiat fechou parcerias com Atlético Mineiro e Cruzeiro. Já a Chevrolet apareceu nos gaúchos Grêmio e Internacional.

Anos 2000 têm aumento do consumo de eletrônicos e resistência à crise mundial

O Brasil não só tinha estabilidade, como passava a crescer. A partir dos governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, há incentivo ao consumo, o que aumenta a demanda do mercado interno por produtos importados.

"O Plano Real arrumou a casa e fez partir para outro momento econômico. Muito mais próspero, olhando para outros momentos da nossa história. Mais próspero pelo crescimento mais robusto e que não gera inflação, como nos anos 1970. Mais bem fundamentado", avalia Heleno Piazentini Vieira.

O movimento de privatização do setor de telefonia, ainda no primeiro governo de FHC, fez com que essa fosse a área buscada por empresas estrangeiras. Foi praticamente o início do celular no País, além da popularização de outros eletrônicos, como televisores. Corinthians (Samsung), São Paulo (LG) e Santos (Semp Toshiba e Panasonic) foram alguns dos clubes que estamparam marcas do ramo.

Década de 2010 vai 'do céu ao inferno' e vê começo da transição de bancos para bets

A euforia econômica entra na década de 2010, com baixo desemprego e consumo ainda em alta. Alguns sinais de mudanças, porém, já são vistos - inclusive nas camisas de futebol. Os uniformes perderam as marcas ligadas à construção civil e eletrônicos. Os raros, mas existentes, patrocínios públicos, como Liquigás (Botafogo) e Eletrobrás (Vasco), não têm continuidade.

Ainda embalado, o mercado de crédito toma conta do "vácuo" deixado. O Banco BMG chegou a ter sua marca em 11 times a partir de 2011, como uma estratégia para fortalecer seus produtos de crédito consignado (empréstimos a juros altos, com desconto na folha de pagamento).

O investimento público também teve destaque na década de 2010. A Caixa Econômica Federal substituiu empresas privadas e chegou a ter sua marca em uniformes de 25 clubes.

"Os braços públicos que aumentam seus gastos são de uma mentalidade política mais intervencionista, o que se esvazia com Guedes", menciona Vieira, ao citar o corte do banco estatal. Em 2018, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, justificou que havia outras prioridades para investir o dinheiro público.

Bancos digitais privados retornaram. Por vezes, até mesmo com aplicativos personalizados para torcedores dos clubes que patrocinavam. Em 2018, contudo, as apostas de quota fixa de eventos esportivos foram legalizadas no Brasil, abrindo um novo mercado.

Flamengo e Corinthians, clubes de maior torcida no Brasil, foram patrocinados pela Caixa.
Flamengo e Corinthians, clubes de maior torcida no Brasil, foram patrocinados pela Caixa.
Foto: Fabio Motta/Estadão / Estadão

O número de equipes com bets como patrocínio máster já é menor este ano em relação a 2025, mas os clubes defendem que o setor é relevante tanto para as agremiações quanto para competições, naming rights de estádios e publicidade na TV e placas na beira do campo.

Considerando os patrocínios de 2025, os aportes somaram R$ 1,14 bilhão. Isso corresponde a 7,9% das receitas totais dos clubes no ano passado. Os 20 bateram R$ 14,9 bilhões em faturamento, com endividamento chegando a R$ 14,3 bilhões.

Apenas quatro clubes pertencentes à Série A na última temporada tiveram bets como fonte direta de mais de 10% das suas receitas em 2025: Corinthians (17,3%), Flamengo (12,71%), Sport (12,64%) e Juventude (10,49%).

Estadão
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