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1966: sonho do tri se transforma em vexame histórico

25 abr 2010
09h30
atualizado às 17h05
Eduardo Carneiro

"Nas duas ultimas Copas só tinha dado a gente. Por que não numa terceira?". A sensação, definida pelo jornalista e compositor Nelson Motta, era a mesma da maioria dos torcedores brasileiros antes da Copa do Mundo de 1966. O Brasil chegava à Inglaterra como o atual bicampeão mundial. Somando-se as vitoriosas campanhas da Suécia, em 1958, e Chile, quatro anos depois, o time canarinho ostentava um retrospecto de dez vitórias e dois empates, com 30 gols marcados e só nove sofridos. O que se viu na "Terra da Rainha", porém, foi um vexame histórico refletido no 11º lugar da Seleção, segunda pior participação do País no mais importante torneio de futebol do planeta (melhor apenas que a 14ª colocação em 1934, na Itália).

Na época com 21 anos, Nelson Motta acompanhava o Mundial de perto pela primeira vez. Em seu livro Confissões de um torcedor - quatro Copas e uma paixão (1998, Editora Objetiva), ele afirma que a experiência na Inglaterra, fruto da "generosidade" de seu pai e de seu tio, foi "inesquecível como um sutiã" e "demais para um coração juvenil". Contudo, em um "velho estádio de madeira", o compositor, que naquele mesmo ano venceu a fase nacional do I Festival Internacional da Canção (FIC), com sua canção Saveiros, interpretada por Nana Caymmi, viu o Brasil bicampeão "ser massacrado por Hungria e Portugal e eliminado da Copa".

Durante os anos, vários fatores foram apontados como responsáveis pela queda precoce, dentre os quais o envelhecimento dos bicampeões mundiais que fizeram parte do grupo, casos de Gilmar, Bellini, Djalma Santos, Pelé e Garrincha, a presença de dois bons rivais na chave, a "caça" em campo aos principais craques brasileiros e até a troca de preparador físico (saiu Paulo Amaral e entrou Rudolf Hermanny, preparador de judô, que não tinha aplicado seus métodos no futebol até então). No entanto, 44 anos depois de assistir ao vexame na Inglaterra, Nelson Motta não tem dúvidas: o Brasil perdeu a Copa antes mesmo de a bola começar a rolar. "Foi um time medíocre, feito em meio a politicagens jamais vistas", afirma o compositor.

De fato. Antes da definição dos jogadores, o técnico Vicente Feola, campeão em 1958, chegou a contar com 49 atletas, que eram divididos em quatro equipes nos treinamentos. Tamanha a confusão que a equipe teve até o Ditão errado após equívoco na hora do cadastro dos nomes - foi convocado o do Flamengo ao invés do Corinthians, como sugeriu um dirigente da CBD (Confederação Brasileira de Desportos). Isso sem falar do tour feito pelo elenco até a viagem à Europa. O escrete passou por cinco cidades: Lambari, Caxambu, Teresópolis, Três Rios e Niterói. Todos queriam capitalizar com os atuais bicampeões mundiais. No embarque para a Inglaterra, restaram "apenas" 27 jogadores. Ou seja, o grupo ainda teve cortes às vésperas do Mundial.

A falta de organização se refletiu dentro de campo no Mundial. "Havia falta de comando e de esquema de jogo, com Pelé caçado em campo e Garrincha decadente. Deu no que deu. Em nenhum momento o time jogou bem", lamenta Nelson Motta. O Brasil estreou com triunfo por 2 a 0 sobre a Bulgária, gols de Pelé e Garrincha, ambos de bola parada, naquela que foi a última partida dos dois craques juntos pela Seleção (com a dupla em campo, o Brasil nunca perdeu).

Após sofrer com a violência dos búlgaros, Pelé não enfrentou a Hungria. Sem o craque, na época com 26 anos, o Brasil levou a pior: 3 a 1. Com a derrota, o Brasil faria o jogo da classificação contra Portugal. Mas, com o santista novamente caçado e nove alterações em relação ao confronto anterior (até Garrincha foi sacado), a Seleção perdeu pelo mesmo placar. Resultado, queda precoce e castigo à preparação mal feita. A prova de que Feola nunca achou o time ideal ficou evidente na Copa, com 20 dos 22 jogadores sendo aproveitados em uma época na qual as substituições ainda eram proibidas. Restou ao grupo canarinho voltar mais cedo ao País. Já os torcedores brasileiros na Inglaterra improvisaram "uma batucada lenta e cantaram, sofridos, o velho samba 'tristeza, por favor vá embora, minha alma que chora'" após a derrota diante dos portugueses, conforme recorda Motta.

Depois do vexame dos atuais campeões, a Copa de 1966 viu a anfitriã Inglaterra levantar o caneco pela primeira (e única) vez. E sob um mar de polêmicas. Após não convencer na primeira fase, com duas vitórias em três jogos e apenas quatro gols marcados, os ingleses bateram a Argentina por 1 a 0 nas quartas de final naquele que ficou conhecido como o "roubo do século" no país sul-americano. O árbitro alemão Rudolf Kreitlein expulsou o argentino Rattín acusando o jogador de "linguagem inapropriada", embora não entendesse o idioma espanhol (revoltado, Rattín sentou-se sobre o tapete vermelho no qual só a rainha Elizabeth II poderia andar e ainda rasgou uma bandeira inglesa a caminho dos vestiários). Com um a mais, os donos da casa garantiram o triunfo magro a 12 minutos do fim do jogo.

Já na semifinal, que inicialmente seria disputada em Liverpool, mas acabou tendo como palco o estádio de Wembley, em Londres, após controversa decisão da federação inglesa, o time do técnico Alf Ramsey bateu Portugal, algoz do Brasil, por 2 a 1. Por fim, na decisão, nova polêmica. Após deixar a Alemanha Ocidental buscar um empate por 2 a 2 no último minuto, a Inglaterra marcou aos 11min da prorrogação com Geoff Hurst. Até hoje se discute se aquela boa entrou ou não após bater no travessão. Hurst marcaria ainda mais um e definiria a vitória por 4 a 2.

Nelson Motta assistiu no Wembley à final do Mundial. "Na hora torci para que a bola não tivesse entrado. A Inglaterra perder em Wembley seria uma compensação para o Maracanazzo de 50", afirma ele, lembrando que nem mesmo os torcedores da casa pareciam muito confiantes quanto à conquista inédita.

"Era um bom time, duro, à inglesa, mas nada de grandes craques e futebol encantador. Essa Copa foi a afirmação do futebol-força. Minha lembrança é de um jogo duro, chato e pesado na final, que em nada lembrava o futebol, especialmente do Brasil, nas Copas de 58 e 62". A redenção brasileira e a volta do "encanto" viriam quatro anos depois, no Mundial do México.

Caçado por portugueses, Pelé recebe atendimento
Caçado por portugueses, Pelé recebe atendimento
Foto: Getty Images
Fonte: Terra

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