Copa do Mundo volta ao Brasil após 64 anos para disputa da 20ª edição
Do apito final do árbitro inglês George Reader, em 16 de julho de 1950, até o início do duelo entre Brasil e Croácia, em 12 de junho deste ano, na Arena Corinthians, em São Paulo, serão 23342 dias até que o "país do futebol" voltasse a ser palco da Copa do Mundo.
Esta será a 20ª edição da competições de seleções e, mesmo 64 anos depois, o grande objetivo dos brasileiros é exorcizar o fantasma do Maracanazo, como ficou conhecida a trágica derrota de virada para os uruguaios por 2 a 1, na final de 50.
A primeira edição sediada no país representou a retomada da competição após a Segunda Guerra Mundial. Em 1930, 1934 e 1938 aconteceram as três primeiras Copas, em projeto amadurecido durante os Jogos Olímpicos de 1928.
A estreia da competição aconteceu no Uruguai, que celebrava o centenário do juramento da Constituição. Em meio a desistências de seleções europeias, acabaram sendo 13 participantes na Copa.
O Brasil não teve sucesso, caindo na primeira fase. Os anfitriões, que já ostentavam os títulos de bicampeões olímpicos (1924 e 1928), levantaram a inédita taça ao vencer a Argentina na final por 4 a 2.
A Copa do Mundo, então, partiu para a Europa. A Itália organizou a segunda edição, na qual o Uruguai "deu o troco" e boicotou a competição, como resposta à ausência de seleções do Velho Continente quatro anos antes.
O torneio ganhou projeção e, por isso, o ditador Benito Mussolini fez de tudo para torná-lo uma peça de propaganda do regime fascista da Itália.
No torneio em formato mata-mata, o Brasil caiu no primeiro jogo, ao perder para a Espanha por 3 a 1. Na decisão, os donos da casa bateram a Tchecoslováquia na prorrogação por 1 a 0. Um dos campeões do mundo foi Amphilóquio Marques Guarisi, o Filó, atleta nascido no Brasil.
A ideia inicial era de alternância de continentes para a escolha da sede, mas a terceira Copa acabou acontecendo na França. Várias seleções ficaram fora por problemas políticos ou conflitos territoriais. Do continente americano, só Brasil e Cuba marcaram presença.
Essa Copa ficou marcada negativamente pela saudação nazista dos jogadores da seleção alemã. Em campo, os brasileiros obtiveram o melhor resultado até então, chegando às semifinais. A seleção, no entanto, acabou derrotada pela Itália, que levantaria a taça ao bater a Hungria por 4 a 2.
A Segunda Guerra deixou o mundo sem futebol, mesmo com alguns países tentando convencer a Fifa da realização do torneio. As edições de 1942 e 1946, no entanto, foram canceladas. Com a crise pós-conflito na Europa, o Brasil apresentou candidatura única para e edição de 1950, que acabou sendo aceita.
Outra vez seleções europeias não encararam a desgastante viagem rumo à América do Sul. A grande novidade foi a Inglaterra, que participou da primeira Copa, mas passou pelo vexame de ser derrotada pela seleção americana.
Brasileiros, uruguaios, suecos e espanhóis disputaram o quadrangular final, que teve como desfecho a vitória celeste, marcada para sempre na história do futebol mundial, em pleno Maracanã lotado por mais de 150 mil pessoas.
Em 1954, a Copa voltou para a Europa após 16 anos, sendo disputada na Suíça. O assombroso time da Hungria fez história na competição. Na primeira fase bateu a Coreia do Sul por 9 a 0 e a Alemanha Ocidental por 8 a 3. Depois, passou pelo Brasil por 4 a 2, na partida que ficou conhecida como a Batalha de Berna.
Nas semifinais, vitória heroica na prorrogação sobre o Uruguai. Na final, no entanto, Fritz Walter e companhia levaram os alemães ocidentais ao primeiro título mundial, com a vitória de virada por 3 a 2.
Na competição que teve o placar com mais gols na história, Áustria 7 a 5 na Suíça, o Brasil utilizou pela primeira vez o lendário uniforme composto por camisas amarelas, calções azuis e meiões brancos. Antes disso, o branco predominava na camisa, mas foi sepultado após o Maracanazo.
Na Suécia, em 1958, seria iniciado o domínio brasileiro em Copas, graças a duas figuras emblemáticas: Pelé e Garrincha. A dupla começou no banco de reservas, ganhou espaço graças à interferência de companheiros mais experientes, e brilhou intensamente na reta final.
O gol do camisa 10 - a escolha dos números aconteceu aleatoriamente e Pelé recebeu o número que marcou a carreira - contra País de Gales, nas quartas de final, virou símbolo do futebol arte verde e amarelo. Contra a poderosa França e a anfitriã Suécia, foram duas vitórias por 5 a 2, e o primeiro título garantido.
Quatro anos mais tarde, no Chile, Pelé já era um astro e Garrincha um "anjo de pernas tortas". O primeiro, no entanto, se contundiu, fazendo com que o segundo virasse o craque. Amarildo, substituto do "Rei", conseguiu chamar a responsabilidade e manteve o alto nível do time titular.
O bi mundial veio na final contra a Tchecoslováquia, que na primeira fase tinha segurado a seleção em empate sem gols. De virada, o Brasil venceu por 3 a 1, levando à loucura o Estádio Nacional, em Santiago, na conquista mais próxima "de casa" obtida até hoje.
A Inglaterra, berço do futebol, ganhou o direito de sediar o torneio em 1966. A seleção brasileira, após preparação confusa, não foi além da primeira fase, caindo diante de Portugal, que liderada por Eusébio, ficou com a terceira colocação.
O 'English Team' encarou na final a Alemanha Ocidental, na final mais polêmica da história das Copas. Após empate em 1 a 1, o jogo foi para prorrogação, e um chute do atacante Geoff Hurst colocou interrogação no resultado final, por a bola, aparentemente, não ter cruzado a linha. No fim, vitória dos anfitriões por 4 a 2.
Em 1970, a Copa cruzou fronteiras, e pela primeira vez não foi disputada na Europa ou América do Sul. A bola rolou no México, em altas temperaturas e com estádios lotados. No fim, brilhou o Brasil, com direito a vitória sobre a campeã Inglaterra e sobre o carrasco Uruguai.
A outra finalista foi a Itália, que superou a Alemanha Ocidental em jogo épico, decidido na prorrogação. A 'Azzurra' levou a melhor por 4 a 3.
Exausta, a seleção europeia não foi páreo para Pelé, Jairzinho, Rivellino, Gérson e companhia. A vitória por 4 a 1 garantiu a posse definitiva do troféu Jules Rimet, a primeira taça da Copa do Mundo, batizada com o nome do ex-presidente da Fifa, maior responsável pela criação da competição.
Quando o Mundial voltou para a Europa, em 1974, na Alemanha Ocidental, o número de participantes das Eliminatórias bateu recorde: 99.
O nível de competitividade também avançou, principalmente, pelo sucesso da Holanda, liderada em campo por Johan Cruyff. O famoso "Carrossel" de Rinus Michels parou o Brasil na segunda fase.
Franz Beckenbauer e a seleção alemã, no entanto, conseguiram superar a equipe sensação, com vitória de virada por 2 a 1, e com isso garantiram o segundo título mundial do país.
Em 1978, como aconteceu nas primeiras Copas, a política voltou a interferir. A Argentina, sob um regime ditatorial, foi palco da competição apesar da rejeição internacional ao modo de governo.
Outra vez o futebol alegre da Holanda atraiu olhares, mas o que ficou marcado foi o duelo entre Argentina e Peru. Os donos da casa precisavam vencer por quatro gols de diferença para eliminar o Brasil e avançar à final. O resultado acabou sendo 6 a 0.
Anos depois, em diversas entrevistas, jogadores peruanos confirmaram as suspeitas de que houve "acerto" para que o placar favorável fosse obtido.
Na decisão, a Holanda, sem Cruyff, sucumbiu outra vez diante dos anfitriões. Após empate em 1 a 1 no tempo normal, a Argentina marcou duas vezes na prorrogação, com Mario Kempes e Daniel Bertoni, garantindo a taça.
A Copa do Mundo passou a ter 24 seleções em 1982, na Espanha. A seleção brasileira fez história com belo futebol, mas que não foi suficiente para ir à semifinal, graças ao carrasco italiano Paolo Rossi.
A 'Azzurra', depois de três empates na primeira fase, cresceu, engoliu grandes adversários como Argentina e Polônia, até bater a Alemanha Ocidental na final por 3 a 1, se tornando a segunda seleção tricampeã mundial.
A Copa de 1986, por sua vez, foi a primeira com troca de sede. A Colômbia decidiu abrir mão do direito devido às exigências da Fifa, e com isso o torneio voltou a ser disputado no México.
A estrela da competição foi Diego Armando Maradona, que explodiu definitivamente em exibição de gala contra a Inglaterra nas quartas de final. Aliás, foi nesta fase que o Brasil caiu, eliminado nos pênaltis para a França.
Na final, Argentina e Alemanha fizeram uma final de cinco gols, com os 'albicelestes' levando a melhor por 3 a 2.
A Copa do Mundo disputada em 1990, na Itália, foi a que teve melhor número de gols. O Brasil, por exemplo, fez quatro gols, todos na primeira fase. Nas oitavas, caiu diante dos rivais argentinos, derrotada por 1 a 0, com gol de Claudio Caniggia.
A alegria ficou por conta das participações de Camarões e Colômbia, seleções que mostraram futebol atrevido, e foram até o mata-mata. Na final, a Alemanha deu o troco na Argentina e venceu por 1 a 0, se tornando tricampeã.
Nos Estados Unidos, em 1994, a Copa entrou na era do marketing, com a Fifa investindo alto para atrair os olhares da população local, pouco afeita ao futebol.
Brasil e Itália fizeram a primeira final sem gols na história da competição, após 120 minutos de duelo. Nos pênaltis, o tetra verde e amarelo por 3 a 2, com Roberto Baggio perdendo o último pênalti.
Em 1998, a França voltou a sediar um Mundial, mas desta vez não deu chance ao azar e saiu campeã, no despontar de Zinedine Zidane para a condição de um dos maiores craques da história do futebol.
Na decisão, marcada pelo problema de saúde de Ronaldo, que sofreu convulsões na concentração da seleção brasileira, o francês balançou as redes duas vezes. Coube a Emanuelle Petit marcar o gol que fechou a vitória por 3 a 0.
Em 2002, pela primeira vez a Ásia recebeu o direito de organizar uma Copa do Mundo. Além disso, de maneira inédita, houve sede dupla, com Coreia do Sul e Japão recebendo jogos.
O protagonista da competição foi Ronaldo que, recém-recuperado de lesão, brilhou intensamente, até marcar os dois gols da final contra a Alemanha. Apesar disso, o goleiro Oliver Kahn, que falhou em um dos gols brasileiros, foi eleito o melhor da competição.
Vice-campeões quatro anos antes, a Alemanha voltou a sediar a Copa em 2006. Na primeira tentativa de conquistar o hexa, a seleção brasileira sucumbiu À tumultuada preparação em Weggis, na Suíça, e apesar de ser detentora dos títulos da Copa América e Copa das Confederações, a equipe não foi além das quartas de final.
A anfitriã Alemanha foi bem, chegou às semifinais e orgulhou o torcedor. Na decisão, Itália e França fizeram uma final muito equilibrada, que terminou empatada em 1 a 1. Na prorrogação, Zidane teve seu último ato em Copas ao dar uma cabeçada no italiano Marco Materazzi. Nos pênaltis a 'Azzurra' levou a melhor por 3 a 2.
A Copa do Mundo chegou à África em 2010, com os sul-africanos recebendo o torneio. A seleção da casa, contudo, entrou para a história negativamente, sendo a primeira eliminada na fase inicial.
O Brasil voltou a cair nas quartas de final, derrotado pela Holanda. A equipe de Sneidjer, Robben e companhia, repetiu a sina da década de 70 e acabou vice, derrotada pela Espanha, que levantou a taça pela primeira vez. O gol do título foi marcado na prorrogação, pelo meia Andrés Iniesta.
Depois de tanta história, a Copa volta agora para o Brasil com os donos da casa tentando erguer o troféu de campeão, reescrevendo desfecho que poderia ter acontecido 64 anos atrás.