Manifesto de clubes reage a medida para proibir atuação de 'cassinos online': 'O fim do futebol'
Pelo menos oito equipes da Série A do Campeonato Brasileiro apontam para impacto que possível mudança que afeta as bets terá no mercado
Clubes de futebol e a FPF publicaram manifesto contra a proposta do governo federal de proibir cassinos online no Brasil. As agremiações afirmam que a medida causará forte desequilíbrio financeiro no esporte, já que as bets financiam projetos sociais, centros de treinamento, categorias de base e o futebol feminino. Além disso, alertam que a proibição não extinguirá as apostas, mas apenas incentivará a migração de apostadores para plataformas clandestinas que não pagam impostos nem seguem regras.
Algumas equipes do futebol brasileiro se manifestaram nesta quinta-feira, 17, sobre o plano do governo federal de proibir a atuação dos "cassinos online", as populares bets, no território nacional. O posicionamento foi realizado em conjunto por meio das redes sociais.
Na mensagem, os clubes afirmam que proibir o mercado no País irá gerar um desequilíbrio financeiro no esporte, já que as bets são as principais patrocinadoras de diversos times brasileiros, tanto de grande quanto de pequena expressão.
"Para muitas destas agremiações, especialmente aquelas localizadas no interior do país, não existe hoje outro segmento econômico capaz de substituir imediatamente esse investimento", escreveram os times.
"Essas receitas são fundamentais para manter estruturas administrativas, centros de treinamento, profissionais, projetos sociais e departamentos que não gerem recursos suficientes para se sustentar de maneira independente, como parte do futebol feminino e a formação de futuros talentos, os primeiros investimentos ameaçados quando a receita cai de forma abrupta", completaram.
O texto ainda destaca a opção de regulamentar o setor que o Brasil escolheu e afirma que uma mudança repentina na forma de atuação levaria o público a utilizar plataformas clandestinas.
"Inviabilizar esse modelo não fará com que as apostas deixem de existir. Apenas abrirá o caminho para que os consumidores migrem integralmente para plataformas clandestinas, que não pagam impostos, não respeitam limites, não oferecem instrumentos de proteção e não colaboram com as autoridades", explicaram.
Flamengo, Palmeiras, São Paulo, Santos, Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Grêmio, Vasco e Chapecoense foram algumas das equipes que publicaram o posicionamento. A Federação Paulista de Futebol (FPF) também compartilhou a declaração.
O FIM DO FUTEBOL BRASILEIRO
O futebol acompanha com atenção as discussões sobre o mercado de apostas no Brasil e reconhece os desafios que sua expansão traz. Os impactos sociais, especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis, exigem atenção permanente do Poder Público, das… pic.twitter.com/sJ4CxqmEhO
— Flamengo (@Flamengo) September 17, 2026
Entre os participantes da Série A do Campeonato Brasileiro, Athletico-PR, Atlético-MG, Bahia, Corinthians, Coritiba, Internacional, Mirassol, Red Bull Bragantino, Remo e Vitória não participaram da manifestação, até o momento.
Por que os clubes temem maior restrição às bets?
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elabora uma Medida Provisória para proibir a operação dos cassinos online no País. A expectativa é de que o texto seja publicado e enviado ao Congresso Nacional nos próximos dias, ainda antes do primeiro turno das eleições.
Na atual proposta federal, apostas esportivas, patrocínio de clubes e campeonatos esportivos não farão parte da MP. O governo estuda colocar uma cláusula de vigência de 180 dias, dizendo que a proibição só começará a valer a partir desse prazo. A ação exige que a medida seja aprovada pelo Congresso antes de a proibição entrar em vigor, pois esse é o prazo de tramitação de uma medida provisória no Legislativo.
Em outra frente, no início do mês, um projeto de lei que proíbe publicidade de bets avançou no Senado, depois de ter sido aprovado pela Comissão de Ciência e Tecnologia. Agora, é necessário somente o aval da Comissão de Assuntos Sociais para passar pela câmara, sem a necessidade da votação no plenário. O relator da proposta é o senador Alessandro Vieira (MDB-SE).
Em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) prometeu sancionar um projeto de lei do vereador João Jorge (MDB), que prevê a proibição de publicidades em eventos esportivos. Clubes paulistas já se reuniram com a FPF para prever uma reação.
Confira a manifestação dos clubes brasileiros sobre a proibição das bets na íntegra
"O FIM DO FUTEBOL BRASILEIRO
O futebol acompanha com atenção as discussões sobre o mercado de apostas no Brasil e reconhece os desafios que sua expansão traz. Os impactos sociais, especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis, exigem atenção permanente do Poder Público, das empresas e de todos os setores envolvidos.
Por isso, é fundamental aprimorar as medidas de proteção, fiscalização, educação e prevenção, para reduzir riscos e garantir um mercado responsável.
O Brasil escolheu enfrentar esse desafio pela regulamentação. A regulamentação estabeleceu regras rígidas para as empresas autorizadas a atuar no país, com regras claras que permitem ao Estado fiscalizar o mercado, responsabilizar quem descumpre a lei e combater a atuação de plataformas clandestinas.
Importante ressaltar que, nos últimos anos, o investimento das empresas de apostas autorizadas tornou-se uma das principais fontes de receita do esporte. Este investimento impulsionou o futebol brasileiro de tal forma a dominar o cenário sul-americano em competições como a CONMEBOL Libertadores e a CONMEBOL Sul-Americana e a colocar clubes brasileiros em posição de protagonismo.
Essa presença não se limita aos maiores clubes. Os recursos também alcançam equipes de menor expressão, divisões de acesso e competições com menor exposição comercial. Para muitas destas agremiações, especialmente aquelas localizadas no interior do país, não existe hoje outro segmento econômico capaz de substituir imediatamente esse investimento.
Essas receitas são fundamentais para manter estruturas administrativas, centros de treinamento, profissionais, projetos sociais e departamentos que não gerem recursos suficientes para se sustentar de maneira independente, como parte do futebol feminino e a formação de futuros talentos, os primeiros investimentos ameaçados quando a receita cai de forma abrupta.
Assim, os rumores sobre mudanças abruptas na regulamentação do mercado de apostas têm gerado enorme preocupação em todos os clubes, federações e entidades de administração do esporte. Uma mudança abrupta nas regras reduziria a capacidade de investimento dos clubes e criaria desequilíbrios dentro e fora do país. Contratos regularmente firmados, planejamentos plurianuais e compromissos financeiros foram estabelecidos sob um marco regulatório construído pelo próprio Estado.
Para responder a um mercado que já existia e movimentava ilegalmente bilhões de reais, o país instituiu um ambiente regulado. Empresas foram autorizadas, passaram a recolher impostos e assumiram obrigações relacionadas à proteção do consumidor, ao bloqueio de menores, à prevenção de práticas abusivas e ao combate à lavagem de dinheiro e à manipulação de competições. Foi justamente a regulamentação do mercado que retirou o Brasil da liderança do ranking mundial de casos de manipulação.
Inviabilizar esse modelo não fará com que as apostas deixem de existir. Apenas abrirá o caminho para que os consumidores migrem integralmente para plataformas clandestinas, que não pagam impostos, não respeitam limites, não oferecem instrumentos de proteção e não colaboram com as autoridades."
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