"Louco", zagueiro abandona a roça para subir com o Vila Nova
“Eu amo o Vila, jogo por amor”. Essas palavras traduzem a relação que o zagueiro Vítor, 29 anos, diz ter com o time colorado que acabou de subir da Série C para a Série B do Campeonato Brasileiro. Apelidado pelo torcedor de Vítor Louco, o zagueiro formado nas categorias de base do Vila Nova disse que está mais maduro e revelou que abandonou a roça para voltar a jogar futebol.
Quando surgiu nas categorias de base do Vila Nova entre os anos de 2004 e 2005, Vítor impressionou pela qualidade técnica. Mas outro fator também chamou a atenção: o temperamento complicado.
No início da carreira, ainda jovem, o garoto vindo de Mineiros, cidade do interior distante 420km de Goiânia, tinha a vida extra campo um pouco agitada. Vez ou outra entrava em algumas polêmicas. Apesar disso, tinha qualidade técnica, força e muita confiança. E essa última virtude era a mais saliente. O zagueiro driblava os atacantes frequentemente, mesmo em jogadas perigosas, e a ousadia lhe rendeu o apelido de “louco”, aliado a seu temperamento.
Entre idas e vindas, Vítor saiu do Vila Nova em 2010 pela última vez, mas ele voltaria. Depois de passar dois anos no Duque de Caxias-RJ, o zagueiro não conseguiu emplacar uma sequência em outro clube e pensou em parar de jogar futebol. Entre o ano passado e essa temporada chegou a parar e foi ajudar o sogro a cuidar da fazenda.
Incentivado pelo próprio sogro, repensou a carreira e disputou a segunda divisão do Campeonato Goiano com o Mineiros. Mas foi o convite do Vila Nova que trouxe a alegria novamente ao defensor. Vítor falou por vezes que ama o clube e o resultado desse sentimento é refletido em sua doação em campo. Retornou ao Vila Nova no segundo turno da primeira fase da Série C e rapidamente se tornou titular.
Mais maduro e menos “louco”, Vítor atribui seu amadurecimento ao suporte dado pelos familiares. Está mais tranquilo, mas garantiu que não vai abandonar as jogadas arriscadas. No jogo de volta contra o Treze-PB, pelas quartas de finais da Série C, participou do lance decisivo do acesso. Dominou a bola na intermediária de defesa e arrancou. Do meio de campo avistou o atacante Frontini e deu lançamento milimétrico. O argentino não desperdiçou e o Vila Nova subiu.
Com o acesso garantido, Vítor projeta dar títulos ao clube do seu coração. O primeiro passo é superar o Sampaio Corrêa e tentar ser campeão da Série C, mas o zagueiro lembrou que o time precisa voltar a ganhar o Campeonato Goiano. O Vila Nova não fatura a taça desde 2005, quando ainda tinha Vítor "Louco".
Confira a entrevista concedida ao Terra:
Terra: Você se sente mais aliviado com o acesso?
Vítor: Agora estamos tranquilos, acho que tiramos aquele peso que tínhamos. O Vila estava precisando disso e aqui as coisas acontecem, mas sempre com dificuldades. É clube grande, de torcida e sempre tem aquela pressão a mais. Comemoramos com a família e agora é pensar nesse jogo com o Sampaio.
Terra: Ver o Vila Nova de volta à Série B é especial para os jogadores formados no clube?Vítor: Fui criado no Vila e nunca menti para ninguém, eu amo o Vila. Tenho o maior carinho pelo clube e jogo por amor. A gente que é criado no clube sempre sentimos mais pela conquista, acho que para nós que surgimos aqui é ainda mais importante.
Terra: Você surgiu com muito potencial, mas tinha o temperamento difícil. Está mais maduro agora?
Vítor: Aprendi muitas coisas, na época que cheguei no Vila Nova não tinha um suporte, não tinha estrutura. Agora eu tenho a minha família do meu lado, minha esposa, meu sogro e minha sogra e esse é o grande fator dessa mudança.
Terra: Seu futebol é marcado por lances ousados, às vezes um drible perigoso no atacante, acha que por isso te chamam de “Vítor Louco”?
Vítor: Em relação ao meu futebol todo mundo sabe que eu tenho, não é me achando. Mas dentro de campo eu sempre confio em mim e muita gente me chama de louco porque às vezes dou um corte no atacante ou um lençol. No último jogo mesmo eu dei um grande passe para o Frontini fazer o gol, mas é tranquilo.
Terra: Mas você se incomoda com esse apelido?
Vítor: Para mim é tranquilo, é como os torcedores falam, eu jogo com raça, eu luto, corro os 90 minutos e de vez em quando faço uns lances que muita gente interpreta como loucura, mas eu interpreto como personalidade. É um dom que Deus me deu e meu estilo de jogar é esse. Se eu tiver chance de dar um chapéu dentro da área, um corte e sair jogando eu vou fazer porque isso sempre deu certo para mim.
Terra: Você saiu do Vila Nova em 2010, como foi sua vida fora do clube?
Vítor: Minha saída do Vila foi a pior coisa que fiz na minha vida. Fui para o Duque de Caxias e fiquei dois anos. No primeiro ano foi bem, mas no segundo não e não renovei, fui para casa. Cheguei em Mineiros e fiquei quase um ano sem jogar futebol, não estava com cabeça e pensei em abandonar o futebol. Fiquei trabalhando, fui para a fazenda do meu sogro e ajudei ele, mas todos me falaram que meu dom era jogar bola e não trabalhar, mas graças a Deus o Mineiros me ligou e eu fiz uma boa segunda divisão. O Niltinho (diretor de futebol) me chamou para o Vila Nova e foi a melhor coisa do mundo.
Terra: E como era trabalhar na fazenda? O que você fazia?
Vítor: Eu ficava na cidade e de vez em quando ia para a fazenda com meu sogro. Chegando lá fazia de tudo, tirava leite, mexia com o gado, ia para a lavoura, fazia o trabalho que todos fazem. Eu ajudava, mas sempre meu sogro dizia que eu tinha é que jogar futebol por eu ser um grande jogador.
Terra: Agora que sua volta deu certo, pelo menos nesse início, o que você projeta para o futuro?
Vítor: Penso coisas grandes, o Vila é grande, tem torcida e cobrança. Agora temos que pensar no Sampaio Corrêa e também pensar no ano que vem. Fazer um pré-temporada e conquistar o Goianão de novo, pois o último foi em 2005, o Vila merece títulos. Mas vamos pensar agora nessa reta final de Série C para tentar o título.