A lição de Seedorf para Renato Portaluppi sobre comunicação
Enquanto o holandês chega ao Corinthians falando português para tentar conter uma crise esportiva e política, treinador do Grêmio questiona a presença de jogadores de outros países no elenco
Em crise no Brasileirão, Corinthians e Grêmio expõem posturas opostas sobre comunicação. Clarence Seedorf assumiu o Timão falando português e focando no trabalho para tirar o clube da zona de rebaixamento, apesar das dúvidas sobre seu currículo. Já Renato Portaluppi culpou o excesso de estrangeiros pelos problemas gremistas. O contraste mostra que, enquanto o holandês busca a integração, o técnico brasileiro terceiriza uma responsabilidade que também cabe à gestão e ao comando técnico.
Clarence Seedorf chegou ao Corinthians falando português e prometendo trabalho. Renato Portaluppi, no Grêmio, reclama da quantidade de estrangeiros e das dificuldades de comunicação. A diferença entre os dois discursos chama atenção justamente porque ambos precisam tirar suas equipes de uma situação delicada, mas enxergam de maneira distinta a responsabilidade de integrar um elenco.
O lendário jogador holandês assume o Corinthians após sete derrotas consecutivas no Campeonato Brasileiro e a demissão de Fernando Diniz. O time está na zona de rebaixamento, pressionado por resultados ruins e por uma crise que ultrapassa o campo.
A contratação de Clarence Seedorf, afastado do comando de clubes desde 2019, é uma aposta de alto risco em um momento no qual o clube tem pouca margem para experiências.
Na apresentação, o treinador chamou o Corinthians de um dos maiores clubes do mundo, defendeu a qualidade do elenco e evitou entrar na crise política e administrativa. Disse que estava ali para trabalhar, não para discutir política.
É uma escolha compreensível para quem acaba de chegar, mas não elimina o tamanho do problema: o treinador precisará organizar uma equipe que perdeu confiança e recuperar resultados em meio à turbulência institucional.
A própria contratação provocou questionamentos internos. O nome de Clarence Seedorf ganhou força depois de outras opções recusarem o convite, e a decisão dividiu setores do clube. O currículo como jogador é extraordinário; o de treinador, bem mais modesto.
Sua passagem pelo Milan, pelo Shenzhen FC e pelo Deportivo La Coruña não oferece números que justifiquem tratá-lo como solução garantida. No Corinthians, a reputação não marcará gols nem corrigirá a defesa.
No Grêmio, Renato Portaluppi também tenta reagir. Depois do empate por 1 a 1 no Gre-Nal, criticou a presença de estrangeiros e afirmou que a convivência entre grupos que falam idiomas diferentes dificulta a integração.
O argumento não é absurdo: comunicação e adaptação interferem no trabalho. Mas a discussão fica incompleta quando o treinador destaca o problema sem que a responsabilidade pelo planejamento do elenco receba o mesmo peso.
A adaptação não pode ser obrigação de um lado só
O Grêmio tem 11 estrangeiros, resultado de contratações realizadas por três administrações. A gestão atual também buscou reforços no mercado internacional, embora o grupo tenha sido reduzido em relação ao período anterior.
A composição do elenco, portanto, não surgiu por geração espontânea nem pode ser explicada apenas pela dificuldade de um jogador em aprender português. Se Renato Portaluppi cobra adaptação, cabe perguntar como o clube organiza esse processo e quais recursos oferece para acelerar a integração.
O treinador não precisa falar todas as línguas do vestiário, mas a comunicação faz parte da função de comandar. Transferir o problema exclusivamente aos atletas é uma maneira conveniente de simplificar uma questão que também envolve recrutamento, planejamento e trabalho diário.
Clarence Seedorf, ao se comunicar em português, demonstra disposição para estabelecer essa ponte com o elenco corintiano. Isso não garante sucesso: o holandês ainda terá de provar que consegue transformar discurso em desempenho. Mas o contraste expõe uma diferença de postura.
Um chega disposto a se adaptar; o outro reclama das dificuldades que a própria composição do grupo impõe. No Corinthians, falar português será apenas o começo de uma tarefa urgente. No Grêmio, reclamar dos estrangeiros não afastará o risco de rebaixamento.
Ambos precisam entregar resultados. E, se a comunicação é indispensável para evitar o rebaixamento no Campeonato Brasileiro, a responsabilidade por construí-la não pode ser empurrada apenas para quem veste a camisa.
(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.
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