Ofensivo, vencedor e polêmico: Jorge Jesus, novo técnico do Flamengo
Para fazer valer suas ambições de conquistar os principais títulos de 2019, o Flamengo foi atrás de Jorge Jesus. E o técnico português, de 64 anos, que assim que anunciado disse estar disposto a erguer a taça da Copa Libertadores e, possivelmente, do Mundial, possui no currículo trabalhos consistentes no futebol luso, um DNA futebolístico ao qual se mantém fiel e uma personalidade peculiar.
Ainda assim, Jesus é pouco conhecido do futebol brasileiro. Especulado no Atlético Mineiro para substituir Levir Culpi, e no Vasco para o lugar de Alberto Valentim, o comandante ganhou destaque no cenário nacional. Porém, nunca trabalhou no continente Sul-Americano. Por isso, a Gazeta Esportiva decidiu destrinchar a carreira, os conceitos e o que envolve a contratação do treinador agora Rubro-Negro.
Carreira consolidada em Portugal e aventura saudita
Hoje um treinador consolidado principalmente em Portugal, Jorge Jesus é um daqueles estudiosos do futebol e fiel aos seus ideais táticos. Antes disso, no entanto, foi jogador profissional por 17 anos, atuou justamente no Sporting, último clube que dirigiu em solo luso, e teve uma longa passagem pelo clube onde iniciou sua carreira à beira do campo: no Estrela Amadora.
Antes de se tornar conhecido pelos títulos, Jesus ficou conhecido pelos acessos. Em seus primeiros anos como treinador, levou o Amadora, o Vitória de Setúbal e o Felgueiras à elite. E durante o trabalho no time do distrito do Porto, chamou a atenção pelo bom futebol jogado e pelas vitórias no Português, que duraram apenas um turno. Tudo isso após um estágio no Barcelona, onde se aperfeiçoou aos ideias de Johan Cruyff.
Já como um técnico bem quisto em Portugal, o novo comandante do Flamengo foi contratado pelo União Leiria, onde fez boa temporada e terminou em sétimo na competição nacional. Depois, passou pelo Belenenses e, no Braga, foi ás oitavas de final da Liga Europa. Os trabalhos reconhecidos renderam um convite do Benfica em 2009.
Uma temporada foi suficiente para Jorge Jesus superar a desconfiança e erguer a primeira taça. Em um período de hegemonia portista, o treinador levou os encarnados, que contavam com nomes como Di María, Saviola e os brasileiros Luisão e Alan Kardec, ao título nacional. Na sequência, consolidou um trabalho de reconstrução e ergueu mais oito troféus antes de, em junho de 2015, assumir o rival Sporting.
Até então amado pelos torcedores do Benfica, o técnico teve de lidar com um tratamento hostil em todas as vezes que reencontrou, justamente por ter ido para o rival, e foi considerado um "Judas". Sua passagem pelo Sporting, porém, não terminou com os resultados esperados. Em praticamente três temporadas, nenhuma taça internacional, o grande objetivo, e alvo dos torcedores em um dos piores momentos do clube, com a invasão no CT em um caso policial.
Assim que saiu do Sporting, Jesus foi contratado pelo Al-Hilal, da Arábia Saudita, na mesma época em que Fábio Carille era cotado para assumir o clube e rumou ao país, no fim, para o Al-Wehda. Em solo saudita comandou apenas 20 jogos, conquistou a Supertaça local e voltou a Portugal em busca de um novo clube, que será o Flamengo.
Ideal de jogo pouco utilizado no futebol brasileiro
Em termos táticos, os times treinados por Jorge Jesus costumam atuar em um esquema pouco usual no Brasil: 4-1-3-2. Ao invés de terem dois volantes no meio de campo, o treinador costuma optar por ter uma linha com três meias, cuja função é se aproximar da dupla de ataque, outro aspecto muito presente em suas equipes.
O primeiro volante pouco avança e tem a função de realizar coberturas defensivas no momento que o time perde a bola, além de ter a responsabilidade de conectar o bloco de defesa ao de ataque. Para essa posição, o titular provavelmente será Cuellar.
Os três meias não só trazem criatividade para o setor intermediário, também facilitam a pressão adiantada no campo do rival, característica que Jorge Jesus costumeiramente busca implementar em suas equipes. Dessa forma, o time atua com uma linha de marcação alta, buscando roubar a bola próximo ao gol adversário. Por vezes, suas equipes acabam tomando alguns lançamentos nas costas da zaga, já que os defensores posicionam-se frequentemente próximos à linha do meio de campo.
Arrascaeta e Everton Ribeiro, já titulares, devem ser os jogadores escolhidos para atuar pelos lados. No entanto, esses meias também podem recuar e alterar o esquema durante a partida para um 4-4-2 tipicamente conhecido como "diamante". Diego, que era reserva com Abel Braga, pode ganhar oportunidades como o atleta centralizado nesta linha de três meias, enquanto o questionado Arão pode perder espaço.
Jorge Jesus dificilmente abre mão de uma dupla de ataque. Geralmente, um dos jogadores ofensivos tem a força física como uma de suas principais características para fazer o pivô, enquanto o outro se movimenta mais no terço final. No entanto, Gabigol e Bruno Henrique têm perfis semelhantes, ambos sendo atacantes móveis e terão de se revezar no papel da referência.
O treinador português, apesar de ter um modelo de jogo ofensivo, não busca armar seu time com a obsessão de ter posse de bola. Inclusive, o trinador prefere um estilo de ataque mais direto, com passes verticais e que cheguem rapidamente na sua dupla de ataque. Para atingir esse objetivo, o técnico utiliza constantemente a conexão entre os laterais e os meias ofensivos.
Personalidade forte e polêmico
Se os ideias de jogo tem pouco de José Mourinho, um dos principais técnicos do futebol português e mundial, a personalidade de Jorge Jesus é bem próxima do Special One. Conhecido pelas declarações polêmicas, o técnico do Flamengo disse, em 2014, ser o melhor treinador do mundo e costuma ser "pontual" com os rivais, principalmente os locais.
"Acho que sou o melhor treinador do mundo, mas isso só vou poder justificar quando ganhar a Champions", disse ainda quando dirigia o Benfica.
Mourinho, inclusive, entrou em conflito com o compatriota no mesmo ano. E tudo por conta de um brasileiro. Em 2014, o Benfica, dirigido por Jorge Jesus, contratou Anderson Talisca, que estava na mira do Chelsea, time do Special One. As acusações entre ambos foram do âmbito profissional para o pessoal e terminaram com o atual técnico do Rubro-Negro criticado por seu modo de falar.
Quanto aos rivais, Jesus sempre deu suas tiradas quando questionado sobre o Porto. Em uma oportunidade, o técnico foi perguntado sobre dirigir os Dragões em algum momento da carreira, mas rapidamente retrucou: "O Porto? Quem chega ao topo não quer andar para trás", concluiu.
*Especial para Gazeta Esportiva