Cinco pontos que explicam a crise do Flamengo neste início de temporada
Desgaste físico, baixo rendimento de estrelas, fragilidade defensiva, pouca eficiência e previsibilidade ofensiva ilustram o momento rubro-negro
O início de 2026 tem sido turbulento para o Flamengo. Em 14 partidas disputadas, o time já soma sete derrotas — mais da metade do total de tropeços de toda a temporada passada, quando perdeu 11 vezes ao longo do ano inteiro. Entre resultados ruins, desempenho instável e sinais claros de desgaste, a equipe de Filipe Luís ainda busca respostas para reencontrar o caminho da competitividade.
A sequência irregular não é fruto de um único problema, mas de um conjunto de fatores que se acumulam desde os primeiros jogos do ano. O Flamengo sente o peso físico de uma temporada anterior extenuante, convive com peças caras longe do rendimento esperado, perdeu a solidez defensiva que sustentava resultados e passou a transformar volume ofensivo em poucos gols.
Sem a pressão alta que definia seu modelo de jogo, a equipe se tornou previsível, abusando de cruzamentos e encontrando dificuldade para furar defesas organizadas. Juntos, esses cinco pontos ajudam a entender por que um elenco caro e competitivo atravessa uma crise tão cedo em 2026.
O Flamengo montou um elenco caro, mas parte das principais apostas ainda não entregou o retorno imaginado. Nomes como Paquetá, De la Cruz e Samuel Lino lidam com problemas físicos ou oscilações de desempenho. Pedro, peça-chave do ataque, também passou períodos fora ou longe da melhor forma.
O resultado é um time pesado financeiramente, mas que nem sempre consegue transformar investimento em rendimento esportivo, o que pressiona o planejamento e reduz margem para erros ao longo da temporada.
3) Defesa perdeu solidez e deixou de ser diferencial
Em 2025, o Flamengo construiu sua campanha com base em uma defesa muito sólida: foram apenas 27 gols sofridos em todo o Brasileirão. Esse pilar ruiu em 2026. Hoje, o time mostra lentidão nas coberturas, dificuldade para defender em profundidade e falhas recorrentes em transições defensivas.
Mesmo em jogos de controle territorial — como na derrota para o Lanús — o sistema não consegue proteger a área quando perde a bola. O que antes compensava dias ruins do ataque já não existe.
A estatística de gols sofridos nesta temporada ajuda a ilustrar esse desempenho defensivo abaixo do esperado: em 14 partidas disputadas, a equipe rubro-negra teve sua meta vazada 20 vezes — média de quase 1,5 gol sofrido por jogo.
4) Volume sem efetividade
Os números mostram domínio, mas o placar não acompanha. Contra o Lanús, no segundo jogo da final da Recopa, por exemplo, o Flamengo teve mais de 70% de posse de bola, trocou mais que o triplo de passes em relação ao adversário e finalizou mais do que o dobro. Ainda assim, marcou apenas dois gols e sofreu três.
O padrão se repete no Brasileirão: posse alta, presença ofensiva constante, mas baixa conversão em chances claras. A equipe cria muito em quantidade, pouco em qualidade, e acaba pagando caro por erros pontuais.
5) Previsibilidade ofensiva
Talvez o ponto mais preocupante. Sem a pressão alta que marcou o DNA recente do time — responsável por grande parte dos gols em recuperações rápidas — o Flamengo passou a depender quase exclusivamente da construção lenta e dos cruzamentos.
Apenas contra o Lanús, nesta quinta-feira, foram 44 cruzamentos. Essa estatística também surpreende em partidas válidas pelo Campeonato Brasileiro — 74 bolas colocadas na área em apenas três rodadas — e ajudam a explicar a falta de criatividade e repertório do Flamengo neste início de temporada.
A posse de bola é alta, mas o jogo se torna previsível, especialmente contra blocos baixos. Sem exercer a pressão na saída adversária, a equipe encontra enorme dificuldade para criar por dentro, infiltrar ou quebrar linhas com combinação curta. O resultado é um ataque facilmente neutralizado, mesmo com volume.
Um time em alerta
Os números da temporada escancaram o problema: em 14 jogos, o Flamengo tem cinco vitórias, dois empates e sete derrotas, com saldo mínimo de gols (22 a 20). Além disso, a equipe já soma dois vice-campeonatos: o da Supercopa, quando foi derrotado pelo Corinthians, e o da Recopa, com o Lanús levando a melhor.
Em 2025, o time carioca vencia jogos apertados porque defendia melhor e pressionava com eficiência. Em 2026, a pressão não tem surtido efeito, a defesa tem se mostrado frágil e o ataque perdeu contundência.
A classificação encaminhada no Campeonato Carioca alivia momentaneamente o ambiente, mas não mascara o alerta. Para evitar repetir um ano sem títulos, como em 2023, o Flamengo precisará recuperar intensidade, variar soluções ofensivas e reconstruir a identidade que marcou positivamente o trabalho de Filipe Luís. Caso contrário, a crise tende a se aprofundar.