De Belo Horizonte a Singapura: o brasileiro por trás de um feito histórico na ginástica
O mineiro Francisco Azra comanda a seleção masculina de ginástica artística de Singapura, que chegou pela primeira vez a uma final por equipes dos Jogos Asiáticos, no último domingo (4). Com passagens pelo Minas Tênis Clube, pela ginástica britânica e pelos Jogos Olímpicos de Paris 2024, o treinador agora lidera um projeto de transformação da modalidade no país asiático, com Los Angeles 2028 no horizonte.
O treinador mineiro Francisco Azra liderou a seleção masculina de ginástica artística de Singapura a uma inédita final por equipes nos Jogos Asiáticos, onde terminou em oitavo lugar. Com passagens pelo Minas Tênis Clube e pela ginástica britânica, além de atuar na organização de Paris 2024, Azra assumiu a equipe em 2025 para reestruturar o esporte no país. Focado em massificar a modalidade e desenvolver a base, ele mira os Jogos de Los Angeles 2028 para consolidar um legado duradouro no país.
Luciana Quaresma, de Nagoya, no Japão, para a RFI
A primeira classificação de Singapura para uma final por equipes de ginástica nos Jogos Asiáticos tem um brasileiro no comando. Aos 37 anos, Francisco Azra, mineiro de Belo Horizonte, é o treinador-chefe da seleção masculina de ginástica artística do país e, em Nagoya, no Japão, viu sua equipe alcançar um resultado inédito nos 20º Jogos Asiáticos Aichi-Nagoya 2026. Os singapurenses avançaram à decisão com a oitava melhor pontuação e terminaram a final também na oitava posição, diante de algumas das maiores potências mundiais da modalidade.
"Nós éramos os underdogs da final, mas, para a gente, foi uma grande vitória estar lá, participar e colocar o nome de Singapura no cenário asiático", diz Azra.
O resultado ganha peso pelo nível da competição. China e Japão, referências da ginástica mundial, estão entre os países que Singapura precisa enfrentar para conquistar espaço no continente.
"A Ásia, dentro da ginástica, é a região mais forte. Uma medalha de ouro aqui nesses Jogos é praticamente uma medalha de ouro nas Olimpíadas, pelo nível de dificuldade", avalia.
A trajetória de Azra na ginástica começou aos nove anos, idade considerada tardia para quem sonha com o alto rendimento. Filho de uma família ligada ao esporte, ele já havia experimentado natação, vôlei, judô e futebol quando um colega de escola despertou seu interesse pela modalidade.
Os mortais e as piruetas que inicialmente chamaram a atenção do menino logo se transformaram em uma paixão que definiria seu futuro. "Passei minha infância inteira obcecado por ginástica. Assistia a todas as competições, gravava as Olimpíadas em fitas VHS e assistia várias vezes. A única coisa que eu sempre quis e sempre fiz na minha vida é ginástica."
Azra foi atleta até os 17 anos, idade em que percebeu que dificilmente realizaria o sonho de chegar ao topo como ginasta. Mas em vez de abandonar o esporte, decidiu cursar Educação Física e seguir como treinador.
A limitação que sentiu como atleta acabou se tornando combustível para a carreira. "O fato de eu não ter tido o talento necessário para ter sucesso como atleta me fez ter sucesso como treinador, porque me fez querer muito", conta.
Do Minas à ginástica britânica
Azra iniciou a carreira de treinador no Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, onde trabalhou durante cinco anos no alto rendimento. Também teve experiências com as categorias de base da seleção brasileira.
Há dez anos, decidiu deixar o Brasil em busca de novos desafios. A oportunidade surgiu por meio de um contato no meio da ginástica e o levou a Exeter, na Inglaterra.
Foram sete anos e meio no país, período decisivo para sua formação profissional. Trabalhando em uma das estruturas mais desenvolvidas da modalidade, acompanhou atletas que chegaram às seleções inglesa e britânica.
"Foi o grande ponto em que profissionalmente eu cresci. É uma seleção muito forte, muito grande no mundo da ginástica. Foi aí que muitas portas começaram a se abrir para mim."
Uma delas o levou aos Jogos Olímpicos de Paris 2024. Na França, Azra integrou a equipe de organização das competições de ginástica e viveu, de outra perspectiva, o evento que havia acompanhado desde a infância: "Para qualquer pessoa que é do esporte, a Olimpíada é o auge. O Francisco criança ficou muito feliz de estar lá."
Depois de Paris, ele decidiu procurar um novo desafio. Queria concentrar a atuação na preparação de atletas para assumir uma função que lhe permitisse participar da construção de um programa esportivo mais amplo. Foi quando surgiu o convite de Singapura.
A missão de transformar um sistema
Azra assumiu o comando da ginástica artística masculina de Singapura em 2025. Mais do que preparar a seleção para competições internacionais, recebeu a missão de ajudar a desenvolver uma estrutura capaz de sustentar o crescimento da modalidade.
"Faço a gestão dos treinadores e do programa técnico do país. Estamos reformulando toda a forma como os atletas são formados, desde a base até a ponta."
O trabalho envolve metodologia de treinamento, calendário de competições, formação de técnicos e a relação da federação com os atletas de alto rendimento.
Para Azra, o ginasta que o público vê em uma grande competição é apenas a parte mais visível de um processo que começa muitos anos antes. "O atleta que vemos na arena competindo como adulto, disputando uma medalha, é a pontinha do iceberg. Tem todo um sistema por trás para permitir que esse atleta tenha oportunidades, treinadores bem formados e estrutura física para treinar."
Em um país com uma base de praticantes menor do que a das principais forças asiáticas, aumentar o número de jovens na modalidade é uma das prioridades.
"Queremos uma massificação do esporte, mais atletas entrando na ginástica. E, uma vez dentro, que exista toda uma cadeia, um processo para que eles consigam alcançar o potencial máximo."
Um resultado construído ao longo dos anos
Apesar de ter chegado a Singapura pouco mais de um ano antes dos Jogos Asiáticos, Azra evita atribuir a si próprio o mérito pela campanha em Nagoya. "Seria muito errado da minha parte querer o crédito desse resultado para mim. Um trabalho na ginástica são dez anos."
Ele faz questão de destacar o papel dos treinadores locais, responsáveis pela formação dos atletas que chegaram à final no Japão. "Esses atletas estão com esses treinadores desde crianças. Eu estou aprimorando, ajudando nas áreas em que eles não têm tanta experiência e eu tenho, e estou aprendendo muito com eles também. Na ginástica, essa troca é muito importante", explica.
A adaptação a Singapura também faz parte do processo. Azra diz ter encontrado um ambiente extremamente disciplinado e, ao mesmo tempo, uma cultura mais tradicional do que aquelas com as quais estava acostumado. Para alguém que se define como um agente de mudança, encontrar o equilíbrio exige diálogo. "Eu sou uma pessoa de mudança, gosto de chegar e chacoalhar o sistema. Então, obviamente, há alguns vai e voltas, muita negociação, muita conversa", diz o mineiro.
Sonho Olímpico
O projeto de crescimento da ginástica de Singapura começa a ganhar rostos. No feminino, Amanda Yap, de 16 anos, conquistou a medalha de prata na trave nos Jogos da Commonwealth de Glasgow e, em Nagoya, terminou em sexto lugar na final do aparelho em sua estreia nos Jogos Asiáticos.
No masculino, uma das principais apostas é Jovi Loh, de 18 anos. O jovem ajudou Singapura a garantir a classificação para os Jogos Asiáticos, mas uma lesão sofrida durante os Jogos da Commonwealth, seguida de cirurgia, o deixou fora da competição no Japão.
Azra acredita no potencial do ginasta. "Ele é supercomprometido, superdedicado, disciplinado e tem uma paixão enorme pela ginástica e pelo país. Se tem um atleta que eu acho que tem condições de alcançar esse sonho, é ele."
O sonho tem endereço e data: os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028.
O contrato de Francisco Azra com Singapura vai até o fim do atual ciclo olímpico. Mas, para ele, conseguir uma vaga nos próximos Jogos não pode ser o único parâmetro para medir o sucesso do trabalho. O objetivo de longo prazo é deixar um sistema que continue produzindo atletas mesmo depois de sua passagem por Singapura.
"Los Angeles, por mais que tenha um tempo pela frente, ainda é uma meta de curto prazo. Vou sentir que cumpri meu dever em Singapura quando entregar um sistema funcional que permita ao país continuar formando novos atletas."
É uma ambição que fecha um círculo iniciado décadas atrás em Belo Horizonte. Agora, do outro lado do mundo, tenta construir as condições para que uma nova geração faça o caminho que ele próprio sonhou percorrer como atleta. "O sonho é que pelo menos um dos nossos meninos chegue a Los Angeles, mas que ele não seja o único. Que a gente consiga ter um sistema que permita que outros atletas cheguem a outras Olimpíadas e continuem crescendo. Que LA 28 seja a primeira de muitas."
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