Voto secreto, crítica de Lula e ligação com a família Bolsonaro: a conturbada relação de Neymar com as eleições
Atacante voltará a viver pleito presidencial morando em território nacional após 16 anos no exterior
Neymar retornou ao futebol brasileiro após mais de uma década no exterior. Entre a sua saída ao Barcelona, em 2013, e chegada à Vila Belmiro, no dia 31 de janeiro de 2025, o atacante enfrentou mudanças drásticas na vida, como atleta e como personalidade. A irreverência dos campos migrou para as redes sociais, o que tornou o camisa 10 um nome adorado e odiado em medidas quase proporcionais. E o seu posicionamento político ditou muito a relação com o público, principalmente em anos eleitorais.
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A última eleição presidencial que Neymar esteve no Brasil foi em 2010, com 18 anos recém completados. Desde então, foram três ciclos que esteve fora do País, o que não o impediu de se posicionar, independente de ter votado ou não. Neste ano, se quiser exercer o voto, está apto, de acordo com o que consta no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que pode ser publicamente consultado.
Por outro lado, não há como saber se o jogador votou, de fato, nas últimas eleições. Na última corrida presidencial, em 2022, enquanto ainda estava fora do Brasil, seu domicílio eleitoral continuava sendo registrado em Santos, no litoral de São Paulo.
Diante do sigilo por lei se um eleitor votou, ou não, a retrospectiva/dossiê de Neymar na política brasileira pode ser contada por meio das histórias vividas por ele desde que se tornou um astro nacional e global. Seja como um ator político ou na relação com os políticos.
A promessa querida por todos
Se hoje Neymar é conhecido por ser uma personalidade com a opinião política escancarada, em 2010 o cenário era outro. Eram os políticos que tinham uma opinião sobre ele. Todos eles. E a não convocação do atacante recém revelado pelo Santos para a Copa de 2010 gerou reações nos mais diversos espectros políticos.
Durante um discurso de Álvaro Dias sobre as mudanças na Lei Pelé no Plenário do Senado, outros integrantes da casa opinaram, apartes, sobre o erro de Dunga ao não chamar Neymar e Paulo Henrique Ganso. “Pena que o povo não vote. É um clamor nacional a ausência dos dois santistas, mas acho que a lista poderá ser corrigida”, disse Aloizio Mercadante, um dos fundadores do PT, segundo relato em notícia do próprio Senado Federal. O político foi acompanhado por Tasso Jereissati, do PSDB.
Lula e Dilma não deixaram o tema passar. O então presidente parabenizou a atitude do Santos de não vender Neymar naquele ano ao Chelsea, da Inglaterra, e fez questão de se encontrar com o atacante ao lado de Ganso, quando esteve na capital paulista.
Dilma aproveitou para se manifestar a favor da convocação da dupla no Twitter. A candidata à eleição daquele ano para substituir Lula escreveu: “Torci pelo Ganso e pelo Neymar, sim, mas agora que a seleção foi anunciada, vamos apoiar, confiar e torcer pelo time do Dunga!!!”, em tom de protesto. Anos mais tarde, a presidente voltaria a ter seu nome vinculado a Neymar, mas não mais numa relação harmônica.
Torci pelo Ganso e pelo Neymar, sim, mas agora que a seleção foi anunciada, vamos apoiar, confiar e torcer pelo time do Dunga!!!
— Dilma Rousseff (@dilmabr) May 12, 2010
O primeiro aceno político
Um padrão no comportamento de Neymar é notado com o passar dos anos. Os períodos de eleições municipais são calmos, sem uma aparição pública marcante para falar de política. A exceção foi em 2012, quando o atacante surgiu pela primeira vez falando sobre o tema de forma aberta.
Neymar realizou uma campanha de voto consciente que foi publicada em sua página oficial no YouTube. Por mais que tenha sido espontâneo, o atacante não tomou nenhum lado. Muito pelo contrário, incentivou o público brasileiro a ir às urnas, mas avisou: “Eu já escolhi os meus candidatos, mas não vou falar para ninguém porque o meu voto é secreto”, disse.
O vídeo, que dura 30 segundos e soma apenas 58 mil visualizações em 13 anos no ar, ainda serviu para Neymar passar um recado sobre o cuidado na hora de escolher seus candidatos. Ele deixou um alerta aos seguidores de que não apoiaria nenhum candidato naquele ano. “Galera, dia 7 de outubro é dia de eleição, quero ver todo mundo pensando direitinho para escolher o melhor candidato a prefeito e vereador da sua cidade. Se vocês ficarem sabendo de algum candidato dizendo que eu estou apoiando ele, é mentira, eu não estou apoiando ninguém. Sabedoria na hora do voto, um abraço”.
O “craque que uniu o Brasil”
No ano da Copa do Mundo no Brasil, as temáticas de política e futebol se misturaram como nunca. E Neymar chegou a ser nomeado como o craque que iria unir o País (antes de qualquer possibilidade de se pensar no vexame do 7 a 1). A ponto da edição 837 da revista Época colocar o camisa 10 em sua capa.
Mas 2014 também se tornou o primeiro ano que Neymar anunciou nominalmente apoio para a disputa da presidência. O craque, que estava no Barcelona, da Espanha, publicou um vídeo declarando voto em Aécio Neves (PSDB), opositor de Dilma Rousseff (PT). A afirmação foi feita após uma sequência conturbada de fatos envolvendo seu nome.
Dias antes de se posicionar a favor de Aécio, uma imagem fake circulou nas redes sociais com a informação de que Neymar estava apoiando Dilma, antes mesmo da IA se tornar uma arma de manipulação. O atacante precisou publicar uma nota oficial desmentindo a situação. Tratava-se de um cartaz que ele havia feito para seu filho, Davi Lucca, em agosto de 2013, e que teve o texto alterado para “atenção galera! Em 2014, estamos com a Dilma, nossa melhor opção”.
Na época, sua assessoria afirmou que “a frase foi maldosamente alterada em benefício de um partido político”. O texto ainda deixou claro, a pedido do atleta: “Neymar não divulga o voto e qualquer imagem partidária envolvendo sua opção de voto é falsa”.
O 'veto' de Bruna Marquezine
O ano em que Neymar conquistou o ouro Olímpico, 2016, “passou batido” no seu histórico político. O impeachment de Dilma Rousseff, em agosto, também não arrancou declarações do craque. Então, seria mais óbvio ouvir um posicionamento do atacante em 2018, num novo pleito presidencial. Mas o jogador adotou uma postura muito mais discreta e optou pelo discurso da neutralidade.
Uma reportagem publicada pela coluna F5, da Folha de S. Paulo, noticiou em outubro daquele ano que o principal motivo para o “sumiço” das declarações de Neymar sobre política aconteceu por um pedido de sua então namorada, Bruna Marquezine. A atriz, que mantinha uma postura contundente contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) na campanha do “#EleNão”, teria convencido o jogador a não declarar voto. Naquela época, ele já havia deixado o Barcelona e ido para o Paris Saint-Germain, da França.
Nas duas oportunidades que falou sobre o tema, Neymar não citou nomes e apenas pediu que o presidente eleito tivesse “caráter”. “Procuro não entrar em assuntos políticos, mas mesmo de longe a gente acaba acompanhando. Cada um corresponde de alguma forma, cada um tem o seu pensamento. Eu entrego nas mãos de Deus, espero que alguém de caráter, de confiança, possa assumir a liderança do Brasil e levantar o país, que merece não só felicidade, mas alguém com responsabilidade lá em cima”, disse o atacante, segundo registro a rádio francesa RFI.
O único posicionamento que teve na época foi a favor da eleição de Romário, que concorria ao governo do Rio de Janeiro. “Estou aqui para falar que te apoio. Você e todos que estão contigo. Espero que você possa melhorar muito o Rio de Janeiro, sou frequentador e amo muito essa cidade”, declarou em vídeo.
Apoio e aproximação de Jair Bolsonaro
O momento mais lembrado de Neymar na política aconteceu em 2022, quando o atacante postou um vídeo dois dias antes do primeiro turno das eleições cantando o jingle de campanha do candidato à reeleição, Jair Bolsonaro. Mas a aproximação dos dois começa anos antes, em 2019.
Naquele ano, dois momentos ajudaram a estreitar as relações. O primeiro aconteceu quando o político saiu publicamente em defesa de Neymar na acusação de estupro contra Najila Trindade, em caso que foi arquivado. Depois, durante a disputa da Copa América no Brasil, em que o camisa 10 não atuou por lesão, os dois assistiram juntos a classificação da Seleção diante da Argentina no Mineirão.
Três anos depois, Bolsonaro ganhou um ferrenho apoiador, que chegou a participar de uma live com o candidato à reeleição durante a campanha do segundo turno. “Eu queria agradecer ao presidente que no momento mais difícil da minha vida foi o primeiro a se posicionar publicamente dizendo que estaria do meu lado. Quando eu vi o que estava acontecendo, eu senti no meu coração que devia retribuir esse mesmo carinho que ele teve comigo sem ao menos me conhecer”, disse Neymar.
Durante o governo Bolsonaro, período que coincidiu com a pandemia de Covid-19, Neymar não deu declarações políticas relevantes. E nem optou por apoiar um candidato nas eleições municipais no fim de 2020. Porém, na época da eleição, o craque voltou a fazer campanha pelo então presidente e participou até de uma live do político do PL antes do segundo turno após ser alfinetado por Lula durante um podcast.
Na ocasião, o petista afirmou que a gratidão de Neymar e sua família pelo governo Bolsonaro teria relação com um suposto perdão de dívida com a Receita Federal.
Críticas de Lula e convite para Flávio Bolsonaro
Neste ano, a convocação de Neymar para a Copa do Mundo virou debate nacional. Durante um evento em Minas Gerais, depois que Ancelotti anunciou que levaria o jogador do Santos para os Estados Unidos, Lula afirmou que oatacante era o "primeiro convocado home office do mundo" em ironia ao excesso de lesões que deixaram o jogador longe dos gramados.
Aproveitando o clima de comoção, Flávio Bolsonaro (PL) saiu em defesa de Neymar e publicou um vídeo apoiando o atleta.
Até agora, o único gesto de Neymar em direção a Flávio foi o convite para assistir ao duelo entre Vasco e Santos em São Januário, no Rio de Janeiro. O senador é torcedor do clube carioca e marcou presença no estádio.
A reportagem do Terra questionou a assessoria de Neymar sobre a sua participação na eleição deste ano, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
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