Renato Augusto persegue fim da fama de azarado: "2014 será meu ano"
Ausente em 39 jogos do Corinthians em 2013, Renato encerra ano longe do nível físico ideal e conta mais sobre sofrimento nos períodos fora de ação
O Bayer Leverkusen realmente se esforçou para livrar o hoje corintiano Renato Augusto das lesões. Até um preparador físico quase particular, Daniel Jouvin, foi contratado junto ao Flamengo. Em Colônia, onde moraram em 2011 e 2012 na Alemanha, Daniel e Renato eram vizinhos de porta, amigos para todas as horas. Mas nem mesmo o preparador conseguiu livrá-lo de tantos problemas, sobretudo musculares.
A seu departamento médico conceituado, o Corinthians entregou dois verdadeiros desafios em janeiro: Renato Augusto e Alexandre Pato, ambos de histórico de lesão nos anos anteriores. Pato passou 2013 imune a problemas físicos, mas Renato não. De 72 jogos corintianos na temporada, ele foi problema em 39. De volta para a reta final do Campeonato Brasileiro, admite, em entrevista exclusiva ao Terra: está bem distante do ideal.
Renato tenta encarar as coisas com otimismo, mas seu retrospecto é preocupante. Da época do Flamengo, seu primeiro clube, carrega duas cicatrizes no rosto, protegido por três placas de titânio e de malar sustentado por 11 parafusos. Na Alemanha, conseguiu grandes momentos com o Leverkusen, mas também outras lesões. Duas musculares, importantes, e uma cirurgia no joelho, marcada por outra cicatriz.
Contratado pelo Corinthians por mais de R$ 9 milhões, não mudou a rotina de convencer quando está em campo e deixar preocupações nas muitas vezes em que está fora dele. Aos 25 anos, Renato Augusto insiste que pode superar tudo isso, persevera. Sabe que tem potencial para ser um dos principais jogadores do País na medida em que seus músculos e sua sorte contribuam: "2014 será meu ano", afirma.
Confira a entrevista exclusiva de Renato Augusto na íntegra:
Terra - No Bayer Leverkusen, você tinha um preparador físico praticamente só para te acompanhar. Esse trabalho é tão individualizado no Corinthians?
Renato Augusto - Eu diria que é do mesmo nível. Claro que lá (na Alemanha) ficava algo mais individualizado, mas aqui, como há muitos fisioterapeutas e preparadores, acaba sendo direcionado também. Não tem tanta diferença, me sinto bem da mesma forma.
| Preparador de Renato segue na Alemanha |
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Ex-preparador do Flamengo, Daniel Jouvin fazia trabalhos individuais com Renato Augusto até ser contratado pelo Bayer Leverkusen em 2011. Ele segue no clube apesar da saída do jogador para o Corinthians |
Terra - Em relação a treinamentos, quais são as maiores diferenças entre Alemanha e Brasil?
Renato Augusto -
Lá
,a gente treinava um pouco menos. Se joga muito menos do que se joga aqui, o desgaste físico é muito grande. Fica difícil comparar em alguns aspectos porque não tem a mesma quantidade de jogos. O que notei é uma diferença muito grande de quando saí (2008) e de quando voltei ao Brasil. Em cinco anos evoluiu bastante a parte técnica de treinamentos e a parte física. Evoluiu bastante, de uma forma geral, o futebol brasileiro.
Terra - É possível o jogo aqui ser tão intenso quanto lá?
Renato Augusto -
Não tem como ter a mesma intensidade pelo número de jogos. Fizemos três meses seguidos jogando quarta e domingo, é realmente uma sequência absurda. Não temos tempo de descansar, as viagens são longas, a pressão externa é bem maior que lá. Nisso também tem uma grande diferença.
Nota da redação.: Em 2012, Corinthians disputou 74 jogos. Bayern de Munique, na temporada 2012-13, disputou 54 partidas.
Terra - Muito se diz que falta fome ao time do Corinthians no Campeonato Brasileiro. No primeiro semestre, porém, a equipe vinha bem nas competições que disputou. Você acha que o problema é esse, de fato?
Renato Augusto -
Não acho. Foi uma sequência de jogos em que perdemos alguns jogadores por lesão. Houve uma sequência muito grande de títulos que vieram, é natural que caia um pouco por um momento. Não vejo como falta de fome por títulos, já que tivemos dois títulos e saímos da Libertadores de uma forma estranha. Assim foi também na Copa do Brasil, de uma forma estranha, nós poderíamos brigar pelo título agora. No Brasileiro não fomos bem, mas não vejo falta de fome.
Terra - Por que é tão difícil fazer três temporadas seguidas, por exemplo, com alto nível no Brasil? O Fluminense, atual campeão, briga contra o rebaixamento.
Renato Augusto -
Tirando o Barcelona que briga todo ano, mas é um caso à parte, é difícil manter uma equipe assim. Há uma natural troca de jogadores, você mantém o mesmo esquema com peças diferentes, e até encaixar muita coisa acontece. O futebol brasileiro não consegue segurar os jogadores como o europeu. Se chegar uma proposta muito boa, não tem como. Foi com o Botafogo também. O Brasil está se estruturando mais para isso, mas o futebol europeu está muito à frente.
NR.: Na última janela, Botafogo negociou dois titulares, Vitinho e Fellype Gabriel, e reservas importantes, Andrezinho e Antônio Carlos.
Terra - Qual a falta que o Paulinho faz nisso tudo?
Renato Augusto -
Ele fazia a ligação muito bem com o ataque, era muito importante e não tinha no elenco ninguém com as características dele. Quando o Guilherme entrou, o time foi se acostumando com um novo modo de jogar, porque ele fica um pouco mais e o Paulinho se lança mais na frente. Depois que o Guilherme acabou se machucando, houve um revezamento (entre Ibson, Maldonado e Edenílson).
Terra - Você raramente jogou na função de volante por outras equipes. No Corinthians, chegou a se dizer que você poderia ser acionado, mas jamais atuou ali. Houve essa possibilidade?
Renato Augusto -
Cogitaram a hipótese porque fiz essa função algumas vezes. Prefiro até de segundo volante que de atacante, porque vejo melhor o jogo melhor. Mas sou meia, vou sempre pensar em jogar na minha posição. Se puder ajudar em outras, vou ajudar, mas não me vejo com as características do Paulinho. O Tite falou comigo sobre a possibilidade, mas logo eu operei o joelho.
Terra - Segundo volante, meia central, meia pela direita, pela esquerda ou até falso nove. Enfim, qual sua posição preferida?
Renato Augusto - A função que mais gosto é de meia centralizado, porque o jogo fica mais perto do seu pé, a bola chega mais. É onde prefiro jogar.
| Motivo | Prazo | Retorno | Ausente |
| Lesão muscular na coxa direita (26 de março) |
45 dias | 95 dias | 18 jogos |
| Lesão na face (7 de julho) |
nenhum | 10 dias | 1 jogo |
| Artroscopia no joelho direito (26 de agosto) |
35 dias | 50 dias | 16 jogos |
| Poupado | - | - | 4 jogos |
Terra - Você chegou a falar sobre a dificuldade em confiar na própria parte física quando passa por muitas lesões. Hoje qual é seu grau de confiança nos músculos e no físico como um todo? Dá para jogar perto do ideal?
Renato Augusto -
Não tem como chegar perto do ideal porque não tive preparação. Praticamente saí de fisioterapia e fui direto para o jogo. O momento pedia e não tive como fazer preparação adequada. É difícil eu ter uma sequência de jogos, jogar em alto nível, por não ter essa base. Até o final do ano as chances de eu jogar 100% são praticamente zero.
Terra - 100% mesmo só em 2014?
Renato Augusto -
Sim, até porque vamos fazer uma pré-temporada diferente dos demais. Vamos reforçar a parte muscular, realinhar o meu corpo para que as lesões não voltem a acontecer.
Terra - Como são os momentos seguintes às lesões? Como o jogador lida com a frustração de não poder atuar?
Renato Augusto -
Primeiro que é ruim, todos querem estar jogando, principalmente em jogos decisivos. É a hora que você mais quer estar no jogo. Na Libertadores, foi o momento que mais fiquei com vontade de jogar e não pude. Eu estava 100% antes da lesão, vinha bem, fazendo boas partidas e foi quando fiquei mais chateado de ficar de fora.
Terra - Ficar afastado do campo é o mais difícil?
Renato Augusto -
Todo jogador não se sente bem, é muito pior. Não faz o que ama, fica fazendo fisioterapia o dia todo. Chegar às 9h da manhã e ir embora às 7h da noite, só fazendo fisioterapia e trabalho físico. Chega hora que você quer voltar para o campo e participar.
Terra - Em uma das lesões, você chegou a chorar bastante na saída do gramado. Dentro de casa, nos momentos difíceis, você chegou a chorar também? Sofreu muito?
Renato Augusto -
Fiquei triste. Principalmente porque vivia um bom momento, sonhando com Seleção e vi que estava em uma crescente muito boa, jogando bem, conquistando a confiança da comissão técnica e da torcida. Era um momento bom para mim, e infelizmente tive a lesão. Por mais curioso que seja, era o jogo em que iria descansar, porque vinha em uma sequência grande. Agora, aconteceu! Não adianta pensar no que aconteceu em março, em abril. Temos jogos pela frente e prefiro pensar neles e em 2014.
Terra - Há jogadores especiais, caso do Zé Roberto, que passam uma carreira toda sem lesões de nenhum tipo. Você acha que estaria em que patamar se jamais tivesse se machucado nesses anos todos?
Renato Augusto -
Não tem como dizer, prever. Então não tem como chegar aqui e falar "poderia", "estaria". Prefiro pensar no presente. Estou aqui hoje, pensando no fim desse ano e no ano que vem. Quero fazer que o ano de 2014 possa ser o meu ano. Vou me preparar mais que nesse ano para poder voltar a jogar bem, sem lesões e ganhar títulos no Corinthians.
- Em agosto de 2011, Renato Augusto concedeu entrevista exclusiva para o Terra
