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Fé de 102 anos do “clube mais brasileiro” vai além do catolicismo

24 jul 2013 - 10h05
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O apelo a São Jorge, em quem confiam os corintianos à espera de seu sonhado estádio, não é um hábito recente. A fé sempre esteve presente na trajetória do clube, cujos fundadores decidiram já na reunião inaugural, há quase 103 anos, que seria pedida a bênção do padre Antônio Pasova --- espécie de líder espiritual do Bom Retiro, bairro onde nasceu o time do povo.

A ligação com o santo guerreiro teve seu ponto de partida na compra do terreno do Parque São Jorge, em 1926. A bravura do lutador capadócio que dava nome ao local não demorou a ser relacionada à equipe e celebrada pelos torcedores, ganhando ares oficiais com a inauguração da Capela de São Jorge, em 1967. Dois anos depois, a devoção alvinegra contribuiria decisivamente para a "salvação" do padroeiro.

Em um episódio que ficou conhecido como "cassação de santos", o papa Paulo VI reordenou o calendário litúrgico e tirou da lista oficial nomes celebrados em apenas algumas partes do mundo, como Jorge. Então, o corintiano dom Paulo Evaristo Arns, que logo se tornaria arcebispo de São Paulo, procurou o sumo pontífice e lhe fez um apelo."Santo padre, nosso povo não está entendendo direito a questão. São Jorge é muito popular no Brasil, sobretudo entre a imensa torcida do Corinthians, o clube mais popular de São Paulo", disse dom Paulo. "Não podemos prejudicar nem a Inglaterra, nem o Corinthians", respondeu o papa, lembrando que o santo guerreiro também é patrono dos ingleses e ordenando sua inclusão nos calendários deles e dos brasileiros. "Caso contrário, seremos culpados de um equívoco."

É evidente que o culto não teria acabado se a reordenação de Paulo VI fosse mantida. A fé preta e branca vai muito além do catolicismo, algo bem exemplificado em São Jorge. Em um país em que a mistura religiosa é algo tão característico quanto o gosto pelo futebol, o turco mais brasileiro tem seus correspondentes na umbanda e no candomblé, sendo relacionado a Ogum e a Oxóssi.Sabia bem disso o zagueiro Jaú, que defendeu o "clube mais brasileiro" de 1932 a 1938 e depois se tornou pai de santo. Ele é personagem de uma das muitas histórias de misticismo envolvendo o Corinthians --- do qual saiu de maneira conturbada, sempre ligado à pecha de "vendido" por ter sido alvo de uma tentativa de suborno de um diretor palmeirense em uma derrota por 3 a 0 do futuro Timão.

No período de maior jejum de títulos da história da equipe, entre 1954 e 1977, começaram a se multiplicar explicações para a seca e soluções. O mais difundido motivo dos sucessivos fracassos foi um sapo que teria sido enterrado no gramado do Parque --- em uma das versões, pelo próprio Jaú, que passou a vida inteira dizendo-se corintiano e negando qualquer ato contrário à felicidade do time. Conta-se que, em um treino de 1968, o bicho foi encontrado por acaso e chutado por Diogo, gesto repetido por Lula. Os dois goleiros caíram em desgraça pouco depois, vendo Ado ganhar seu espaço.

Não terminou aí a história. Pouco antes da final do Campeonato Paulista de 1977, que finalmente acabou com a maldição, Pai Jaú telefonou ao presidente Vicente Matheus: "Tem um sapo". À meia-noite, Jaú, Matheus e o místico Robério de Ogum foram à Fazendinha resolver a questão. Robério disse ter achado a ossada do animal. Matheus, não: "Nada, nem osso de galinha".Toda a movimentação incomodou dom Paulo Evaristo Arns, que enviou o padre Santo Granzotto, seu amigo e colaborador, para uma conversa com a diretoria. "Avise que dom Paulo ameaça abandonar o clube (se forem adiante os rituais). Diga que ele passa, sem demora, a torcer pelo Palmeiras", solicitou o cardeal, de acordo com relato em um de seus livros. Convidado para jantar com diretores e benzer o campo, ele atendeu. "O resultado todos conhecem: vencemos com Deus, não com o sapo."

A ameaça não impediu que o Corinthians voltasse a honrar o último verso de seu hino e sincretizasse as crenças heterogêneas de seu povo em várias situações. Assim, mesmo mantendo a capela e rituais católicos periódicos, o Timão teve até 2001 em seu quadro de funcionários Miranílson Carvalho dos Santos, o Pai Nilson. Demitido, atribuiu a má campanha no segundo semestre à sua saída, mas não conseguiu ficar longe do Parque, fazendo trabalhos como a oferenda que tentou evitar o rebaixamento em 2007. Não deu certo.

Também em 2001, ainda no primeiro semestre, o Alvinegro saiu da zona de rebaixamento para conquistar o Estadual. A reviravolta, ocorrida sob comando do técnico Wanderley Luxemburgo, coincidiu com a chegada de galinhas d’angola que continuaram presentes por pelo menos uma década na sede alvinegra.

O sobrenatural está presente até no endereço do clube, que já teve metade de seu espaço atual e ficava apenas do lado esquerdo da rua São Jorge. A via percorria 781 metros da avenida Celso Garcia até o portão de entrada, à margem do rio Tietê, mas o número oficial foi sempre o cabalístico 777. Mesmo quando o terreno do outro lado foi comprado e a rua encurtada, manteve-se o registro.

As demonstrações de fé oficiais mais recentes voltaram a ter um caráter mais católico. No ano passado, por exemplo, antes das vitórias na Copa Libertadores e no Mundial --- conquistado com gols do religioso Guerrero ---, o padre Marcelo Rossi esteve no centro de treinamento para uma bênção, recebendo posteriormente as taças no santuário em que celebra suas missas.

"O Corinthians vai crescer, crescer, crescer, com a vibração daquela fé, tenha ela o nome que quiser: força, magia, feitiçaria. Porque, se o inimigo tem truque nos pés, o Corinthians tem 1910", já havia previsto o compositor alvinegro Tom Zé. Se crer não é algo exclusivo do clube do Parque São Jorge, poucos torcedores fazem de seu time uma religião como o corintiano.

Gazeta Esportiva Gazeta Esportiva
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