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Tite tem obrigação de estar informado sobre Daniel Alves

Resposta do treinador sobre condenação por estupro de seu ex-capitão respinga em pacto que blinda agressores de mulheres

26 fev 2024 - 09h36
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Técnico do Flamengo vai mal ao responder sobre condenação de Daniel Alves
Técnico do Flamengo vai mal ao responder sobre condenação de Daniel Alves
Foto: Alexandre Schneider/Getty Images / Esporte News Mundo

Uma pergunta oportuna e pertinente. O último jogo do Flamengo, contra o Boavista, havia sido na terça-feira à noite. Daniel Alves foi condenado por estupro, na Espanha, na quinta-feira de manhã. Terminado o Fla-Flu, Tite concedeu sua primeira entrevista coletiva após a condenação de seu ex-capitão na seleção brasileira.

Logo, o questionamento ao treinador rubro-negro era mais do que necessário. Daniel Alves sempre foi homem de confiança de Tite. O lateral vestia a braçadeira de capitão em seu único título pela seleção, a Copa América de 2019. Mesmo em baixa e aos 39 anos, foi convocado para a última Copa do Mundo por ser considerado um dos líderes do grupo.

Com toda essa relação entre ambos, ainda que o crime cometido por Daniel Alves tenha sido posterior à convocação, a pergunta direcionada a Tite era inevitável, quase uma obrigação jornalística. O que derruba o argumento de torcedores flamenguistas que dizem achar despropositada a questão depois da vitória de seu time em um clássico.

A questão sobre Daniel Alves está acima de resultado ou do próprio futebol. Ela se impõe por se tratar de uma questão ética e moral, valores que Tite tanto enaltece publicamente. Sendo assim, deveria ser feita se o Flamengo tivesse ganhado ou perdido, na primeira oportunidade da imprensa diante do técnico depois da sentença.

Tite respondeu à la Tite. Tentou ser protocolar e tergiversou, falando em termos vagos que “todo erro deve ser punido”, o que por si só já configura um deslize do treinador, por de certa forma equiparar o grave crime de estupro a uma mera falha. Mas o principal tropeço do hoje comandante rubro-negro foi afirmar que não queria fazer julgamento sobre o caso por não ter “todos os fatos e as informações verdadeiras a respeito”.

Justamente por seu histórico com o ex-jogador, Tite tem a obrigação de estar informado sobre Daniel Alves. A denúncia por estupro teve repercussão mundial, com fartas informações e dados processuais à disposição, como o protocolo antiviolência machista acionado pela boate, as várias mudanças de versão do acusado e o exame que detectou seu sêmem no corpo da vítima.

Ao dizer que não teve acesso a “informações verdadeiras”, o técnico coloca em xeque não só a rígida investigação criminal encabeçada pelas autoridades espanholas, mas também a palavra da mulher que denunciou Daniel Alves, corroborada por relatos sólidos e coerentes desde a comunicação à polícia até o testemunho no julgamento.

Em defesa de seu ex-jogador, Tite poderia alegar que só se pronunciaria sobre o caso quando houvesse trânsito em julgado do processo que resultou em condenação na primeira instância. Seria um argumento mais plausível que a dissimulação ao insinuar que as informações que municiaram a sentença talvez não sejam verdadeiras, fazendo coro às alegações de amigos e familiares que defendem incondicionalmente, a ponto de expor a identidade da denunciante durante as investigações, a inocência de Daniel Alves.

Por fim, a fala de Tite respinga no pacto masculino que blinda agressores de mulheres, sobretudo aqueles que são protagonistas no futebol. Nenhum jogador ou ex-atleta condenou os crimes cometidos por Daniel Alves e Robinho. Uma espiral constrangedora de silêncio, que, quando raramente rompida, só serve para a escancarar ainda mais a cumplicidade do meio.

Fonte: Breiller Pires Breiller Pires é jornalista esportivo e, além de ser colunista do Terra, é comentarista no canal ESPN Brasil. As visões do colunista não representam a visão do Terra.
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