Hexa adiado outra vez: quem se salvou, quem faltou e o que a Copa revelou sobre a Seleção
A Copa de 2026 expôs um Brasil incompleto: Vini Jr. brilhou, alguns surpreenderam, mas lesões e ausências revelaram um elenco abaixo do necessário.
O Brasil chegou à Copa do Mundo de 2026 carregando um peso que poucos países conhecem: 24 anos de espera, quatro trocas de treinador no ciclo, e uma Eliminatória que foi a pior campanha da Seleção na era dos pontos corridos. Carlo Ancelotti assumiu tarde, teve pouco tempo para montar um time, e o elenco que embarcou para os Estados Unidos era ao mesmo tempo talentoso e profundamente irregular. O hexacampeonato era um sonho; mas, olhando para o que o Brasil levou para o torneio, era também um projeto frágil, construído sobre bases que nunca se firmaram completamente.
A campanha começou melhor do que o ciclo prometia. Na fase de grupos, a Seleção mostrou organização, Vinícius Júnior voltou a ser o jogador assustador que os clubes europeus conhecem, e Matheus Cunha, um dos poucos nomes que chegou em alto nível, marcou três gols e deu uma consistência ofensiva que o Brasil raramente teve nas Eliminatórias. O time funcionou quando jogou solto, quando não precisou se reinventar, quando os adversários permitiram que a qualidade individual falasse mais alto. O problema é que Copa do Mundo não funciona assim por muito tempo.
Uma campanha de altos e baixos e o preço de nunca ter sido um time completo
Nas oitavas, diante da Noruega, o Brasil foi eliminado por 2 a 1, com dois gols de Haaland e um pênalti desperdiçado por Bruno Guimarães no primeiro tempo. A derrota doleu, mas não surpreendeu quem acompanhou o ciclo de perto. A Seleção que entrou em campo no MetLife Stadium nunca tinha sido, de fato, a versão mais completa que Ancelotti poderia escalar. E esse é o ponto que o resultado final não consegue contar sozinho.
Ao longo de toda a preparação, o Brasil conviveu com lesões que foram muito além de contratempos pontuais. Neymar passou praticamente o ciclo inteiro fora, retornou perto da Copa sem sequência de jogos e funcionou mais como símbolo do que como peça técnica. Rodrygo, peça fundamental para ligar o meio ao ataque, sofreu uma lesão grave no joelho e não foi convocado. Éder Militão um jogador que poderia ter feito a diferença, também não foi convocado por uma lesão grave na coxa. Com as laterais, castigadas por lesões ao longo das Eliminatórias, geraram improvisações que atravessaram toda a competição. O Brasil que foi à Copa era um time que ainda estava se encontrando como equipe, porém não chegou a essa sincronia a tempo.
Quando se olha para os nomes que ficaram de fora, seja por lesão, seja por opção técnica, a pergunta inevitável surge: e se? João Pedro é o exemplo mais citado. Viveu grande fase na reta final da temporada europeia, oferece um perfil de centroavante que sai da área, associa com os pontas e atua entre as linhas, algo que o Brasil não tinha em nenhum outro nome do elenco. João Gomes daria ao meio-campo uma intensidade de pressão alta que Casemiro, em seu atual momento de carreira, já não consegue sustentar sozinho. Nenhum desses nomes garantiria o título. Mas cada um deles poderia ter dado ao Brasil uma camada a mais de imprevisibilidade; e imprevisibilidade, em mata-mata de Copa do Mundo vale muito.
A hipótese, porém, precisa ser honesta. Mesmo com esses jogadores disponíveis e em condições ideais, o Brasil seguiria sendo um time construído às pressas, sem identidade consolidada e com pouco tempo de entrosamento. Um ou dois nomes diferentes podem mudar o resultado de uma partida. Raramente mudam a lógica de um ciclo inteiro. E o ciclo brasileiro foi, desde o início, marcado por instabilidade, de comissão técnica, de modelo de jogo, de convocações. Isso não se resolve com uma lista de convocados diferente.
Apesar disso o torneio pôde mostrar que Vini Jr. foi o grande nome da Seleção. Assustador nas chegadas, decisivo em gols e assistências, presente mesmo quando o time ao redor caía de nível. Bruno Guimarães trouxe assistências com poucos erros que ajudaram a fazer a diferença durante as partidas, apesar de ter perdido o pênalti contra a Noruega. Rayan, que entrou na vaga de Raphinha após lesão durante o jogo do Haiti, mostrou personalidade e velocidade suficientes para ser lembrado como peça do futuro. Foram os três que saíram do torneio com a reputação em alta.
Entretanto entre os acertos e uma possível decepção temos o Endrick, que trouxe dinamica, criatividade e velocidade no jogo, porém apesar de ter isso como uma característica desde o Palmeiras e ser um dos possíveis nomes para 2030, o jovem jogador não conseguiu ser tão decisivo como foi em amistosos e nem se destacar com os poucos minutos em campo.
Os titulares que a Seleção esperava e não encontrou
Do outro lado, a decepção coletiva foi dura. A zaga oscilou nos momentos que mais importavam. E Neymar, que encerrou sua história na Seleção cobrando um pênalti nos acréscimos contra a Noruega, deixou uma imagem que resume bem sua última Copa: emocionante, simbólica e insuficiente para mudar o que precisava ser mudado. Casemiro que não vem se fazendo uma boa performance nas últimas copas, já demonstra um baixo rendimento em campo. Marquinhos capitão do time, não trouxe a liderança que era preciso para os 11 jogadores em campo, e não teve o destaque necessário para o título de capitão.
Porém o problema vai além de nomes de jogadores; o Brasil passou por quatro treinadores no ciclo: Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti; mudou de modelo de jogo diversas vezes e encerrou as Eliminatórias com sua pior campanha na era dos pontos corridos. Ancelotti teve pouco tempo para consolidar qualquer ideia antes do torneio, e isso se viu ao longo de toda a Copa: muito volume ofensivo, baixa eficiência, e uma equipe que, quando pressionada, não sabia exatamente o que fazer coletivamente. A derrota nas oitavas foi apenas o ponto final de uma frase que começou a ser escrita há quatro anos.
O Brasil encerra 2026 como um país que chegou com sonho e saiu com a mesma pergunta de sempre: quando? A resposta, dessa vez, ficou ainda mais distante. Mas talvez o mais honesto seja admitir que o problema nunca foi apenas quem foi convocado ou quem se machucou no caminho. Foi um ciclo que nunca encontrou a si mesmo e uma Copa que o Brasil quase não jogou de verdade.
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