Textor cruza o Rubicão. Em campo, Botafogo bielsista supera as expectativas
Início avassalador no Brasileirão antagoniza com tsunami da crise alvinegra. Quem foi ao Nilton Santos teve uma noite memorável na quinta
Um aporte que, na verdade, era um empréstimo com juros altíssimos. Uma dívida de R$ 1,5 bilhão. Atraso no parcelamento do pagamento de contratações. A promessa de liquidar o transfer ban e ser agressivo no mercado atirada ao vento. Empresários cobrando comissões. Desgastes políticos nos bastidores. A falta de transparência. Discursos contraditórios. John Textor conseguiu queimar a própria imagem com uma fração relevante do botafoguismo. Na última quinta-feira (29), o empresário cruzou, enfim, o Rubicão. Ou seja, chegou a um ponto sem retorno ao tentar vender, na surdina, por debaixo dos panos, Danilo e Montoro a preço de banana para o Nottingham Forest (ING) de Evangelos Marinakis. Uma liminar da Justiça o impediu. O time ficaria sem os dois grandes nomes do elenco e com apenas R$ 50 milhões na operação. Um movimento típico de uma gestão temerária. Aquele planejamento às avessas do início de 2025 soa, aliás, como música perto do tsunami que se avolumou contra o Botafogo nesta semana. Como era bom quando os problemas se limitavam às escalações do Renato Paiva!
Popularidade baixa no Botafogo
Pela primeira vez, o clima no Estádio Nilton Santos não foi favorável ao Godfather. Narcista, Textor, diante da crise financeira, abandonou aquela imagem típica de um político brasileiro pedindo votos em época de eleição. O big boss só havia trocado o pastel pelo churrasquinho de gato do Engenho de Dentro. O magnata se dirigiu, então, rapidamente ao camarote, realizou um pronunciamento aos canais oficiais do clube (fineza não confundir com entrevista) e se esquivou dos jornalistas que o aguardavam na zona mista do Colosso do Subúrbio. Postura típica de quem está nas cordas e sob muita pressão.
O acionista da ensolarada Flórida evitou, portanto, o contato com a massa alvinegra. Nada de selfies! Ao invés da euforia do "Papai chegou", o norte-americano ouviu gritos de ordem das tribunas do Nilton Santos e protestos das torcidas organizadas. Além disso, se deparou com uma faixa centralizada na Leste Inferior com um recado claro: o clube é de sua gente! Talvez o botafoguismo tenha percebido que idolatrar dirigentes não condiz com a grandeza do Mais Tradicional. O Botafogo nunca foi um clube sebastianista e tampouco precisa de um salvador. Falta à instituição um outro tipo de liderança para a SAF. Textor parece inviável. Lamentavelmente! Franceses, ingleses e belgas já haviam enviado o alerta.
Gratidão x escravidão
O componente de 2024 será a última muleta do investidor. E, de fato, a gratidão é importante, assim como a honestidade. De março de 2022 a janeiro de 2025, houve avanços no futebol: scout, categorias de base mais qualificadas, times competitivos, as boas instalações do Espaço Lonier, três classificações consecutivas para a Copa Libertadores, além daquele dezembro do ano retrasado. No entanto, hoje o Botafogo expõe a marca de uma forma extremamente negativa e afasta até novos investidores. Os títulos não são salvos-condutos para arroubos autoritários e megalomaníacos. O Glorioso existe antes das taças. Os canecos servem para reforçar o tamanho da Mais Tradicional. E não para torná-lo refém dos interesses de um forasteiro irresponsável.
Parecia aquele Botafogo x Peñarol…
O campo antagonizou com os bastidores. Ou será que eles se completam? Afinal, dizem que o Glorioso se alimenta do caos. A Estrela Solitária brilha, assim, em momentos de escuridão. Botafogo 4 x 0 Cruzeiro lembrou aquele 5 a 0 sobre o Peñarol, em outubro de 2024. Só que golear a Raposa, forte candidata ao título brasileiro, sem o "Quarteto Fantástico", é mais difícil que atropelar a equipe uruguaia, com todo respeito à história dos aurinegros. A comparação só vai passar batida porque o primeiro embate era válido pela rodada inicial do Brasileirão e o outro por uma semifinal de Copa Libertadores. Nas duas ocasiões, entretanto, o time alvinegro demonstrou um poder de recuperação extraordinário e uma voracidade descomunal para engolir o adversário.
Bielsista 100%
Martín Anselmi não só blindou o vestiário da celeuma administrativa do Botafogo e superou a expectativa. Arrojado, o treinador rosarino mexeu em toda a estrutura do time e encontrou soluções em um elenco curto nestes três primeiros duelos. O lateral-direito joga de zagueiro, o cabeça de área vira líbero, o ala atua como lateral-esquerdo, o ponta ocupa a faixa do centroavante. Uma verdadeira revolução! E estes indícios vanguardistas não surpreendem, afinal, a diretoria trouxe um aprendiz de Marcelo Bielsa para o banco de reservas. Imagina se o técnico argentino tivesse Villalba e Medina à disposição. Maldito transfer ban!
O bielsismo é um deleite quando dá certo. Não é à toa que virou uma escola e inspirou grandes treinadores pelo planeta. Pep Guardiola, por exemplo, bebeu na fonte. Mas o estilo do guru rosarino flerta toda hora com o perigo e com a possibilidade de uma tragédia esportiva. A linha alta de marcação de Anselmi deixou a defesa exposta algumas vezes contra o Cruzeiro. Os movimentos precisam estar sincronizados no nível de um balé russo. O time só vai aperfeiçoá-los com o tempo. E a torcida, obviamente, deverá demandar o cardiologista em dia.
Para encerrar, mais elogios ao novo treinador do Mais Tradicional. No Campeonato Carioca, o Botafogo amassou os pequenos com posse de bola. Diante do forte Cruzeiro, a pelota ficou nos pés do adversário. O time alvinegro respondeu com "Velocidade Máxima" após as alterações do treinador. Parecia o filme protagonizado por Keanu Reeves e Sandra Bullock. Um atropelo, graças à leitura de jogo de Anselmi.
*Esta coluna não reflete, necessariamente, a opinião do Jogada10.
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