Fórmula E: entre testes e promessas, onde estão as mulheres?
Categoria amplia programas de desenvolvimento e estabelece meta ousada, mas já se passaram dez anos desde a última participação feminina
A Fórmula E quer colocar uma mulher novamente no grid. A categoria pretende ampliar seu programa de desenvolvimento feminino e estabeleceu uma meta ambiciosa, ter uma piloto disputando corridas contra o grid regular dentro de dois a três anos. A iniciativa é importante, mas também expõe uma pergunta que a categoria ainda não conseguiu responder. Por que, depois de mais de uma década de campeonato, com um programa de desenvolvimento que reconhece a categoria elétrica como uma das mais inclusivas, nenhuma mulher ocupa um cockpit desde 2016?
Não é como se a Fórmula E estivesse começando a discutir o assunto agora. Nos últimos anos, as temporadas iniciaram com testes exclusivos para mulheres, o que aumentou o tempo de pista destinado a essas pilotos e incentivou as equipes a incluí-las em suas academias. O teste mais recente, realizado em Valência, contou com 14 participantes. Ao todo, 21 mulheres já tiveram a oportunidade de pilotar o Gen3 Evo nas duas edições do evento.
O movimento também chegou às equipes. Abbi Pulling passou a integrar o programa da Nissan, Juju Noda foi incluída no da Jaguar, Bianca Bustamante pilotou pela CUPRA KIRO e Sophia Flörsch foi o nome escolhido pela Opel. Há, portanto, mulheres dentro da estrutura da Fórmula E. O problema é que nenhuma delas está no grid, e essa diferença é importante para entender até onde as iniciativas de inclusão realmente conseguem chegar.
Programas de desenvolvimento, testes e oportunidades de pilotagem são fundamentais para que uma categoria forme novos talentos. Mas existe uma distância enorme entre permitir que uma piloto teste um carro e oferecer a ela uma temporada completa para competir. A primeira cria experiência, enquanto a segunda constrói carreira. Sem a segunda etapa, o desenvolvimento corre o risco de se transformar em um ciclo que nunca chega ao objetivo final.
A Fórmula E parece ter percebido essa lacuna, já que, Jeff Dodds, CEO da categoria, relata que o próximo programa pretende ir além da simples oferta de quilometragem e tem a intenção de criar um caminho que possa levar efetivamente a uma vaga de corrida. As equipes, que já possuem algumas dessas pilotos em suas estruturas, deverão assumir uma participação ainda maior no processo. É um passo necessário, mas também representa o reconhecimento de que os programas anteriores, sozinhos, não foram suficientes.
A ausência não é recente. A última mulher a disputar uma corrida de Fórmula E foi Simona de Silvestro, no E-Prix de Londres de 2016. Desde então, a categoria mudou de geração de carros, passou a ser oficialmente um Campeonato Mundial da FIA, ampliou seu calendário e se consolidou como uma das principais categorias do automobilismo internacional. As mulheres, porém, não tiveram a oportunidade de acompanhar esse crescimento dentro das pistas.
De Silvestro segue como a única piloto a ter marcado pontos em uma corrida da Fórmula E. Antes dela, Katherine Legge e Michela Cerruti também participaram do campeonato. Depois, vieram pilotos que tiveram espaço em testes e programas de desenvolvimento, mas nenhuma conseguiu transformar essa presença em uma vaga permanente. Ter mulheres dentro do paddock, portanto, não é necessariamente o mesmo que ter mulheres competindo.
E essa diferença precisa fazer parte da discussão sobre inclusão no automobilismo. Durante décadas, as mulheres foram usadas para promoção do automobilismo e frequentemente colocadas em posições de promessa, de exceção ou de "próximo grande nome", enquanto seus colegas homens eram tidos como certeza para ocupar uma vaga em um cockpit. A piloto precisa provar que merece a oportunidade antes de recebê-la e, depois de recebê-la, precisa provar novamente que merece continuar. Esse ciclo cria uma barreira que não aparece necessariamente em um regulamento.
Existe uma contradição particularmente curiosa no discurso atual do esporte. A Fórmula E afirma que homens e mulheres podem competir em igualdade de condições e, ao mesmo tempo, cria programas específicos para preparar mulheres para chegar ao mesmo grid. Não há problema nisso. Se as oportunidades históricas foram desiguais, oferecer caminhos específicos para corrigir essa diferença é necessário. Mas esses programas precisam ter uma linha de chegada.
Caso contrário, existe o risco de transformar o desenvolvimento feminino em uma espécie de sala de espera permanente. A piloto testa, participa do simulador, ganha experiência, aparece nas comunicações da equipe, recebe visibilidade e volta a esperar por uma oportunidade. Enquanto isso, os cockpits continuam sendo ocupados por homens. A questão, portanto, não deveria ser apenas quantas mulheres a Fórmula E consegue colocar em um teste, mas quantas conseguem sair dele com uma oportunidade real de competir.
A própria categoria agora parece reconhecer isso ao estabelecer um prazo de dois a três anos para que uma mulher esteja no grid. Pela primeira vez, há uma meta mais concreta do que simplesmente ampliar a participação feminina. Mas a promessa também precisa ser acompanhada de cobrança, principalmente porque a Fórmula E já teve tempo suficiente para experimentar diferentes formatos de inclusão sem conseguir colocar uma mulher de volta em uma corrida.
A chegada da quarta geração de carros também pode abrir uma nova discussão. O GEN4 contará com direção assistida, o que deve reduzir o esforço físico necessário para esterçar o carro e pode contribuir para diminuir uma das diferenças físicas historicamente apontadas no automobilismo. Mas tecnologia nenhuma resolve sozinha um problema estrutural. Um carro mais fácil de pilotar fisicamente não garante que uma equipe escolherá uma mulher para ocupar seu cockpit, assim como um teste exclusivo não garante uma temporada completa.
No fim, a decisão continua sendo inteiramente das equipes. E talvez esse seja o ponto mais importante do novo programa anunciado pela Fórmula E. Se a categoria realmente quer uma mulher no grid, não basta criar oportunidades para que elas cheguem até a porta. É preciso que alguém abra essa porta. A Fórmula E tem motivos para ser cobrada justamente porque já fez mais do que simplesmente ignorar o problema. A categoria identificou a ausência, criou programas, ampliou testes e colocou pilotos dentro de suas estruturas.
Agora falta transformar essa movimentação em resultado. Depois de dez anos sem uma mulher largando em um E-Prix, mais um programa de desenvolvimento não pode ser apresentado como ponto final. Precisa ser o caminho até a largada. É importante reconhecer o esforço da Fórmula E para colocar uma piloto novamente no grid. Mas, diante da quantidade de mulheres que já fazem parte da categoria, uma única representante nas pistas seria suficiente?
A pergunta mais incômoda para a Fórmula E nos próximos três anos não será apenas se existe uma mulher capaz de competir no campeonato, mas quando a categoria vai parar de preparar mulheres para o grid e começar, de fato, a colocá-las nele.
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