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Automobilismo

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Fórmula E: Até quando Mitch Evans viverá o "quase"?

Piloto encerra ciclo de dez anos com a Jaguar como um dos maiores vencedores da categoria, mas sem o campeonato que tanto perseguiu

17 ago 2026 - 09h49
(atualizado às 10h02)
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Mitch Evans no pódio do E-Prix de São Paulo, em 2024
Mitch Evans no pódio do E-Prix de São Paulo, em 2024
Foto: Fórmula E / Divulgação

Mitch Evans chegou ao fim da temporada 2025/26 da Fórmula E mais uma vez entre os protagonistas. Pela terceira vez em sua carreira, porém, a disputa pelo título não terminou com o troféu. Em Londres, o neozelandês viu Pascal Wehrlein conquistar o campeonato e encerrou a temporada em quarto lugar. Mais do que isso, colocou fim a uma década de parceria com a Jaguar, equipe que ajudou a transformar em uma das forças da categoria.

É uma maneira curiosa de resumir a trajetória de um piloto que acumulou 16 vitórias, dois vice-campeonatos e dezenas de pódios, mas ainda não conseguiu conquistar o principal título disponível. Evans construiu uma carreira que, ao mesmo tempo em que impressiona pelos números, deixa uma pergunta incômoda: até que ponto é possível considerar uma trajetória completa quando o campeonato sempre fica pelo caminho?

A história começou muito antes da Fórmula E. Evans iniciou a carreira no kart aos seis anos e rapidamente chamou atenção no automobilismo neozelandês. Aos 16, tornou-se o mais jovem vencedor do New Zealand Grand Prix. Com Mark Webber como mentor, avançou pelas categorias de formação e conquistou o título da GP3 em 2012. No ano seguinte, chegou à GP2 e, ainda como estreante, tornou-se o piloto mais jovem da história da categoria a subir ao pódio, após terminar em terceiro em Sepang.

A Fórmula 1, entretanto, não aconteceu. O caminho que poderia levá-lo ao grid da principal categoria do automobilismo acabou encontrando outro destino. Em 2016, o neozelandês desembarcou na Fórmula E para participar da estreia da Jaguar. O que poderia ser apenas uma passagem por uma categoria emergente acabou se transformando na principal história de sua carreira.

Quando chegou ao campeonato, Jaguar e Evans começavam praticamente do zero. A montadora fazia sua estreia na Fórmula E, enquanto o piloto dava início à trajetória no automobilismo elétrico. Em sua segunda temporada, veio o primeiro pódio da equipe, em Hong Kong, além da primeira pole, em Zurique. Em 2019, em Roma, conquistou sua primeira vitória na categoria e, de quebra, deu à Jaguar seu primeiro triunfo.

A partir dali, o piloto passou a frequentar as primeiras posições com cada vez mais regularidade. Vieram vitórias, poles e temporadas em que deixou de ser uma promessa das categorias de base para se tornar um dos principais nomes do campeonato. Só havia um problema: a regularidade necessária para brigar pelo título não aparecia na mesma proporção.

A temporada 2021/22 foi o primeiro grande exemplo. Foram 180 pontos, três vitórias e sete pódios, seu melhor desempenho até então. Evans chegou ao fim do campeonato disputando diretamente o título com Stoffel Vandoorne. Um abandono em Londres, porém, complicou sua situação antes da etapa final, em Seul.

Na primeira corrida do fim de semana, venceu. Não foi suficiente. Vandoorne ficou com o campeonato e o piloto da Jaguar terminou como vice.

O resultado poderia ser tratado como parte da evolução de um competidor que ainda buscava seu primeiro título. O problema é que o roteiro se repetiria.

Em 2022/23, foram quatro vitórias e uma nova presença entre os protagonistas. Evans venceu uma das corridas em Londres, mas Jake Dennis garantiu o título e o neozelandês terminou em terceiro.

Na temporada seguinte, a situação voltou a se repetir. Em 2023/24, chegou à última rodada com chances matemáticas de campeonato pelo quarto ano consecutivo. Antes da decisão em Londres, estava empatado em pontos com Pascal Wehrlein na segunda posição e ainda podia tirar o título de Nick Cassidy.

Mais uma vez, não aconteceu. Wehrlein terminou campeão, enquanto Evans ficou com o vice. A essa altura, já não era possível tratar a sequência apenas como uma coleção de circunstâncias desfavoráveis. O piloto havia demonstrado velocidade suficiente para vencer corridas e disputar campeonatos, mas ainda não conseguira transformar esse desempenho em uma campanha capaz de chegar ao fim na primeira posição. O “quase” começava a deixar de ser episódio e passava a fazer parte da própria narrativa da carreira.

Então veio 2024/25. Depois de duas temporadas entre os três primeiros, Evans terminou apenas em 13º no campeonato. A queda foi significativa, mas nem mesmo em um de seus piores anos faltaram performances capazes de lembrar por que seu nome continuava entre os mais respeitados da categoria.

Em São Paulo, largou em 22º e terminou em segundo. Em Berlim, venceu. O problema é que corridas excepcionais não compensaram uma temporada irregular, e os resultados pontuais não foram suficientes para colocá-lo novamente na disputa pelo campeonato.

A temporada 2025/26, por sua vez, começou com uma questão adicional. Em abril de 2026, Jaguar e Evans anunciaram que encerrariam a parceria ao fim do campeonato. Depois de dez anos, o piloto que acompanhou a equipe desde sua estreia faria sua última temporada com a marca.

E, justamente no último capítulo da parceria, voltou a disputar o título. Em Miami, conquistou sua 15ª vitória e assumiu o posto de maior vencedor da história da Fórmula E. Em Berlim, largou em 17º e venceu após uma estratégia agressiva de attack mode Foi a 16ª vitória da carreira, ampliando o recorde de triunfos da categoria.

Desta vez, entretanto, não se tratava apenas de uma sequência de bons resultados. Havia uma oportunidade concreta de encerrar a passagem pela Jaguar com o campeonato que faltava.

Em Londres, novamente, não foi suficiente. Pascal Wehrlein conquistou o título, enquanto Evans terminou a temporada em quarto lugar. Depois de dez anos, 16 vitórias e duas temporadas como vice-campeão, a parceria com a Jaguar chegou ao fim sem o campeonato mundial.

É justamente aqui que a avaliação sobre a carreira do neozelandês fica mais complicada. Os números são fortes demais para permitir que sua trajetória seja tratada como fracasso. Evans deixou a Jaguar como o maior vencedor da história da Fórmula E, participou da construção da equipe desde sua estreia e se tornou um dos pilotos mais longevos e bem-sucedidos da categoria. Também foi vice-campeão duas vezes e terminou três temporadas entre os três primeiros.

Mas os números também tornam a ausência do título ainda mais evidente. Não se trata de um piloto que teve uma única oportunidade e não aproveitou. Foram diferentes temporadas na disputa, algumas delas chegando à última rodada com chances reais de campeonato. Houve velocidade, vitórias e consistência suficientes para colocá-lo entre os candidatos. O que faltou foi transformar esse conjunto em uma temporada de campeão.

E talvez essa seja a questão mais difícil de responder quando se analisa a trajetória de Mitch Evans: um piloto pode ser considerado um dos grandes de uma categoria sem jamais ter conquistado o seu principal título?

A carreira do neozelandês oferece argumentos para os dois lados. Por um lado, 16 vitórias e uma década entre os protagonistas da Fórmula E não são números que possam ser ignorados. Por outro, a ausência do campeonato pesa justamente porque as oportunidades existiram. Evans não passou a carreira distante da briga; esteve perto dela repetidas vezes.

Por isso, seu legado na categoria não precisa ser reduzido ao título que não veio, mas também não deveria ser analisado como se essa ausência não tivesse importância.

Mitch Evans encerra seu ciclo com a Jaguar como um dos maiores vencedores da história da Fórmula E. Não como campeão.

E talvez seja justamente essa contradição que melhor defina sua carreira até aqui, ele fez quase tudo o que um grande piloto precisa fazer para ser campeão — menos ganhar o campeonato.

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