'A Fifa não pode continuar usando o nosso esporte para enriquecer a si mesma', diz UEFA
No dia seguinte ao anúncio da Fifa do projeto de abertura de seu capital a investidores privados por meio da criação de uma nova empresa, a entidade é alvo de fortes críticas políticas e esportivas. A UEFA e a União Europeia expressaram sua oposição à ideia nesta quarta-feira (29).
Após uma reunião de emergência, a UEFA, que reúne as federações europeias de futebol, afirmou em comunicado que "a Fifa não pode continuar usando nosso esporte para enriquecer a si mesma e seus amigos", em uma clara alusão sobre a proximidade entre o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e o presidente americano, Donald Trump. "A alma e a governança do futebol não são ativos para especulação, sobretudo sem qualquer transparência sobre o destino dos lucros financeiros. Nenhum de nós é dono do futebol. Não cabe à Fifa vendê‑lo", diz um comunicado da instituição.
A União Europeia, por meio do comissário responsável pelos esportes, Glenn Micallef, declarou que "a comercialização desenfreada do futebol se tornou nociva" e que o plano da Fifa ameaça aquilo que torna o futebol o esporte mais popular do mundo. Em sua mensagem, ele acrescentou: "Não mexam com o nosso esporte."
Outras instituições endossaram as críticas. O presidente da Federação Francesa de Futebol, Philippe Diallo, afirmou que o projeto "levanta muitas dúvidas" e disse ter comunicado a Infantino a necessidade de "processos de decisão mais transparentes". Já Federação Alemã de Futebol classificou a iniciativa de "um ataque absoluto ao futebol" e acrescentou que existe "um amplo consenso entre as federações membros da UEFA" sobre o tema.
Outras reações vieram das Américas e da Ásia. A Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe (Concacaf) e a Asiática (AFC) lamentaram que o projeto tenha sido divulgado antes mesmo de os membros da Fifa terem sido avisados.
"Embora a AFC reconheça a importância de explorar abordagens inovadoras que possam fortalecer o futuro do futebol mundial, iniciativas dessa magnitude e com consequências tão significativas precisam se basear em princípios de boa governança, transparência e verdadeira consulta", declarou.
A Associação dos Clubes Europeus também se opôs ao que classifica de "anúncio repentino" da Fifa sobre a possível criação de uma nova empresa. "Representando mais de 850 clubes, seria adequado que a ECA fosse consultada sobre um projeto de tamanha importância", disse a entidade em comunicado.
Controverso projeto
O projeto foi revelado pelo jornal britânico The Times na terça-feira (28) e foi esclarecido horas depois pela Fifa. A entidade máxima do futebol pretende criar uma nova filial que estaria encarregada de administrar seus direitos comerciais e a organização de torneios, incluindo a Copa do Mundo e o Mundial de Clubes. A empresa seria controlada majoritariamente pela Fifa, mas uma "captação de recursos", para levantar até US$ 4,2 bilhões, seria organizada junto a investidores de longo prazo, que adquiririam participações minoritárias.
"Todos os lucros líquidos serão reinvestidos no futebol", afirmou a Fifa, prometendo aos seus membros benefícios econômicos por meio de um novo mecanismo de financiamento: o Programa Fifa Fast Forward (FFFP). Para concretizar este projeto, que ainda precisa ser aprovado pelo Conselho da entidade máxima do futebol, a instituição explica que está trabalhando com o banco J.P. Morgan e o fundo de investimento Thrive Eternal, fundado por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Segundo The Times, Infantino, que tem demonstrado regularmente sua proximidade com o chefe da Casa Branca, poderia se tornar diretor-geral da nova filial, multiplicando seus lucros pessoais. O projeto se alinha à intenção do presidente da Fifa de liberar o potencial comercial da instituição.
O diário ainda informa que Infantino enviou uma carta às federações dando‑lhes até 19 de setembro para apoiarem o projeto, com a promessa de receberem, em troca, € 20 milhões em financiamentos adicionais a partir de 1º de janeiro de 2027. "Isso diz tudo sobre o projeto", ironizou a UEFA.
Queda de braço com a UEFA
O novo projeto de Infantino - até agora o único candidato à própria reeleição em março de 2027 - pode abrir um novo capítulo em seu confronto com a União das Associações Europeias de Futebol e com seu presidente, Aleksander Čeferin.
Frequentemente crítica à Fifa, a UEFA já se opôs várias vezes à entidade máxima do futebol no passado. Mais recentemente, durante a Copa do Mundo de 2026, a instituição protestou contra o cancelamento da suspensão do atacante americano Folarin Balogun. A decisão foi tomada após uma intervenção de Trump junto a Infantino, pedindo a anulação do cartão vermelho que Balogun recebeu na partida contra a Bósnia e Herzegovina.
O pesquisador em direito internacional do esporte Antoine Duval listou uma série de dúvidas sobre o projeto de Infantino. "Do ponto de vista financeiro, o diabo está nos detalhes. Quais serão os direitos dos investidores? Como esse investimento será protegido? Que parcela das receitas futuras ficará com eles?", perguntou na rede social X. "É provável que um ganho de curto prazo acabe escondendo perdas de longo prazo para a Fifa, avalia.
RFI com AFP
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