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Salário das mulheres despenca com a idade na Coreia do Sul

7 out 2026 - 09h02
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Resumo
A Coreia do Sul lidera a desigualdade salarial de gênero na OCDE, com o abismo aumentando conforme a idade: aos 50 anos, mulheres ganham metade do salário dos homens, segundo a ONG Human Rights Watch. Apesar de mais escolarizadas, barreiras estruturais, interrupções na carreira pela maternidade e a sobrecarga de tarefas domésticas forçam o retorno a empregos precários e mal pagos. Essa desvantagem histórica se acumula até a aposentadoria, gerando pensões 47% menores para as idosas do país.

País lidera há décadas o ranking da OCDE de desigualdade salarial de gênero. Mulheres no fim dos 50 anos ganham, em média, cerca metade do valor pago aos homens.Aos 27 anos, uma mulher na Coreia do Sul ganha, em média, 8% menos que seus colegas homens. No fim dos 50 anos, essa diferença chega a 50%. Os dados constam de estatísticas salariais do governo citadas em um relatório recente da ONG de direitos humanos Human Rights Watch (HRW).

Potência em tecnologia e indústria, a Coreia do Sul mantém há décadas a maior diferença salarial de gênero da OCDE
Potência em tecnologia e indústria, a Coreia do Sul mantém há décadas a maior diferença salarial de gênero da OCDE
Foto: DW / Deutsche Welle

A Coreia do Sul é uma potência global nos setores de tecnologia e indústria, mas mantém a maior diferença salarial entre homens e mulheres entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) desde o início da série histórica comparável, em 1992.

"A divisão de trabalho por gênero dentro de casa leva diretamente a uma divisão de trabalho por gênero no mercado de trabalho", afirmou Min Hee Kim, ativista sul-coreana pelos direitos trabalhistas das mulheres.

Segundo ela, o problema não se resume ao fato de as mulheres receberem salários menores que os homens. Com o avanço da idade, as opções de trabalho disponíveis para elas diminuem, enquanto os efeitos de salários mais baixos, interrupções na carreira e empregos precários se acumulam.

Para elaborar o relatório, a HRW entrevistou 41 sul-coreanas entre 28 e 87 anos sobre suas trajetórias profissionais.

Barreiras estruturais às carreiras das mulheres

Segundo Kim, a discriminação mudou de forma, mas não desapareceu. Até os anos 1980, era legal que empresas demitissem mulheres simplesmente por se casarem, prática conhecida como "demissão por casamento". Os empregadores presumiam que uma mulher casada deixaria o trabalho em pouco tempo para cuidar dos filhos.

Hoje, acrescentou a ativista, "é difícil dizer abertamente: 'Não vamos contratar você porque é mulher'". Ainda assim, as responsabilidades de cuidado continuam recaindo principalmente sobre as mulheres, levando muitas delas a aceitar empregos de menor remuneração quando tentam retornar ao mercado de trabalho.

De acordo com o relatório da HRW, as mulheres superam os homens em formação universitária desde os anos 1980. Em tese, níveis mais elevados de educação sugeririam igualdade de oportunidades após a graduação, mas o mercado de trabalho apresenta outra realidade.

Um estudo de 2024 mostrou que, apenas um ano após a conclusão do curso superior, as mulheres já ganham 22% menos que os homens. Muitas entrevistadas relataram à HRW que, após deixarem o emprego por causa do casamento ou da maternidade, suas possibilidades de retorno ao mercado se restringiam a poucas ocupações, como atendimento em call centers, serviços de limpeza ou trabalho de cuidado.

As mulheres que optam por priorizar a carreira também encontram obstáculos. Em 2024, elas ocupavam apenas 18% dos cargos de gerência no país, e apenas cinco dos 38 altos funcionários da administração pública eram mulheres.

Salários atingem o pico e depois caem

Os salários das mulheres atingem seu nível mais alto no fim dos 30 anos e, a partir daí, entram em trajetória de queda constante, segundo dados de pesquisas do Ministério do Trabalho citados pela HRW.O Ministério da Igualdade de Gênero da Coreia do Sul informou à organização que interrupções na carreira, segregação ocupacional e discriminação dentro das instituições ajudam a explicar a diferença salarial.

J. Mi-sook, de 53 anos, relatou à HRW que seus três anos de experiência profissional não foram reconhecidos por seu empregador seguinte, o que a obrigou a recomeçar em um cargo de nível inicial e com salário inferior.

Quanto mais tempo as mulheres permanecem fora do mercado de trabalho, menos experiência conseguem acumular no currículo, o que resulta em salários menores e menor estabilidade profissional.

Kim destacou o conceito de discriminação estrutural, definido no relatório como um tipo de discriminação tão incorporado às práticas sociais e institucionais que até mesmo as afetadas podem não reconhecê-lo como um problema.

"Quando você está sozinha, é fácil pensar: 'É porque não sou suficientemente capaz' ou 'É porque estou ficando mais velha'", disse ela. Segundo a ativista, quando mulheres com experiências semelhantes se encontram e conversam, percebem que "isso não era apenas um problema meu".

Avanço da idade piora desigualdade

Park Jae-soon, de 61 anos, foi obrigada a se aposentar aos 60 de uma empresa de serviços públicos e hoje trabalha em meio período como cuidadora. Sua renda anual caiu de 55 milhões de won sul-coreanos (cerca de R$ 220 mil) para 15,6 milhões de won (cerca de R$ 62 mil), uma redução de 72%.

A HRW defende a extinção tanto da idade obrigatória para aposentadoria quanto do sistema conhecido como "salário de pico", que permite às empresas reduzirem a remuneração de trabalhadores mais velhos nos anos que antecedem a aposentadoria.

Segundo dados citados no relatório, em outubro de 2025 as mulheres recebiam, em média, apenas 53% do valor da pensão nacional por velhice paga aos homens. "Acho importante destacar que isso não é simplesmente um problema de mulheres de meia-idade que têm dificuldade para encontrar emprego", afirmou Kim.

"O trabalho que as mulheres tradicionalmente realizam dentro de casa, como limpeza, cozinhar, cuidar de outras pessoas e administrar emoções, é classificado como 'trabalho adequado para mulheres' quando entra no mercado de trabalho. Em seguida, salários baixos são atribuídos a essas atividades", acrescentou.

Do primeiro salário à aposentadoria

A HRW argumenta que a desvantagem econômica das mulheres se acumula etapa por etapa, desde o primeiro salário até a aposentadoria.

"A interrupção da carreira entre mulheres na faixa dos 30 anos já é uma questão previdenciária", disse Kim. "O trabalho de meio período entre mulheres na faixa dos 40 também é uma questão previdenciária, e os baixos salários entre mulheres na faixa dos 50 já representam igualmente uma questão previdenciária."

O governo sul-coreano informou que pretende implementar gradualmente o aumento da idade legal de aposentadoria de 60 para 65 anos. "Isso não pode ser resolvido com uma única política pública. Salário igual para trabalho igual precisa ser efetivamente aplicado, as estruturas salariais precisam ser transparentes e o cuidado deve ser tratado como uma responsabilidade pública, e não como algo transferido para famílias e mulheres individualmente", afirmou Kim.

A ativista considera o relatório um ponto de partida importante, mas avalia que o retrato apresentado ainda é incompleto. Segundo ela, a maior parte das entrevistadas foi recrutada por meio de organizações da sociedade civil e vivia principalmente em Seul. Mulheres com deficiência, trabalhadoras migrantes e outros grupos podem enfrentar uma combinação diferente de discriminações relacionadas à idade e ao gênero.

"A questão mais importante não é simplesmente: 'Quanta discriminação as mulheres enfrentam?'", afirmou. "A questão é quais mulheres, em quais posições, vão sendo progressivamente afastadas de determinados recursos e direitos à medida que envelhecem."

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