Resultado de eleição presidencial pode afetar ESG em empresas no Brasil? O que dizem líderes da área
Ouvidos pelo 'Estadão', gestores de diversas organizações avaliam que resultado eleitoral pode 'mudar ritmo' da agenda no mercado e apontam 'risco de retrocesso'
Líderes e especialistas afirmam que o resultado da eleição presidencial afetará a agenda ESG no Brasil, pois o governo dita regulações, incentivos e o tom das políticas de clima e diversidade. Enquanto Lula tende a priorizar a transição ecológica e os direitos humanos, Flávio Bolsonaro foca na flexibilização econômica. Apesar dos riscos de retrocesso, analistas apontam que empresas com governança sólida e foco em competitividade manterão suas estratégias socioambientais a longo prazo.
A condução de uma nova fase de liderança em uma reeleição presidencial ou mesmo a vigência de um novo gestor como presidente do Brasil podem afetar a agenda ESG em empresas no Brasil a partir de 2027? Lideranças e gestores da área ouvidos pelo Estadão avaliam que sim, ao comentar sobre o futuro da pauta no mercado após o desfecho da disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que terá definição neste domingo, 25.
Durante os últimos anos, especialmente no pós-pandemia, grandes empresas no País fortaleceram ações corporativas relacionadas às pautas e assumiram compromissos públicos com a agenda. No entanto, eventuais novas regulamentações e determinações em torno do tema podem redefinir ou mesmo retroceder o rumo das políticas dessas companhias, principalmente as mais sensíveis às agendas políticas, comentam os gestores.
Leia o que respondem os entrevistados:
Marcio Astrini - secretário executivo do Observatório do Clima
"Creio que haja uma influência direta e indireta. A direta é por conta de regulações que podem existir a partir do governo federal e do próprio congresso. Sabemos que a agenda de clima no Brasil é muito dependente dos movimentos que acontecem na esfera federal. E quanto mais tiver iniciativas que, por exemplo, premiem empresas que adotam a agenda ESG e que tenham compromissos ambientais e sociais, você incentiva, em uma espécie de recompensa e reconhecimento, que elas continuem na sua trajetória e também incentiva que outras empresas se sintam motivadas para aderir ao movimento ESG. A segunda coisa, que é menos mensurável, mas eu não diria menos importante, é o ambiente que se cria no País para a agenda de clima. Se você tem um presidente da República, ministros e toda uma mobilização de governo que dão atenção e importância para essa agenda, você acaba criando no País uma série de recomendações, de ambiente político, de mensagens que valorizam a agenda e, portanto, valorizam aquelas empresas e aquelas ações que adotam essa agenda. Por outro lado, se você tem uma administração pública que desvaloriza a agenda e diz que, por exemplo, a agenda de cuidados com o meio ambiente é uma agenda que afeta a nossa soberania, que é contra os interesses nacionais e que atrapalha o nosso desenvolvimento, você acaba tendo no público uma repercussão negativa dessa agenda. Nesses dois sentidos, sim, a eleição presidencial, tanto em regulamentação, quanto no ambiente favorável ou desfavorável para agenda de clima, presta um serviço importante e que vai influenciar a agenda ESG no Brasil."
Guibson Trindade - gerente executivo e cofundador da Associação Pacto de Promoção da Equidade Racial
"Sim, o resultado das eleições presidenciais pode influenciar as políticas de ESG nas empresas brasileiras, especialmente porque o governo federal tem capacidade de impactar o ambiente regulatório, as políticas públicas, os incentivos econômicos e as prioridades de desenvolvimento do País. Independentemente de quem seja eleito, existe o risco de descontinuidade ou retrocesso nas agendas de inclusão, equidade racial e desenvolvimento social, a depender das prioridades adotadas e das decisões institucionais. Isso pode afetar tanto as políticas públicas quanto o ambiente em que as empresas definem suas estratégias de sustentabilidade e responsabilidade social. Essa discussão é particularmente relevante quando olhamos para a população negra, que representa aproximadamente 56% dos brasileiros, segundo o Censo 2022 do IBGE. Estamos falando da maioria da população do País e de um enorme potencial humano, intelectual, empreendedor, produtivo e consumidor que precisa ser reconhecido e valorizado. A persistência das desigualdades raciais limita o acesso à educação, ao mercado de trabalho, à renda e às oportunidades de desenvolvimento. Para as empresas, o desafio é não permitir que a agenda ESG, especialmente a equidade racial, fique vulnerável aos ciclos políticos."
Lígia Maura Costa - coordenadora do Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance da Fundação Getúlio Vargas (FGVethics)
"Sim, o resultado eleitoral pode mudar o ritmo e as prioridades da agenda ESG, pois o governo influencia a regulação, a fiscalização e os incentivos econômicos. As respostas das empresas mais afetadas por políticas públicas - estatais e de controle estatal - podem, inclusive, estimular um efeito manada no mercado. Entretanto, o cenário internacional mostra que essa influência não determina uma resposta uniforme: um estudo de 2025 do Pacto Global da ONU e da Accenture revelou que 88% dos CEOs consultados consideram mais forte a justificativa empresarial para a sustentabilidade do que há cinco anos, apesar das incertezas geopolíticas. (Por isso) empresas com boa governança preservarão seus compromissos ESG, independentemente de quem esteja no poder."
Jandaraci Araujo - cofundadora do Instituto Conselheira 101
"Sim, acredito que o resultado das eleições presidenciais poderá impactar significativamente a agenda ESG no Brasil. Mas minha maior preocupação não está apenas em quem será eleito, e sim na ausência de propostas claras, estruturadas e de longo prazo para a sustentabilidade, a inclusão e a governança. Esse silêncio, por si só, já representa um risco de retrocesso. Ao observarmos as propostas apresentadas, percebemos diferenças importantes. De um lado (fazendo referência a Lula), compromissos com a transição energética, o financiamento sustentável e o enfrentamento das mudanças climáticas, ainda que existam contradições na execução dessas políticas. De outro (fazendo referência a Flavio Bolsonaro), uma maior ênfase na exploração econômica dos recursos naturais e na flexibilização regulatória, sem compromissos suficientemente claros com a descarbonização. O Brasil já possui avanços institucionais relevantes, como o Plano de Transformação Ecológica, o Fundo Clima, o Eco Invest Brasil, a Taxonomia Sustentável Brasileira e o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. São instrumentos que precisam de continuidade, aprimoramento e segurança jurídica, independentemente do governo. Também não podemos reduzir o ESG à pauta ambiental. Diversidade, direitos humanos, redução das desigualdades, transparência e integridade são igualmente estratégicos para o desenvolvimento do país. O maior risco não é apenas o desmonte dessas políticas, mas a falta de ambição, a descontinuidade e a ausência de compromissos mensuráveis. Em um cenário global de transformação econômica, ficar parado também significa retroceder."
Ricardo Sales - presidente e fundador do Instituto Mais Diversidade
"Certamente. O papel do governo, exercido tanto diretamente como a partir de estruturas como a CVM (Comissão de Valores Mobiliários), pode acelerar ou frear avanços na agenda ESG. Nos EUA, por exemplo, o que temos visto é praticamente uma criminalização do tema como resultado de ações do governo federal. Por aqui, caso Lula vença, será importante avançar em políticas públicas e em marcos como a política nacional de empresas e direitos humanos, que está na Casa Civil. No caso de vitória de Flávio Bolsonaro, preocupam os ataques recorrentes a populações já vulneráveis e a falta de compromisso com a democracia. É só no estado democrático de direito que as diferenças podem ser celebradas."
Margareth Goldenberg - gestora executiva do Movimento Mulher 360
"Sim, acredito que o resultado das eleições presidenciais pode influenciar as políticas de ESG nas empresas brasileiras, independentemente de quem seja eleito. O cenário político interfere nas prioridades do governo, no debate público e até na disposição de algumas empresas de se posicionarem sobre questões sociais e ambientais. Mas vejo uma diferença importante entre as empresas que já incorporaram a sustentabilidade à sua estratégia de negócios e aquelas que ainda tratam ESG como uma agenda de reputação ou de resposta a pressões externas. As empresas que entendem a relação entre sustentabilidade, gestão de riscos, inovação, atração de talentos e competitividade têm mais razões para manter seus compromissos, mesmo diante de mudanças no cenário político. Na dimensão social, especialmente em diversidade, equidade e inclusão, já vimos como a polarização e as pressões externas podem influenciar discursos, investimentos e prioridades. O risco é que compromissos construídos ao longo de anos sejam enfraquecidos por circunstâncias políticas de curto prazo. Acredito que esse também é um momento importante para as empresas mostrarem a consistência de seus compromissos. Afinal, não basta assumir publicamente uma posição, é preciso que ela esteja presente nas decisões, nas práticas e na forma como os negócios são conduzidos."
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.