Raízen fecha maior acordo de recuperação extrajudicial do País, com dívidas de R$ 64,7 bi
Com adesão de 75,45% dos credores, acordo prevê que 45% do endividamento será convertido em ações e divisão da empresa em duas, com a criação da Raízen Combustíveis e da Raízen Energia
A Raízen chegou a um acordo com seus credores no processo de sua recuperação extrajudicial. Foi o maior contrato desse tipo já fechado no País e envolveu a negociação de R$ 64,5 bilhões em dívidas financeiras da empresa, que atua na produção de açúcar, etanol, bioenergia e na distribuição de combustíveis com postos da marca Shell.
A assinatura acontece uma semana antes do prazo final e envolveu negociações com 19 instituições financeiras e mais de 80 detentores de títulos de dívida (os chamados bondholders) no Brasil e no exterior. Também mais de 100 mil CPFs, de pessoas que investiram em instrumentos de dívida, como Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) da Raízen.
O nível de adesão dos credores foi de 75,45% do total. O fechamento do negócio foi considerado satisfatório por conta do número de credores e da multiplicidade de instrumentos de dívida diferentes envolvidos.
O plano de recuperação da Raízen envolve diferentes frentes. Num primeiro momento, haverá um aporte de R$ 3,5 bilhões por parte da Shell, sócia do negócio ao lado da holding Cosan. A família Ometto, sócia da Cosan, pode colocar até R$ 500 milhões no negócio, por meio da holding familiar Aguassanta Investimentos.
A transferência dos recursos da Shell será feita até março do ano que vem. Até lá, Rubens Ometto, controlador da Cosan, continua como presidente do conselho. Caso o aporte da família seja concretizado, ele poderá ocupar uma das cadeiras do conselho, mas deixará o comando do colegiado. Se os Ometto não acompanharem o investimento, três das sete cadeiras serão ocupadas pela Shell. As demais estarão nas mãos dos credores.
Outra etapa da reestruturação será a separação da Raízen em dois negócios diferentes: a Raízen Combustíveis (com a rede de postos Shell e a estrutura logística de distribuição) e a Raízen Energia (que abriga as usinas de açúcar, etanol e bioenergia). A separação completa acontecerá até o fim do ano que vem, com um comitê de transição acompanhando o cumprimento do plano. Lorival Luz, hoje diretor financeiro da Raízen, estará à frente desse processo no cargo de CRO (diretor de reestruturação, da sigla em inglês).
Ao separar a distribuição (que gera caixa rápido) da agroindústria (que exige muito investimento de longo prazo), os investidores poderão optar pelo negócio de acordo com seu próprio nível de risco. A ideia é também evitar que o braço saudável de combustíveis seja arrastado continuamente pela volatilidade do de energia e commodities. A empresa não acredita em aumentos de custos operacionais, com duas estruturas diferentes.
Parte da dívida será convertida em ações
Simultaneamente, no processo de recuperação, os credores terão 45% de suas dívidas convertidas em ações da empresa. O preço de cada papel foi fixado em R$ 0,25. Os 55% restantes da dívida — ou R$ 35,5 bilhões — serão transformados em novos títulos das empresas já segregadas. O objetivo é isolar e descasar os perfis de risco financeiro de cada operação, limpando os balanços para destravar novos investimentos.
A Raízen Energia ficará com 17,6% da dívida restante, o equivalente a cerca de R$ 11,5 bilhões. Os títulos desse novo endividamento pagarão uma taxa de CDI + 1,25% para emissões em reais (ou 7% ao ano para passivos em dólares) aos credores. O vencimento desses papéis será em 2033 e 2035.
À Raízen Combustíveis caberá a parcela restante de 37,4% da dívida — ou cerca de R$ 24,4 bilhões. Os papéis reestruturados pagarão uma taxa de CDI + 2,75% para emissões em reais (ou 8,50% ao ano para dívidas em dólares). O vencimento se dará em março de 2032 e 2034.
Os recursos trazidos com a venda da operação na Argentina por US$ 1,4 bilhão serão direcionados para o capital de giro da Raízen. O valor não entra no acordo de redução da dívida.
Em relação aos investimentos, a expectativa é que sejam priorizados os que já estão em fase final e otimizados os em andamento. Não são esperadas demissões ou fechamento de operações.
O plano seguirá para homologação pelo Juízo de Recuperação Extrajudicial, observado o período de trinta dias para eventuais objeções dos credores, de forma a vincular a companhia, seus credores (apoiadores, ausentes ou dissidentes) e respectivos créditos reestruturados aos termos, condições e opções de pagamento estabelecidos pelo Plano.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.