Qual caminho a Natura pretende trilhar para se tornar um negócio 'regenerativo'
Segundo o CEO, João Paulo Ferreira, a Natura viu empresas revendo os compromissos por pressão de governos, o que não está nos planos
A Natura não quer ser apenas uma empresa sustentável: a marca de cosméticos anunciou a intenção de, até 2050, se tornar "regenerativa". De acordo com os executivos, a meta foi atualizada em relação ao plano anterior, lançado em 2014, para cobrir até 2050, quando a Natura prevê gerar impacto positivo em quatro aspectos: produção, humano, social e ambiental.
Em evento na sexta-feira, 4, a companhia explicou do que se tratava a mudança, ao lançar os compromissos para 2050, ano em que diversos países, incluindo o Brasil, pretendem zerar suas emissões de gases que causam o aquecimento global.
Entre os compromissos, os principais são os voltados para os produtos, as consultoras, os fornecedores, os trabalhadores da empresa e a Amazônia, onde a Natura já tem um ecoparque voltado para pesquisa e inovação, em Benevides, no Pará.
Outras palavras de ordem da companhia foram "sem retrocesso". Segundo o CEO, João Paulo Ferreira, a Natura viu empresas revendo os compromissos por pressão de alguns governos, o que não está nos planos. "Queremos criar referências para o mundo empresarial. Não vamos voltar atrás, vamos subir a régua, redefinir as metas. Temos uma obrigação moral, e a iniciativa privada tem de cumprir", afirmou Ferreira.
Para poder se classificar como regenerativa, a Natura avalia os quatro aspectos a partir do índice IP&L, sigla para "Integrated Profits and Losses" (Lucros e Perdas Integrados, em tradução livre), medido trimestralmente e utilizado na tomada de decisão.
No aspecto produtivo, são utilizados os conceitos financeiros comuns como receita e lucro. No humano, que engloba fatores como educação e saúde, levam-se em conta os salários, os benefícios e o bem-estar de trabalhadores, consultoras e comunidades fornecedoras.
No social, tenta-se medir o impacto da empresa sobre a sociedade e os locais onde atua, como os investimentos em infraestrutura, ou o reconhecimento ao acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado.
Por fim, o natural avalia como a empresa obtém os recursos de que precisa para realizar suas atividades e as repercussões em biomas, recursos hídricos, no solo, na fauna etc. Atualmente, este é o único que apresenta resultado negativo.
Estratégia
Os compromissos divulgados pela Natura foram divididos em nove eixos, cada qual com ações definidas, e todas a serem realizadas enquanto a empresa mantém a lucratividade e o crescimento:
- Marcas
- Produtos
- Serviços
- Colaboradores
- Fornecedores
- Acionistas e Investidores
- Amazônias
- Venda por Relações
- Mudanças Sistêmicas
"Esse é um documento vivo que passará por revisões. Colocamos a vida no centro de nossas decisões; e, quando olhamos, em cima de tudo está a natureza", avaliou a diretora de sustentabilidade, Angela Pinhati. Ela deu detalhes maiores de cinco dos eixos.
Produtos
Devem ser acessíveis financeiramente e entregar performance para os clientes.
Embalagens
- Até 2030, devem ter 50% conteúdo reciclado e serem todas reutilizáveis, recicláveis, compostáveis ou recarregáveis — também há a ideia de garantir a destinação correta de materiais de embalagens onde infraestrutura de reciclagem não existe;
- Para 2050, todas devem ter origem renovável e ser compostáveis;
Matérias-primas
- Até 2030, 30% dos ingredientes-chave fornecidos por comunidades e pequenos agricultores com práticas regenerativas;
- Para 2050, a promessa é ter rastreabilidade total e publicar todos os impactos.
Consultoras
- Para 2030, aumentar em 10% o Índice de Desenvolvimento Humano das consultoras e facilitar a participação em causas como educação, saúde da mulher, enfrentamento à violência contra mulheres e Amazônia;
- Para 2050, garantir 100% das consultoras com renda digna, com níveis de educação, saúde e cidadania acima das médias dos países — a Natura também afirma que tentará influenciar a criação de políticas públicas e legislações para que as todas as consultoras tenham acesso à seguridade social;
Trabalhadores
(as metas são voltadas principalmente para questões de diversidade)
- Até 2030, garantir no mínimo 30% de posições ocupadas por pessoas de grupos sub-representados (negros, indígenas, LGBT+, PcDs) em posições gerenciais;
- Para 2050, garantir a mesma proporção de grupos sub-representados que existe na sociedade de cada país em cargos administrativos;
Fornecedores
- Para 2030 reduzir em 42% as emissões de escopo 3 (de toda a cadeia produtiva), zerar riscos de direitos humanos e de desmatamento nas cadeias de valor até 2027;
- Até 2050, zerar as emissões e fazer todos os fornecedores se comprometerem com práticas regenerativas;
Amazônia
- Até 2030, aumentar em quatro vezes as compras de insumos da sociobioeconomia; alcançar 45 comunidades agroextrativistas para relacionamento de negócios; utilizar 55 bioingredientes — hoje, são 46, e comprar créditos de carbono na região;
- Para 2050, fazer com que 100% das comunidades fornecedoras recebam pagamentos por serviços ambientais e influenciar políticas públicas e regulações para que todas as comunidades agroextrativistas tenham acesso a programas de financiamento e assistência técnica rural.
Nos outros eixos, há compromissos como:
- Criar instrumentos para mensurar que as marcas sejam parte de uma nova cultura de consumo, mais gentil, acessível a todos, cooperativa e ligadas a culturas locais;
- Integrar a rede de negócios para difundir conhecimentos e soluções, além de prestar serviços financeiros com crédito inclusivo;
- Ser referência na mensuração de impactos e criar veículos financeiros baseados nisso, gerando retorno para os investidores e a sociedade.
- Por fim, também há compromissos em ajudar na redução de taxas de pobreza, na melhora da qualidade da educação e no acesso das mulheres à saúde.
A visão da companhia é de que esse compromissos a deixam mais resiliente, mas também mais inovadora, ao criar produtos e serviços completamente novos.
"Devemos ter ambição grande o suficiente para virar compromisso, que se torna ação, que se torna impacto positivo. Não há tempo a perder", disse Ana Costa, vice-presidente de Sustentabilidade, Jurídico e Comunicação Corporativa.