Prejuízo da Raízen vai de R$ 4 bi para R$ 27 bi entre safras, mas geração de caixa começa melhorar
Empresa de combustíveis espera que plano de recuperação extrajudicial seja homologado até setembro; Citi coloca recomendação em revisão
A Raízen registrou prejuízo líquido de R$ 27,1 bilhões no ano-safra 2025/26, ante perda de R$ 4,2 bilhões na safra anterior. A receita líquida caiu 11,5%, para R$ 226 bilhões no período. Já no quarto trimestre do ano-safra 2025/26, que vai de 1.º de janeiro a 31 de março de 2026, o prejuízo líquido ficou em R$ 7,3 bilhões. O resultado é 191,8% maior do que o prejuízo de R$ 2,5 bilhões apurado em igual período da safra anterior. A receita líquida recuou 11,1% na comparação anual, de R$ 57,7 bilhões para R$ 51,3 bilhões.
A geração de caixa medida pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado, por outro lado, somou R$ 2,8 bilhões no trimestre, com alta de 46% ante os R$ 1,9 bilhão registrados um ano antes. Segundo a companhia, a melhora do resultado operacional foi impulsionada pela expansão em todos os segmentos de negócios, com destaque para distribuição de combustíveis no Brasil e na Argentina.
O aumento do prejuízo líquido era esperado: foi causado pelo aumento das despesas financeiras decorrentes do saldo da dívida e da elevação da taxa média do CDI. Também pelo reconhecimento de provisões sem efeito caixa para não realização de determinados ativos e de despesas relacionadas ao início do processo de recuperação extrajudicial, incluindo gastos com assessores financeiros e jurídicos.
Durante a teleconferência para apresentação dos resultados, na manhã desta terça-feira, 30, executivos da Raízen disseram que a empresa espera obter até setembro a homologação judicial de seu plano de recuperação extrajudicial, após alcançar a adesão de mais de 80% dos créditos sujeitos à reestruturação financeira. A empresa renegocia R$ 65 bilhões em dívidas financeiras.
Segundo Nelson Gomes, CEO da Raízen, a companhia tem priorizado a execução de seu plano de transformação operacional e a reestruturação de sua estrutura de capital para superar aquele que pode ter sido "o mais desafiador dos últimos anos". Segundo ele, a combinação dessas duas frentes deve permitir que a empresa atravesse o atual ciclo e volte a gerar valor de forma sustentável.
No âmbito operacional, a estratégia passa por concentrar recursos nos negócios considerados estratégicos. Segundo Gomes, a empresa está construindo "uma companhia mais simples, mais focada no seu core business e muito mais disciplinada na sua alocação de capital".
A companhia anunciou R$ 12 bilhões em desinvestimentos ao longo da última safra. Desse total, cerca de R$ 5 bilhões já ingressaram em caixa, enquanto pouco mais de R$ 7 bilhões, referentes à venda dos ativos na Argentina, devem ser recebidos até o fim do atual ano-safra.
Com isso, a empresa reduziu seu parque industrial para 24 usinas e também vendeu seus ativos de geração de energia, concentrando esforços na distribuição de combustíveis e lubrificantes e na produção de açúcar, etanol e bioenergia.
Gomes também destacou avanços na disciplina operacional e financeira. Segundo ele, as iniciativas de redução de custos e despesas administrativas geraram economia recorrente superior a R$ 1 bilhão por ano. Na frente de investimentos, a companhia reduziu o Capex (investimento em bens de capital) em mais de R$ 3 bilhões em relação à safra anterior, ficando abaixo do planejado. Além disso, prevê cortar mais R$ 1 bilhão no atual ciclo.
Raízen diz que posição de caixa é confortável
Para Lorival Luz, diretor financeiro da Raízen, a posição de caixa da companhia permanece confortável. A empresa encerrou o período com quase R$ 14 bilhões em caixa, cerca de 50% acima do nível mínimo considerado necessário para sustentar as operações. "O caixa hoje não nos preocupa", afirmou. "A companhia está com um caixa bem acima do que seria um caixa mínimo para a gestão do dia a dia e da operação."
De acordo com ele, o plano financeiro da companhia já previa um cenário desafiador para açúcar e etanol e foi estruturado para garantir liquidez suficiente até a conclusão da reestruturação.
Após a divulgação dos resultados, o Citi colocou a recomendação da ação da Raízen em revisão, por conta do desempenho operacional mais fraco e do volume elevado de ajustes contábeis sem efeito caixa. "A performance operacional agora é secundária", escreveram os analistas Gabriel Barra e Pedro Gama, do banco.
Apesar da melhora em distribuição e dos esforços para reduzir capex e despesas, o Citi afirma que a leitura do trimestre segue fraca porque alavancagem e juros continuam consumindo ganhos operacionais. Para o banco, o impairment (perda do valor contábil) reforça a gravidade do estresse no balanço e mantém o foco do mercado na reestruturação extrajudicial.
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