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Preço na Marisa está semelhante ao das plataformas, diz CEO de rede sobre fim da taxa das blusinhas

Edson Garcia afirma que operação de varejista de moda está ajustada e que a prioridade é reorganizar estrutura de capital

22 out 2026 - 16h27
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Resumo
Após anos de prejuízos e fechamento de lojas, a Lojas Marisa descarta fechar o capital e foca na rentabilidade sem prever novas aberturas até 2027. O CEO Edson Garcia afirma que o pior passou, destacando o reposicionamento voltado à classe C e a competitividade com plataformas digitais. A prioridade atual é reorganizar a estrutura de capital e alongar a dívida de cerca de R$ 380 milhões, usando créditos tributários para aliviar as pressões financeiras e reconquistar o mercado de ações.

Foram anos de prejuízos, trocas sucessivas de comando e perda gradativa da confiança do mercado. Ainda assim, Edson Garcia, que assumiu o comando da Lojas Marisa em 2024, é categórico: "Não existe discussão de fechamento de capital". A empresa é listada na Bolsa desde 2007.

Depois de fechar lojas, enxugar a estrutura e rever o posicionamento da marca, Garcia diz que o pior ficou para trás e que, de agora em diante, a palavra de ordem é rentabilidade.

A estratégia é extrair mais produtividade do parque atual, sem planos de expansão no curto prazo, com ajustes de sortimento, mix e layout para elevar as vendas por metro quadrado. "Ainda temos muita oportunidade dentro de casa", afirma Garcia. "Vai ter um momento de expansão, mas não será neste ano e nem em 2027."

Marisa: volta às origens e à classe C
Marisa: volta às origens e à classe C
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

As engrenagens da operação podem estar mais azeitadas, mas a herança financeira ainda pesa. A varejista acumula sete anos consecutivos de prejuízo anual, de 2019 a 2025, e segue trabalhando para reorganizar a estrutura de capital e alongar o perfil da dívida. Para ele, porém, a operação já está mais eficiente e o próximo passo é aliviar a pressão financeira sobre a companhia. "Resolvendo a estrutura de capital, com o operacional caminhando, podemos falar que a Marisa virou", diz.

Em última instância, falta convencer também o mercado dessa virada. As ações valem hoje cerca de R$ 0,80 e acumulam queda de 20% no ano. Desde fevereiro, são negociadas abaixo de R$ 1 - bem distante dos R$ 10 registrados na abertura de capital, em 2007.

Além disso, 92,94% das ações permanecem nas mãos dos controladores, enquanto apenas 7,05% estão em circulação no mercado. Ainda assim, ele diz que a melhora dos resultados e um cenário mais favorável para a renda variável podem permitir, no futuro, ampliar essa fatia.Leia a seguir trechos da entrevista:

Depois de tudo o que a Marisa atravessou nos últimos anos, dá para dizer que a companhia já saiu do modo sobrevivência?

Sim. Quando olhamos o operacional, a empresa mudou muito de 2024 para cá. Fizemos um trabalho de reposicionamento, de ajuste da estrutura e de busca por rentabilização. Fechamos lojas que não eram rentáveis e, hoje, já temos uma empresa mais enxuta. Não vejo mais retrocesso, daqui para frente só vejo avanço. Tem toda uma estrutura de capital ainda pressionada pelos juros altos, mas o operacional está avançando. Resolvendo a estrutura de capital, pode falar que a Marisa virou. Então sim, já deixamos aquele passado para trás.

Como o sr. percebeu o que precisava mudar?

Quando cheguei na Marisa, em 2024, eu já tinha quase 30 anos de varejo, com passagens por Riachuelo e Caedu. Eu conhecia os dois mundos, de um posicionamento mais alto e de outro mais popular. A Marisa está no meio desse caminho. Comecei a olhar muito para a cliente, fazer pesquisa e entender as oportunidades. Ficou claro que a gente precisava mexer em duas coisas: no posicionamento da marca e na estrutura da empresa. A Marisa já chegou a ter 14 diretorias, era um organograma maior, mas que combinava com outro momento da companhia. Fomos ajustando isso porque, se quero rentabilizar, preciso ter uma estrutura menor, custo menor, uma empresa mais enxuta.

Por que a empresa precisou ajustar o posicionamento da marca?

Com o tempo, a empresa acabou precisando ajustar preço e com isso, foi se inclinando um pouco mais para as mulheres das classes A e B. Mas esse tipo de movimento é natural, a Marisa tem 78 anos e viveu vários Brasis. O País e o consumidor foram mudando, enquanto a empresa foi tentando se ajustar para garantir performance. Na minha chegada, percebemos que precisavamos voltar a focar na cliente tradicional da Marisa, que é a mulher da classe C. Seguimos usando o slogan "de mulher para mulher". É uma forma de mostrar que a Marisa pensa de fato na mulher, no acesso à moda com custo-benefício. Hoje, mais de 70% das pessoas na empresa são mulheres, inclusive com maioria feminina nas posições de liderança. De fato, é uma empresa de mulher para mulher.

Na prática, como esse reposicionamento aparece hoje dentro das lojas?

A gente mexeu em preço, estilo e sortimento para voltar a ser mais acessível para essa cliente. Quando se olha o perfil de quem frequenta a Marisa, 84% são mulheres e 70% delas têm, em média, dois filhos. Moda infantil virou uma oportunidade importante de crescimento e o masculino também entrou no radar. Ao mesmo tempo, estamos reformulando as lojas, com ambientes mais iluminados, vitrines reorganizadas e mais espaço para categorias que podem aumentar fluxo e cesta. Já estamos vendo clientes voltando e comprando mais de cinco vezes no ano.

Se o operacional já está mais organizado, o que ainda precisa ser resolvido para a Marisa voltar a apresentar números positivos?

Hoje, o principal ponto é a estrutura de capital. Tomamos dívida para capital de giro, projetos e para financiar todo esse processo de transformação da empresa, e essa dívida hoje ainda é pressionada pelos juros altos. No último balanço, ela estava em torno de R$ 380 milhões. Ao mesmo tempo, temos quase R$ 1 bilhão em créditos tributários de PIS/Cofins e INSS. Usamos esses créditos para compensar impostos que a empresa teria de pagar e, com isso, consegue direcionar recursos para reduzir a dívida. Em algum momento, a ideia é depender cada vez menos desses créditos e fazer a operação andar por si só.

O balanço ainda traz uma nota com comentário dos auditores sobre risco na continuidade da operação. Por que essa sinalização permanece, mesmo com a melhora dos resultados?

Essa nota aparece porque, no curto prazo, ainda temos mais obrigações a pagar do que recursos a receber. Hoje, o passivo circulante ainda é maior que o ativo circulante. Isso vai sendo ajustado com renegociação, alongamento da dívida e melhora do resultado operacional. Estávamos com 60% da dívida no curto prazo e 40% no longo e essa relação foi invertida: no último trimestre, 61% estavam no longo prazo. Não é um problema de continuidade no sentido de a empresa parar. É uma nota técnica do auditor, baseada em uma questão matemática da estrutura de capital, que a gente está trabalhando para ajustar.

Com mais de 90% das ações nas mãos dos controladores, como a Marisa pretende recompor a parcela em circulação? Existe possibilidade de a família voltar a fazer aportes?

Não existe discussão de fechamento de capital. Quando fizemos o aporte na minha chegada, o mercado não acompanhou e a parcela de ações em circulação ficou menor. Agora, para readequar essa fatia, a gente precisa combinar recuperação dos resultados, queda dos juros e um mercado de renda variável mais atrativo. A ideia é voltar a uma parcela de 20% em circulação, e estamos alinhados com a B3 nesse processo. Em relação à família controladora, não existe discussão de novo aporte neste momento. A operação precisa buscar os próprios resultados. A família segue presente como acionista e no conselho, apoiando dentro da governança.

O fim da 'taxa das blusinhas' aumenta a pressão sobre a Marisa?

Concorrência a gente olha o tempo todo, mas nosso posicionamento é bem competitivo. Quando se olha uma blusa nessas plataformas, muitas vezes o primeiro preço está em R$ 29, R$ 39. Na Marisa, o preço está muito parecido. A diferença é que a cliente entra na loja, toca na peça, prova, leva na hora e, se precisar, troca com facilidade. Como ela tem um orçamento mais apertado, tem menos margem para errar. Então, quando compara preços parecidos, tende a migrar menos. Por isso, a gente sente menos esse impacto do que marcas de posicionamento mais alto.

Quais as prioridades para o ano que vem? Vai ter abertura de novas lojas?

Independentemente de como o mercado vai se comportar no ano que vem, vejo muita oportunidade dentro de casa. Claro que um vento a favor ajuda, mas a gente não quer depender disso para avançar. Em 2027, não está nos planos abrir lojas. A prioridade é rentabilizar mais a operação e tirar mais produtividade do parque atual, seja com coleção, posicionamento de preço, infantil ou recorrência. Vai ter um momento de expansão, mas agora queremos aproveitar melhor o que já temos.

Estadão
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