'Precisamos amadurecer propostas sobre endividamento e lidar com anarquia', diz subsecretário
Rodrigo Toneto afirma que Fazenda está atenta ao que chama de 'trinca' nos novos hábitos de consumo: influência das redes sociais, ampliação da oferta de crédito de forma agressiva e papel das bets como venda da ilusão do enriquecimento rápido
BRASÍLIA - O subsecretário de Política Fiscal do Ministério da Fazenda, Rodrigo Toneto, disse defender o amadurecimento de propostas para lidar com o que chamou de "trinca da anarquia" no endividamento brasileiro, em entrevista ao Estadão/Broadcast.
De acordo com o subsecretário, a asta tem observado as mudanças nos padrões de consumo no País e buscado uma agenda de instrumentos alternativos ao aumento dos juros para conter o número de endividados e a inflação.
A Subsecretaria de Política Fiscal está vinculada à Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda, chefiada por Débora Freire. À reportagem, Toneto afirmou que a Fazenda está atenta ao que chama de "trinca" nos novos hábitos de consumo no Brasil: a influência das redes sociais, a ampliação da oferta de crédito de forma agressiva e o papel das bets como venda da ilusão do enriquecimento rápido.
Para Toneto, é preciso regular e disciplinar essa "anarquia", termo utilizado pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, na semana passada, à Rádio Gaúcha. Segundo o subsecretário, a Pasta tem acompanhado com maior preocupação o crescimento da parcela da renda das famílias que é dedicada ao serviço da dívida, questão que se tornou alvo dos programas Desenrola e do crédito consignado para trabalhadores do setor privado.
"O que está mais prejudicando a capacidade de pagamento e o que está mais comprometendo a renda das famílias é o crescimento expressivo da parcela dedicada ao serviço da dívida, e não da dívida em si", disse o subsecretário ao Estadão/Broadcast. "O que o Desenrola e consignado fazem é aliviar essa dimensão. Você pode dizer que está incentivando a oferta de crédito, mas a família vai ter uma parcela menor da renda dela dedicada ao pagamento de juros", continuou.
Toneto acrescenta: "As medidas visam disciplinar as condições de crédito num cenário que tem uma oferta de financiamentos muito ofensiva, muito brutal, de alguma forma. O ministro foi muito feliz em falar que existe uma certa anarquia na nossa arquitetura financeira".
A 'trinca da anarquia'
O subsecretário disse ver uma trinca: "O que eu acho que é a trinca da anarquia? Você liga o celular e está vendo um vídeo de um influencer, de quem você se sente próximo, usando uma roupa específica. O próximo vídeo é outro influencer falando de uma nova tecnologia de cartão de crédito com um limite cinco vezes maior que a sua renda. E o terceiro vídeo é alguém que você acha estar só fazendo um programa de esporte falando que, se você apostar, vai ficar rico".
O subsecretário afirmou também: "No caso das casas de aposta, estamos avançando, mas é um problema muito novo", opina. "A gente precisa estudar melhor esse tema para conseguir amadurecer propostas que lidem com essa trinca."
Na semana passada, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) registrou em sua carta de conjuntura trimestral que os créditos ditos emergenciais (cheque especial e cartão de crédito rotativo e parcelado) cresceram 22% em termos reais entre setembro de 2024 a maio de 2026, mês em que o Serasa Experian apontou 83,3 milhões de brasileiros inadimplentes, com valores devidos de R$ 6,8 mil em média.
Também houve elevação do comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida para máximos históricos acima de 28% desde 2024. E, segundo a carta, a tendência de alta do endividamento permanece, apesar de esforços voltados para a contenção do problema.
Segundo o Ipea, as pessoas continuam pegando dinheiro emprestado, mesmo que o Banco Central mantenha a taxa Selic em patamares altíssimos. Ao mesmo tempo, o estudo diz que, apesar de meritórias, iniciativas como os empréstimos consignados a trabalhadores do setor privado e a renegociação de dívidas do programa Desenrola contribuem para a expansão da oferta de crédito e a redução do seu custo.
Sobre o atual padrão de consumo da população, o Ipea menciona a hipótese do "efeito demonstração", ou seja, a comparação que cada indivíduo faz do seu consumo com o do grupo social com o qual se identifica.
"O efeito demonstração pode ter sido potencializado pela transmissão de informações sobre padrões de consumo de distintos grupos sociais, veiculadas pela internet e pelas redes sociais", diz a carta. "As alternativas para conter o avanço do endividamento serão amplamente discutidas nos debates eleitorais", pontua.
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