Por que o governo Trump voltou a mirar o Pix e quais medidas os EUA podem adotar contra o Brasil?
Segundo a BBC, pressão comercial ocorre em meio a investigação aberta pelo USTR e reacende debate sobre soberania e concorrência no sistema de pagamentos brasileiro
Os Estados Unidos voltaram a alfinetar o Pix, sistema de pagamento eletrônico brasileiro, ao citá-lo em um relatório de 31 de março em que os americanos listam o que consideram barreiras comerciais de outros 60 países contra empresas norte-americanas, informou a BBC.
O documento foi formalizado pela agência Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (Office of the United States Trade Representative, USTR), a mesma que abriu um inquérito contra o pix para verificar se o sistema é uma "prática desleal" em julho de 2025.
Nas 500 páginas do National Trade Estimate Report de 2026, o Pix é citado três vezes.
"O Banco Central do Brasil criou, detém, opera e regula o Pix, uma plataforma de pagamentos instantâneos. Partes interessadas dos EUA expressaram preocupação com o fato de o Banco Central do Brasil conceder tratamento preferencial ao pix, o que prejudica os fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA. O Banco Central exige o uso do pix por instituições financeiras com mais de 500.000 contas", diz o trecho.
O documento do USTR aponta que o Banco Central concede tratamento preferencial ao Pix em relação a serviços estrangeiros de pagamento eletrônico, como o PayPal e bandeiras de cartões de crédito. De qualquer forma, as investigações da USTR seguem em andamento sem data para a sua conclusão.
Após a divulgação do relatório, o presidente Lula (PT) disse que o Brasil não alterará o Pix por pressão do governo dos Estados Unidos. "O Pix é do Brasil e ninguém, ninguém vai fazer a gente mudar o Pix pelo serviço que ele está prestando à sociedade brasileira", afirmou Lula. Segundo ele, o que o governo pretende é aprimorar a ferramenta para ampliar o atendimento à população.
Que medidas os EUA podem tomar contra o Brasil?
Os EUA não têm jurisdição para agir diretamente contra o pix, conforme especialistas em comércio exterior e regulação econômica ouvidos pela BBC.
As ferramentas norte-americanas se limitam ao meio comercial, ou seja, vão desde a suspensão de benefícios e acordos comerciais à restrição de importações de produtos e serviços ou importação de tarifas sobre esses bens e serviços.
Por exemplo, um novo tarifaço sobre exportações brasileiras que estão destinadas aos postos norte-americanos ou a retirada do Brasil do Sistema Geral de Preferências (SGP), programa de beneficiários tarifários de 1970 para países em desenvolvimento.
O escopo de temas analisados pelo USTR é amplo e vai muito além do Pix. Entre os pontos citados estão as tarifas aplicadas ao etanol dos Estados Unidos para acesso ao mercado brasileiro e questões ambientais, como o desmatamento ilegal, que poderia ser apontado como fator de vantagem competitiva para as exportações agrícolas do País.
Segundo a BBC, desde que os dois presidentes se encontraram nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, em setembro do ano passado, o diálogo bilateral entre Brasil e Estados Unidos se intensificou. Também passou a existir a expectativa de que os dois realizem um encontro presencial formal.
O que está em jogo?
Uma das hipóteses para o tom mais duro agora estaria no desfecho de uma recente reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), apontou uma fonte próxima das negociações ouvida pela BBC News Brasil. Na ocasião, o Brasil bloqueou uma proposta apresentada pelos EUA e outros países para prorrogar a moratória de tarifas aduaneiras sobre transmissões eletrônicas, que abrange serviços digitais como streamings, softwares e jogos.
Além disso, Donal Trump sofreu uma derrota significativa no Judiciário dos Estados Unidos em fevereiro deste ano. Na ocasião, a Suprema Corte decidiu que o instrumento usado para justificar as medidas, a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês), não autorizava o governo americano a impor as tarifas.
Soberania
Segundo a BBC, desde o início dos ataques do governo Trump ao sistema de pagamentos, o governo Lula tem buscado explorar os episódios para reforçar sua imagem, apostando em um discurso centrado justamente na defesa da soberania nacional.
Integrantes da gestão também têm recorrido à controvérsia para criticar adversários políticos, sobretudo nomes ligados ao bolsonarismo, que mantiveram proximidade com o governo Trump.
Após a divulgação do relatório mais recente do USTR, o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) criticou o "silêncio" de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Segundo o parlamentar, o senador "prefere bater palma para americano do que defender o que facilita a vida de milhões de brasileiros" e que acabaria com o Pix.