Petrobras vive impasse após pressão de Lula para cancelar leilão de GLP; governo fala em 'traição'
Entregas do gás de cozinha com os novos preços já começaram a ser feitas e devem terminar até segunda-feira, 6; procurada, Petrobras não respondeu
RIO - Pressionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para cancelar o leilão de gás de cozinha (GLP), realizado no último dia 31, a Petrobras está numa "sinuca de bico" para resolver o impasse, já que o certame foi concluído e as entregas começaram a ser feitas à zero hora do dia 1º, já com os novos preços. O leilão teve ágio de mais de 100%, e até antes da próxima segunda-feira, 6, segundo pessoas do setor, as 70 mil toneladas vendidas já terão sido entregues.
Nesta quinta-feira, 2, Lula afirmou em entrevista à TV Record da Bahia que vai anular o leilão, que classificou como "cretinice" e "bandidagem". Segundo ele, o certame foi feito sem a orientação do governo.
"Foi feito um leilão, com cretinice e bandidagem que fizeram com o óleo diesel. As pessoas sabiam da orientação do governo e da Petrobras: 'Não vamos aumentar o GLP'. Pois fizeram um leilão contra a vontade da direção da Petrobras. Vamos rever esse leilão, vamos anular esse leilão. O povo pobre não pagará, em hipótese alguma, o preço dessa guerra", disse.
O leilão durou mais de seis horas, segundo apurou o Estadão/Broadcast. O aumento de preço mais significativo foi registrado no polo Duque de Caxias, no Rio, com o gás de cozinha saindo de um preço mínimo de R$ 33,37 para R$ 72,77, ágio de 117% em relação ao preço de referência do polo.
Assim como o óleo diesel, o GLP sofre os efeitos da guerra no Oriente Médio, já que parte do produto que chega ao Brasil é importada. O preço do gás de cozinha estava congelado desde novembro de 2024 e a alta vai afetar o programa governamental Gás do Povo, que, na avaliação de agentes do setor, terá de ter o seu preço de referência ajustado.
O leilão já havia sido adiado do dia 27 para o dia 31, às 9h, depois prorrogado para as 15h do mesmo dia e realizado. Segundo o Estadão/Broadcast apurou, a Casa Civil não sabia desse adiamento e queria o cancelamento. A ideia inicial era que a subvenção do GLP saísse antes do leilão, mas a alta de 54% do querosene de aviação (QAV), anunciada pela estatal na quarta-feira, furou a fila das subvenções e não houve tempo de ser preparada.
Segundo uma pessoa próxima ao assunto, quando a Casa Civil foi avisada de que estava sendo realizado o leilão, houve uma reação imediata contra a Petrobras. Palavras como desobediência, traição e "cabeças vão rolar" foram usadas dentro do governo. Procurada, a Petrobras não retornou até a publicação desta nota.
O volume de GLP vendido pela Petrobras no leilão corresponde a cerca de 12% do total vendido pela estatal mensalmente e se concentrou em sete polos de entrega. A empresa já está vendendo a preços maiores, e uma subvenção retroativa parece ser a única solução, apesar da oposição das distribuidoras. Até porque, observam pessoas a par da discussão, a decisão ainda terá que passar pela regulamentação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Segundo essas pessoas, as revendedoras ainda não receberam a carta que determina os novos preços do GLP.
Procurado, o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás) informou que não se manifesta sobre preços, projeções de preços ou qualquer tipo de estimativa relacionada ao mercado.
"A entidade ressalta que é de conhecimento público que os preços do petróleo e de seus derivados vêm sofrendo forte pressão, em grande parte decorrente de conflitos com impacto relevante sobre a cadeia global do petróleo, o que pode influenciar os custos do GLP e promover eventuais mudanças nas condições econômicas e de mercado na cadeia do produto", afirmou a entidade em nota.