Petrobras limita cotas extras de diesel, enquanto não reajusta preço e trava mercado, dizem fontes
A Petrobras está recusando pedidos de distribuidoras por volumes adicionais de venda de diesel, enquanto mantém os preços do produto em suas refinarias com defasagem recorde ante o mercado externo e trava negociações no setor brasileiro, disseram quatro fontes com conhecimento do assunto.
Os valores do diesel da Petrobras vendido a distribuidoras estavam R$2,74 por litro abaixo da paridade de importação na abertura do mercado nesta segunda-feira, segundo cálculo da associação de importadores Abicom, depois que uma escalada dos conflitos no Oriente Médio fez o petróleo disparar. O petróleo Brent, referência internacional, fechou com alta de 6,76%, a US$98,96 o barril.
"Todas as distribuidoras estão pedindo cota adicional de combustíveis para fazer estoque a preços baixos. A Petrobras só está dando a cota prevista (em contrato) e não está dando nesse momento cota adicional", disse uma fonte da companhia, na condição de anonimato.
"Agora (com preços altos) não dá para dar cota adicional para o distribuidor comprar nosso diesel barato, se encher de volume, para depois vender... vão fazer estoque e ganhar dinheiro em cima da Petrobras."
A ausência de um reajuste da petroleira até o momento tem travado negócios internos e também gerado incertezas no mercado sobre o abastecimento futuro, uma vez que cerca de 25% do consumo de diesel brasileiro é importado, segundo disseram três das fontes consultadas e o presidente da Associação dos Importadores de Combustíveis, Sérgio Araujo.
Uma fonte de uma distribuidora afirmou que a petroleira vive hoje um dilema: "ou a Petrobras ajusta preço ou abastece todo o mercado e paga a conta de comprar produto lá fora mais caro e revender com prejuízo".
Elevar o preço do diesel, contudo, pode trazer um ônus para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um ano de eleição.
Na semana passada, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, reiterou que a empresa não passa volatilidades externas ao mercado interno e que estava avaliando o cenário para identificar qual seria o novo patamar de preço do petróleo antes de avaliar eventuais reajustes.
"Essa semana que passou não teve negócio (de importações) em função dessa incerteza", afirmou Araujo, ponderando que tem muitos navios com produto importado chegando, mas que daqui a 20 ou 30 dias poderá faltar volumes importados.
O presidente da Abicom disse ainda que a defasagem de preços amplia a preferência pelo produto da estatal e desloca demanda de alternativas importadas e de refinarias privadas, trazendo alterações em fluxos de combustíveis e impactos logísticos, que podem trazer ainda descompassos para o abastecimento.
Procurada, a Petrobras não comentou o assunto imediatamente.
RESTRIÇÃO DE OFERTA E IMPACTOS NA LOGÍSTICA
As incertezas também podem gerar outros tipos de problema, como o relatado no Rio Grande do Sul, um Estado com duas refinarias e ampla oferta de diesel, onde foi observada uma restrição na oferta do produto para o agronegócio.
A reguladora ANP afirmou no domingo que vai investigar denúncias sobre dificuldades na aquisição de diesel por produtores rurais no Rio Grande do Sul, além de denúncias de altas "injustificadas" de preços do combustível no momento em que o setor está em colheita de suas principais safras.
Segundo Araujo, consumidores da região estão tentando comprar diesel com base no preço vigente da Petrobras, enquanto vendedores chamados Transportadores Revendedores Retalhistas (TRRs) pedem um valor mais alto para se proteger de um possível aumento no custo de reposição.
Os TRRs levam esse combustível a pequenos consumidores no interior, como agricultores.
"Não é que falte produto. A dificuldade é o seguinte: o comprador quer comprar olhando o preço da Petrobras. O vendedor quer vender pensando que amanhã ele vai precisar comprar por um preço maior", afirmou Araujo.
Araujo ponderou que poderia até haver agentes retendo produto de forma especulativa à espera de aumento de preços. "Mas o maior problema é esse, de que é difícil chegar a um acordo de preço", disse.
Em uma carta às associadas obtida pela Reuters, o Sindicato Nacional do Comércio Transportador-Revendedor-Retalista (SindTRR) afirmou que "tão logo começamos a receber reclamações vindas de associadas de todas as regiões do país relatando restrições no fornecimento de diesel aos TRR pelas distribuidoras, mantivemos contato com as superintendências da ANP, informando sobre as restrições existentes".
A fonte de distribuidora pontuou que o TRR opera em grande parte no mercado spot, sem contrato, e que há atualmente uma forte demanda de diesel pela supersafra.
"Nesse momento, com demanda elevada, o mercado tenta atender o máximo, mas a prioridade é quem tem contrato, seja posto, seja TRR, sejam consumidores finais (indústria)", afirmou.
"O TRR ao invés de entender a situação e buscar sua solução (com base no risco que optou por tomar ao não ter um contrato), começa a especular pedindo mais e mais a várias empresas, distorcendo o mercado com pedidos nas distribuidoras muito acima da realidade."
A fonte destacou que "o mercado está demandado, mas não está desatendido". "Não existe distribuidora especulando e segurando estoque. Isso ouvimos muito e não faz nem sentido econômico".
Procurado, o IBP, que reúne as maiores distribuidoras, afirmou que não comentaria o assunto. A Brasilcom, que reúne as distribuidoras regionais, não comentou o tema imediatamente.
A ANP afirmou que ao longo do final de semana entrou em contato com os principais fornecedores da região, e apurou que o Estado do Rio Grande do Sul "conta com estoques suficientes para assegurar o abastecimento regular de diesel".