Pedro de Camargo Neto: 'A Embrapa não pode viver apenas do passado'
Para o ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira e ex-integrante do conselho da Embrapa, empresa precisa passar urgentemente por uma agenda de modernização, sob o risco de perder relevância estratégica
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) é reconhecidamente uma das instituições mais emblemáticas da história agrícola nacional, com contribuições decisivas para a consolidação da agricultura tropical e para a transformação do Brasil em uma potência do setor. Para Pedro de Camargo Neto, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira, ex-secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura e também ex-integrante do conselho da própria Embrapa, porém, isso não pode mascarar o fato de que a empresa precisa passar por um processo de reformulação, sob o risco de acabar perdendo sua importância estratégica.
Ele lembra que a empresa reclama, com razão, da falta de recursos para pesquisa. "O problema é que boa parte do orçamento, que gira em torno de R$ 5 bilhões por ano, está comprometida com folha de pagamento e despesas obrigatórias", diz. "Mas há também problemas de burocracia, centralização e gestão."
Em 2023, Pedro, que é produtor rural e doutor em Engenharia de Produção, compôs, ao lado do ex-presidente da Embrapa Silvio Crestana, dos ex-ministros Roberto Rodrigues e Luiz Carlos Guedes Pinto e da professora Ana Célia Castro, o Grupo de Estudos Avançados de Aprimoramento do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA). O relatório produzido por eles apontou problemas relacionados à centralização administrativa, excesso de burocracia, fragilidades nos mecanismos de avaliação de desempenho e necessidade de maior autonomia para as unidades descentralizadas da Embrapa. O documento também defendeu reformas na governança, nos processos decisórios e na política de recursos humanos da instituição.
Agora em 2026, um novo estudo, elaborado pela Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest), vinculada ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), chegou a conclusões semelhantes: sustenta que a Embrapa vive um momento de inflexão institucional e recomenda fortalecer a coordenação estratégica, modernizar a governança, revisar mecanismos de avaliação e incentivos, racionalizar a rede de unidades descentralizadas e preparar a empresa para liderar temas como agricultura sustentável, bioeconomia, digitalização e adaptação às mudanças climáticas.
Com base nesses diagnósticos, Pedro defende uma agenda de modernização capaz de preservar o legado da instituição sem comprometer sua capacidade de responder aos desafios das próximas décadas. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
Uma das conclusões do estudo sobre a Embrapa feito em 2023, do qual o sr. participou, é que a empresa não pode viver apenas do passado. Por quê?
Começo valorizando a Embrapa. Ela ocupa um lugar na história. Sua contribuição para a construção de uma agricultura tropical competitiva e sustentável é amplamente reconhecida. Destaco, porém, que instituições não são avaliadas apenas pelo passado, mas pela sua capacidade de continuar entregando relevância para o futuro. Grande parte do prestígio da instituição vem das contribuições que ela deu à agricultura brasileira. Mas estamos diante de um futuro muito mais complexo, marcado pelas mudanças climáticas e por tecnologias que avançam rapidamente, como inteligência artificial, genética e nanotecnologia. A pesquisa pública é fundamental nesse cenário porque muitas dessas áreas envolvem interesses nacionais e não necessariamente oferecem retorno imediato para empresas privadas. O problema é que, quando se fala da Embrapa, quase sempre se fala do passado. Precisamos discutir a Embrapa do futuro. Além disso, houve avanços importantes na agropecuária brasileira que vieram da iniciativa privada. O plantio direto, por exemplo, hoje considerado uma prática de agricultura regenerativa, não foi desenvolvido pela Embrapa. O mesmo ocorre com o milho safrinha. São exemplos de inovações que transformaram a produção agrícola brasileira.
O sr. acredita, então, que a Embrapa deixou de acompanhar os movimentos mais avançados da pesquisa agropecuária?
A Embrapa reclama, com razão, da falta de recursos para pesquisa. O problema é que boa parte do orçamento, que gira em torno de R$ 5 bilhões por ano, está comprometida com folha de pagamento e despesas obrigatórias. Falta dinheiro para investir. Mas há também problemas de burocracia, centralização e gestão. A Embrapa precisa ser avaliada unidade por unidade. Não basta avaliar a instituição como um todo. É preciso analisar o desempenho de cada centro de pesquisa e, posteriormente, dos próprios pesquisadores. Tenho a impressão de que existem unidades que produzem muito pouco e pesquisadores que poderiam produzir mais. Sem avaliações transparentes e independentes, fica difícil identificar onde estão os gargalos. Outro ponto é garantir que o conhecimento chegue ao campo. Mas, para transferir tecnologia, primeiro é preciso produzi-la. Não digo que a Embrapa não produza, mas ela não apresenta a eficiência compatível com o volume de recursos públicos e com a qualidade dos pesquisadores que possui. O Brasil investe muito dinheiro na Embrapa e conta com profissionais altamente qualificados. A questão é saber se esse investimento está gerando os resultados necessários para enfrentar os desafios futuros da agropecuária.
O problema, então, é de gestão?
Exatamente. O dinheiro existe, mas está comprometido com despesas fixas. O que falta é eficiência. A Embrapa tem excelentes exemplos de pesquisadores e projetos bem-sucedidos, mas esses resultados não são medidos de forma adequada. O ideal seria avaliar quantas tecnologias desenvolvidas estão efetivamente sendo utilizadas pelos produtores, em quantos hectares e quais benefícios econômicos e sociais geraram. Hoje, a instituição divulga relatórios agregados, mas não apresenta com transparência o desempenho individual de suas unidades.
Outro relatório, da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest), divulgado agora em 2026, reitera problemas apontados em 2023. Quais o sr. destaca?
Li com atenção o extenso relatório da Sest. Ele basicamente coincide com o diagnóstico de 2023. Concluo que não sou apenas eu, ou mesmo os cinco relatores de 2023, que entendem que a Embrapa enfrenta não uma crise pontual, mas um desafio estrutural de renovação institucional. O estudo da Sest defende fortalecer coordenação estratégica, liderança e gestão de pessoas, modernizar a governança e racionalizar a rede descentralizada sem perder sua capilaridade. Sustenta que o financiamento público deve continuar sendo a âncora central da empresa, com recursos privados apenas complementares, e alerta que, sem reformas simultâneas em gestão, estrutura, incentivos e despesas, soluções isoladas serão insuficientes. O documento reafirma ainda que o futuro da Embrapa depende de sua capacidade de se reposicionar como instituição de Estado voltada à agricultura sustentável, bioeconomia, digitalização e adaptação climática, transformando propósito estratégico em ação efetiva. O ponto central, portanto, continua sendo a gestão. A Embrapa tornou-se muito centralizada e burocrática. Ela funciona bem do ponto de vista formal e administrativo, mas não possui mecanismos eficientes para avaliar resultados. Existem pesquisadores brilhantes e projetos premiados internacionalmente. Isso é inegável. Mas os casos de sucesso não podem esconder o fato de que há unidades produzindo muito pouco. O desafio é utilizar melhor o orçamento e o capital humano da instituição.
Quais seriam os principais caminhos para melhorar a eficiência da Embrapa?
A principal palavra é descentralização. Minha visão é até mais favorável à descentralização do que a apresentada no relatório da Sest. É preciso dar mais autonomia às unidades de pesquisa, mantendo uma orientação estratégica nacional, mas permitindo que as decisões sejam tomadas mais perto dos pesquisadores. Depois disso, é necessário criar sistemas de avaliação consistentes. A pesquisa pública precisa chegar ao produtor rural. Quem recebe recursos públicos para fazer pesquisa deve demonstrar resultados concretos. Pesquisa exige criatividade, rapidez e liberdade para errar. Isso não pode ser administrado exclusivamente de Brasília.
Além de avaliar a Embrapa, o estudo de 2023 propôs uma lei de incentivo à pesquisa. Como funcionaria?
A proposta não representava mais recursos para a pesquisa, mas uma forma diferente de gestão do dinheiro público. A ideia era permitir que parte dos recursos que hoje seguem para o orçamento geral pudesse ser direcionada diretamente para projetos específicos de pesquisa. O dinheiro continuaria sendo público e a pesquisa continuaria sendo pública. No entanto, a proposta não avançou politicamente.
A imagem positiva que a Embrapa mantém com a sociedade brasileira dificulta mudanças?
Sem dúvida. Por que um político assumiria o risco de mexer em uma instituição vista como um sucesso absoluto pela sociedade? O problema é que essa percepção não corresponde às conclusões dos estudos de 2023 e da Sest. Enquanto não houver compreensão pública sobre a necessidade de mudanças, dificilmente haverá mobilização política para promovê-las.
As mudanças poderiam partir de dentro da própria Embrapa?
Acho difícil. Primeiro porque existe receio. Houve casos de pesquisadores que fizeram críticas públicas e enfrentaram consequências internas. Segundo porque há acomodação. Muitos profissionais entendem que trabalham em uma instituição reconhecida e não veem motivos para provocar mudanças. Além disso, a própria agricultura brasileira foi tão bem-sucedida que parte desse sucesso acabou sendo automaticamente atribuída à Embrapa. Isso fortaleceu um mito institucional e reduziu o senso de urgência para reformas.
Com isso, existe risco de a Embrapa perder relevância?
Sim. Já vimos algo semelhante acontecer com outras instituições de pesquisa no Brasil. O Instituto Agronômico de Campinas, por exemplo, teve enorme importância histórica e perdeu protagonismo ao longo do tempo. Se as mudanças não forem feitas agora, em um momento em que a agricultura enfrenta desafios climáticos e tecnológicos sem precedentes, a Embrapa pode entrar em um processo gradual de perda de relevância. Enquanto isso, países como a China ampliam fortemente seus investimentos em pesquisa agropecuária. Já investem mais do que o Brasil.
Como as mudanças climáticas tornam essa discussão ainda mais urgente?
As mudanças climáticas exigem novas variedades adaptadas à seca, novas tecnologias genéticas, uso intensivo de ciência de dados e inteligência artificial. Parte dessas inovações está vindo do setor privado, especialmente de startups e fabricantes de máquinas. Mas existem áreas em que a pesquisa pública é indispensável, porque envolvem investimentos de longo prazo e interesses nacionais.
Já houve especulações sobre privatizar a Embrapa. O que o sr. pensa sobre isso?
Considero essa ideia um equívoco. Estamos falando de pesquisa pública, algo essencial para o desenvolvimento do País. O debate não deve ser sobre privatizar a Embrapa, mas sobre aumentar a eficiência do uso dos recursos públicos destinados à instituição. O Brasil precisa continuar investindo em pesquisa pública. O desafio é fazer com que esse investimento produza mais resultados para a agricultura, para a economia e para a sociedade. A Embrapa precisa continuar sendo uma empresa pública forte. O objetivo não é enfraquecê-la, mas fortalecê-la. Daqui a 30 anos, precisamos ser capazes de apontar novos exemplos de sucesso, e não continuar falando apenas das conquistas de décadas atrás. Para isso, é necessário modernizar a gestão, reduzir a burocracia, descentralizar decisões e dar mais autonomia aos pesquisadores.
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