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Passageiros da Avianca têm problemas com voos cancelados

Nesta segunda-feira, a companhia aérea começou a entregar 18 de seus 25 aviões, por falta de pagamento do aluguel das aeronaves

22 abr 2019
16h56
atualizado às 17h47
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"Você sabe como está a manutenção destes aviões?", pergunta o empresário João Brito Junior ao Estado, assim que o voo 66294 da Avianca decolou do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, com destino a Goiânia. Brito retornava de Salvador, onde esteve de férias com a esposa e os dois filhos desde o dia 13 de abril.

Ele foi e voltou pela Avianca, mas disse que quando comprou as passagens, em janeiro, não suspeitava dos problemas financeiros da companhia. "A filha da minha cunhada estuda Medicina em Guarulhos e estava com a passagem comprada para vir a Goiânia neste final de semana. Minha cunhada ficou com medo e ela, agora, está voltando por outra empresa", ele diz, preocupado.

Avião da Avianca é rebocado em pátio do Aeroporto Internacional de Guarulhos em São Paulo
Avião da Avianca é rebocado em pátio do Aeroporto Internacional de Guarulhos em São Paulo
Foto: Bruno Rocha / Fotoarena / Estadão

Nesta segunda-feira, 22, dia em que a Avianca iniciou a devolução de 18 de suas 25 aeronaves paras as credoras, em virtude do não pagamento do aluguel dos aviões, a reportagem embarcou em um voo da empresa com destino à capital de Goiás. O avião, um Airbus 320 com capacidade para 162 pessoas, além da tripulação, levou 130 passageiros, boa parte deles com alguma história de atraso ou cancelamento de voo para contar.

A Avianca cancelou 46 voos que partiriam ou chegariam de São Paulo nos aeroportos de Cumbica e Congonhas, na zona sul da capital paulista. No total, são 1.045 voos cancelados em todo o País até o próximo domingo, 28. O aeroporto mais afetado até agora é justamente o de Cumbica, junto com os do Galeão, no Rio, e o de Brasília.

Congonhas e Santos Dumont, no Rio, recebem tratamento especial pela empresa, já que são as joias da coroa, alvos do interesse das concorrentes Gol e Latam. E a Avianca pretende comercializar os slots que possui nesses aeroportos no leilão previsto para o dia 7 de maio.

Voo com atraso

O avião que carregava a reportagem saiu do chão com atraso de 30 minutos - e chegou ao destino com atraso de 40 minutos. Na comunicação aos passageiros já dentro da aeronave, a empresa pediu desculpas pela demora e alegou "problemas operacionais".

Na boca pequena, o motivo foi o atraso dos voos de conexão que chegavam a São Paulo. Como, por exemplo, o de Salvador, que deveria sair às 8h50, mas ficou parado à espera de parte da tripulação. "Ficamos 40 minutos dentro do avião, até que entraram pilotos e o restante dos comissários", diz a passageira Vanice Arantes.

O diretor operacional do Procon-SP, Rodrigo Tritapepe, confirma que, nesta segunda, o principal motivo de queixa entre passageiros que procuram o órgão é justamente o atraso de voos. "Temos visto esse problema em boa parte dos aeroportos", conta.

Já no ar, o voo foi tranquilo, sem nem mesmo sacolejos em virtude de instabilidades atmosféricas. Os comissários iniciaram o serviço de bordo 15 minutos após a decolagem, e as opções eram bolo de laranja, água mineral, suco de laranja e de uva - o mesmo servido aos passageiros há duas semanas, contou a médica Vitoria Maria, de Anápolis (GO), que há voltava de Foz do Iguaçu (PR).

Sobre as condições do avião, é hora de retornar à pergunta inicial do empresário João Brito Junior. Segunda a Agência Nacional de Aviação (Anac), além do monitoramento a que todas as empresas de aviação comercial são submetidas, a Avinca passou por uma avaliação especial recentemente. "Todas as aeronaves foram atestadas como aptas para operar", disse a assessoria de imprensa da agência.

Visualmente, o Airbus 320 que fez o voo para Goiânia não apresentou nenhuma distorção para a reportagem. Nem para os passageiros consultados. "Tá tudo normal, ainda bem, né", atestou Tiago Ferrari, que saiu no domingo da cidade de Araranguá (SC), passou a noite em Florianópolis com a família após cancelamento do voo e, agora, estava no trecho final da viagem. "Eles pagaram minha estadia. Fiquei num hotel na beira-mar", contou.

Falta de assistência

Desde a área de check in em Cumbica até o desembarque no Aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia, foi relativamente fácil identificar passageiros com problemas com atrasos e cancelamentos de voos da Avianca. Muitos reclamavam da falta de assistência da companhia áerea.

De acordo com o Procon-SP, em caso de cancelamento, o passageiro tem direito a ser acomodado em outro voo, sem qualquer despesa adicional, ou a ser reembolsado integralmente. A empresa que cancelou o voo é responsável por reacomodar o passageiro.

No entanto, não foi o que aconteceu com Rafael Riedel e Renata Melo. Eles saíram de Israel no sábado, 20, e chegaram no domingo a São Paulo para uma conexão em um voo da Avianca com destino a Belo Horizonte. O voo foi cancelado e eles precisaram arcar com os custos da acomodação.

"A gente está até agora tentando encontrar um voo para chegar em casa", diz Riedel. "Fomos super maltratados por um funcionário. Até que um outro nos ajudou. Ele conseguiu que a empresa pagasse um Uber até o hotel em que dormimos, na (região da Avenida Brigadeiro) Faria Lima. Mas disse que a empresa não teria dinheiro para pagar a diária", conta Renata.

O analista de sistemas David Lima tentou no domingo embarcar de Vitória (ES) para São Paulo, para uma conexão rumo a Goiânia. Quando chegou ao aeroporto, os voos da empresa estavam atrasados e não conseguiu chegar em São Paulo por overbooking. "O pessoal do voo anterior, que tinha sido cancelado, foi acomdado em nosso avião e não tinha mais espaço em nosso avião. Até dava para vir para São Paulo, mas depois a gente não conseguiria voo para Goiânia", diz ele, que viaja a trabalho e agora está preocupado com a volta. "Meu voo do próximo domingo, dia 28, foi cancelado. Eu tentei ligar, mas eles disseram que esses problemas só serão resolvidos nos aeroportos onde os voos estão marcados", diz.

Tripulação preocupada

Entre os funcionários, a principal queixa é com relação à falta de comunicação da empresa. Eles dizem não conhecer os rumos do negócio, nem sobre o futuro dos empregos. "Eu já entreguei para Deus. Estou há dez anos na empresa e não sei se terei emprego até o final do mês", diz uma funcionária da área de check in da Avianca em São Paulo.

"Hoje é segunda-feira e o que sei da empresa só sei pela imprensa", diz um comandante em trânsito. "Até agora, só recebi um e-mail falando da mudança na polítia de malas no interior das aeronaves. Sobre as entregas dos aviões, só sei que esse daí (apontando para a aeronave do voo 66294) existe", disse um co-piloto.

No ar, a tripulação evitou gravar entrevistas. No solo, tanto em São Paulo quanto em Goiânia, os funcionários conversaram com a reportagem, desde que sob sigilo. Em geral, todos estão atentos aos processos seletivos no setor - dentro e fora do Brasil. "Tem processo seletivo na Latam. Está todo mundo tentando", diz um commandante. "Confesso que só penso em meu emprego. O corpo está aqui, mas a cabeça está no Linkedin", disse um comissário.

A reportagem procurou a Avianca, que não quis se manifestar.

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Estadão

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