Filmes explicam como a crise financeira reflete na vida real
Não só os economistas e quem trabalha com o mercado financeiro buscaram entender e explicar a crise econômica mundial, que começou em 2008 nos Estados Unidos. A indústria cinematográfica também se propôs a analisar não apenas as consequências, mas as possíveis causas do estouro da bolha imobiliária, que reflete no mundo inteiro até hoje.
De acordo com o professor e coordenador de Economia do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) de Minas Gerais, Marcio Salvato, os melhores filmes para entender toda esta questão são "Inside Job" (Trabalho Interno), "Margin Call" (Margin Call: O Dia Antes do Fim) e "Too Big to Fail" (Grande Demais para Quebrar). Ele também destaca "Wall Street: Money Never Sleeps" (Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme) e "The Company Men" (A Grande Virada).
“Eles explicam com linguagem simples como a crise passou para o lado real. Foi um momento de crise mundial, no qual a indústria cinematográfica teve uma grande oportunidade e conseguiu reproduzir isso com bons filmes”, assegura. Para quem tem interesse no assunto ou quer entender um pouco mais sobre o que aconteceu, um DVD pode ser uma boa escolha. “Isso é a realidade do sistema. Não é a primeira crise e não será a última. O que gira o mundo são grandes fluxos financeiros. Necessariamente isso vai ter impacto sobre as nossas vidas. Temos que entender que a saúde das instituições financeiras é muito importante. Somos dependentes disso. E precisamos discutir muito o tema”, argumenta.
Inside Job (Trabalho Interno)
O documentário americano dirigido por Charles Ferguson, vencedor do Oscar de Melhor Documentário de 2011, está no topo da lista dos melhores filmes para entender a crise econômica de proporções globais que, em 2008, fez com que milhões de pessoas perdessem casas e empregos. Através de uma extensa pesquisa e entrevistas com pessoas ligadas ao mundo financeiro, políticos e jornalistas, é desvendado o relacionamento corrosivo que envolveu representantes da política, da justiça e do mundo acadêmico. Segundo o coordenador de Economia do Ibmec-MG, o objetivo é exatamente explicar a crise financeira de 2007 a 2012. “O Inside Job faz isso de uma maneira bem didática, separa por etapas, explica por que estavámos nessa situação, mostra o que levou a chegar neste ponto, as consequências, como as perdas dos investidores, dos grandes conglomerados financeiros, a questão das hipotecas e os empréstimos que as pessoas não tinham como pagar”, comenta.
Ele ressalta que o filme é didático, mas técnico. Alguém sem conhecimento algum na área financeira pode se perder algumas vezes. “Mas para quem tem um certo conhecimento em finanças, é um filme muito bom para se aprofundar no tema, entender como foi a crise e como os bancos começaram a passar por este problema. A história está muito fidedigna”, afirma Salvato. O professor diz que filmes como este mostram como os problemas no mercado financeiro refletiram no lado real da economia. “As demissões nos Estados Unidos, o número de desemprego, é uma boa aula de como problemas no mundo financeiro afetam o mundo real. O filme relaciona isso muito bem e deixa alguns questionamentos interessantes, embora bem posicionados, tem que tomar um certo cuidado”, finaliza.
Margin Call (Margin Call: O Dia Antes do Fim)
Para Marcio Salvato, o suspense dirigido por J.C. Chandor, que traz Kevin Spacey no elenco, é outro filme muito interessante para entender o contexto da crise. "Margin Call: O Dia Antes do Fim" conta a história de Peter Sullivan (Zachary Quinto), Seth Bregman (Penn Badgley) e Will Emerson (Paul Bettany), que trabalham no setor de riscos em uma corretora, que está realizando uma série de demissões. Cerca de 80% do setor em que trabalham foi demitido, entre eles, o chefe do trio, Eric Dale (Stanley Tucci), que antes de ir embora repassa a informação da volatilidade da empresa, que está prestes a falir.
O filme não tenta ser documentário, é uma história sobre pessoas que passaram pela crise e que perderam empresas, ou empregos. “Ele mostra como são os processos de decisões, como as informações são carregadas até os CEOs e até mesmo a fragilidade do controle deles sobre as empresas, pois nem sempre sabem tudo que está acontecendo”, relata Salvato. De acordo com o coordenador de Economia do Ibmec-MG, o suspense traduz o problema técnico da economia para uma linguagem mais simples. “Ele tenta trazer para as pessoas o problema que foi, na época, a crise para as empresas, com ativos destruídos e perda de patrimônio líquido”, reflete.
Too Big to Fail (Grande Demais para Quebrar)
Outro filme que está entre os melhores para entender a crise econômica, segundo Marcio Salvato, é o drama dirigido por Curtis Hanson. “O nome é sugestivo. Ele traz a ideia de um país muito grande com um sistema financeiro muito grande, que carrega muitos valores e muitos recursos financeiros. O filme é um pouco de documentário, um pouco de ficção. Não reporta exatamente o que aconteceu, mas coisas que possivelmente aconteceram", diz.
"Grande Demais Para Quebrar" tenta criar uma cena de como o mundo, e as pessoas envolvidas diretamente na crise, como os secretários de tesouraria, os CEOs dos bancos e o presidente do Banco Central, entre outros, estavam se comportando naquele momento. “Ele tenta reproduzir as histórias das pessoas-chave daquela época. Tem algumas passagens interessantes. Como, às vezes, os temas são mais áridos mesmo, o filme explica de forma didática, em linguagem simples. Ele tem a preocupação de facilitar e digerir esses conteúdos mais ácidos”, expõe Salvato.
Wall Street: Money Never Sleeps (Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme)
Dirigido por Oliver Stone, o filme conta a história de Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, que deixa a prisão após cumprir pena por fraudes financeiras. Impossibilitado de operar no mercado financeiro, ele dedica seu tempo a realizar palestras e escrever um livro, no qual critica o comportamento de risco dos mercados. Um dia, após uma das palestras, ele é abordado por Jacob Moore (Shia LaBeouf), um operador idealista do mercado de Wall Street.
“Este filme conta uma história de alguém que trabalhou no sistema financeiro. Isso faz com que mostre como funcionam as grandes empresas financeiras, quais são os seus problemas e como isso chegou até a destruir famílias e as relações das pessoas. O pano de fundo é o problema americano do sistema financeiro dos anos 2000, mas trata de como as pessoas passaram por isso”, explica o coordenador de Economia do IBMEC.
The Company Men (A Grande Virada)
Para fechar a lista, o drama de 2010, dirigido e escrito por John Wells, e que é estrelado por Ben Affleck, Chris Cooper, Kevin Costner, Maria Bello e Tommy Lee Jones. Na história, Bobby Walker (Ben Affleck) tem uma bela família, um bom emprego e um deslumbrante Porsche na garagem. O que ele não esperava era que, devido a uma política de redução de pessoal, fosse demitido. Phil Woodward (Chris Cooper) e Gene McClary (Tommy Lee Jones), seus colegas de trabalho, passam pela mesma situação. A mudança faz com que o trio tenha que redefinir suas vidas, como maridos e pais de família.
“O filme reflete muito bem a questão de famílias que trabalhavam para o setor financeiro e perderam o emprego de uma hora para a outra. Reporta como se sai dessa situação e a conjuntura que levou a tudo isso. O foco é o drama familiar que as pessoas passaram durante a crise econômica dos Estados Unidos nos anos 2000”, observa Salvato.