Onde estão as vozes negras na governança climática? Analistas avaliam os riscos da sub-representação
Para especialistas, presença 'extremamente limitada' de profissionais negros nos ambientes de decisão compromete viabilidade de soluções, visto que eles são os mais afetados pelos extremos climáticos
O estudo "Desigualdades demográficas e sociais das mortes relacionadas ao calor em áreas urbanas brasileiras no século 21", divulgado em 2024, aponta que quase 50 mil brasileiros morreram em virtude de extremos de temperatura entre 2000 e 2018 no Brasil. Segundo pesquisadores da UFRJ, da Fiocruz e da Universidade de Lisboa, que conduziram a pesquisa, o aumento da mortalidade foi maior entre pessoas pretas e pardas em comparação com as brancas (com casos de risco de morte de 208% mais para mulheres negras com mais de 65 anos).
Mesmo sendo maioria entre os mais vulneráveis aos efeitos climáticos, as pessoas negras são minoria numérica nos espaços onde decisões de governança climática são discutidas. Dentro do setor privado, por exemplo, um levantamento do Estadão apontou que, entre as empresas que faziam parte do índice de diversidade da B3, o Idiversa, em 2024, os pretos eram apenas 0,26% e os pardos eram 5,67% nas diretorias executivas. Já nos conselhos de administração, as pessoas pretas eram somente 0,96% e as pardas eram 1,93%.
A disparidade entre o quadro das pessoas mais afetadas pelos efeitos do clima e a baixa representatividade delas dentro do alto escalão de grandes empresas preocupa analistas negras ouvidas pelo Estadão, que estiveram na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-30) e defendem a integração entre as agendas racial e ambiental, pela perspectiva da justiça climática.
"Na COP-30, a pergunta sobre onde estão as vozes negras e também indígenas na governança climática ecoa com ainda mais força. O Brasil, país territorialmente diverso, continua apresentando ao mundo uma governança climática que não se parece com sua própria população", avalia a cofundadora do Instituto Conselheira 101, Jandaraci Araújo. "Em um país onde os impactos climáticos atingem desproporcionalmente essas populações, essa ausência não é apenas um problema moral, é um risco estratégico."
Para a fundadora da consultoria Ana Bavon Consulting, Ana Bavon, a governança climática no Brasil tem sido um reflexo da "estrutura de poder empresarial hegemônica: branca, masculina e sudestina". "A ausência de profissionais negros nesses espaços (de decisão) indica que o setor privado ainda não compreende a urgência de incorporar leituras sociais como parte da sua governança e estratégia. O que falta não é qualificação de pessoas negras para ocuparem esses espaços, é reconhecer especialistas em justiça ambiental, ecologia de saberes, direito territorial ou bioeconomia de base comunitária como 'gestores climáticos'."
A diretora do Instituto Identidades do Brasil, Luana Genót, tem opinião semelhante e explica que essa sub-representação se dá pela ausência de programas de aceleração e desenvolvimento de lideranças negras, além de políticas afirmativas robustas com metas alinhadas ao negócio e às suas prioridades dentro das empresas no País.
"Embora existam profissionais negros altamente qualificados nas áreas socioambientais, esses talentos raramente encontram caminhos formais para chegar a posições de comando. (Além disso) muitas empresas ainda tratam a agenda racial como um tema separado da agenda climática, e não como parte essencial dela, (sem) indicadores cruzados entre as pautas."
Consequências da baixa representatividade
De acordo com as especialistas, há consequências consideráveis na falta de pluralidade, comprometendo a eficácia, o repertório e a justiça das decisões ambientais. "Quando essas realidades não estão representadas, projetos, políticas e investimentos costumam a ignorar desigualdades estruturais e desconsiderar territórios vulneráveis, além de negligenciar soluções já desenvolvidas por quem vive nesses contextos. Com isso, estratégias climáticas podem se tornar menos eficientes", avalia Genót.
Também pode haver comprometimento na previsão de riscos climáticos, o que seria minimizado com maior a abertura para uma maior representatividade, defende Araújo. "Com mais profissionais negros e indígenas nas instâncias de poder, a matriz de risco incluiria racismo ambiental e risco territorial indígena, mudando as prioridades da governança corporativa", diz. "Além disso, a transição energética seria pensada com inclusão social e justiça distributiva. Em resumo, o rumo seria mais justo, preciso e sustentável."
Caminho para a mudança
Mesmo com um cenário desfavorável, há caminhos possíveis para que as instituições que decidem os rumos da economia verde possam levantar riscos, alertas e soluções que hoje não estão no radar das empresas, com auxílio de lideranças negras. Bavon cita três caminhos estratégicos:
- Governança climática com assento territorializado: criação de comitês executivos com cadeiras garantidas para especialistas com vivência em comunidades afetadas, como parte da estrutura de poder decisório;
- Indicadores de risco climático com recorte racial: construção de frameworks (estruturas) que incluam o risco racial como variável na tomada de decisão climática;
- Protocolo de escuta: empresas que criam relatórios ESG devem adotar protocolos de escuta ativa com lideranças negras, para coautoria de decisão.
"A pergunta não é se o setor privado está pronto para isso. A pergunta é se ele está disposto a reconhecer que qualquer governança que exclui os mais impactados é uma governança parcial, e, portanto, frágil", salienta a especialista.