Não há como regular o ambiente se perdermos a Amazônia, diz analista do Observatório do Clima
Stela Herschmann, que participa do Estadão Summit ESG, diz que '2025 é decisivo para países apresentarem metas climáticas'
ESPECIAL PARA O ESTADÃO - A COP-30, que será realizada em novembro em Belém, colocará o Brasil no centro das negociações internacionais sobre clima. Pela primeira vez, o País será sede da conferência, que reunirá representantes de quase 200 nações para discutir medidas de enfrentamento às mudanças climáticas em uma região já bastante exposta a seus efeitos.
O encontro ocorre em um cenário internacional marcado por guerras, disputas comerciais e instabilidade política. Esses fatores podem influenciar as negociações e afetar o avanço de temas como financiamento climático, revisão das metas de emissões e transição para uma economia de baixo carbono.
Para Stela Herschmann, especialista em Política Climática do Observatório do Clima, levar a COP-30 a Belém reforça a urgência do debate climático em um local diretamente afetado e estratégico para a regulação do clima global. Ela participará do painel COP-30: a conferência mundial, o propósito e a sua importância durante o Estadão Summit ESG 2025, que acontece no dia 21 de agosto, em São Paulo.
Em entrevista ao Estadão, Stela comentou sobre os principais desafios e as oportunidades da conferência.
O Brasil vai sediar a COP-30 em Belém. Na sua visão, o que representa simbolicamente e estrategicamente trazer a conferência para essa região?
A escolha de Belém como sede da COP-30, feita pelo presidente Lula, representa uma aposta simbólica importante. Trata-se de trazer a principal conferência de enfrentamento da crise climática para um local que, ao mesmo tempo, já é afetado pelas mudanças climáticas e é decisivo para enfrentá-las.
Não existe a possibilidade regular o clima global se perdermos a Amazônia. O desmatamento já provocou danos substanciais, e há toda uma teoria sobre o ponto de inflexão dos 20% (limite estimado de desmatamento da Amazônia a partir do qual o ecossistema pode entrar em colapso).
Trazer o debate climático para um lugar que é determinante para o equilíbrio do planeta e que já sente os impactos da crise dá à conferência um peso simbólico muito maior. Decidir essas questões à distância, sem contato com o ambiente diretamente afetado, enfraquece a percepção da urgência. Em Belém, essa conexão se torna muito mais evidente.
Quais aprendizados da COP-29, realizada na cidade de Baku, no Azerbaijão, devem impactar diretamente a agenda e as negociações da COP-30?
O principal impacto da COP-29 sobre a COP-30 está relacionado ao tema do financiamento. A COP-29 foi focada nesse assunto e a decisão tomada no Azerbaijão sobre uma nova meta de financiamento foi considerada muito ruim, deixando um gosto amargo entre os negociadores. Essa insatisfação já está sendo sentida este ano.
Na conferência de Bonn, na Alemanha, realizada no meio do ano, houve um impasse na definição da agenda. Países em desenvolvimento queriam continuar tratando de questões de financiamento que deveriam ter sido encerradas no ano anterior, mas não foram. No Observatório do Clima, costuma-se dizer que o "fantasma de Baku" vai assombrar a COP-30, especialmente em relação ao financiamento público dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento.
A meta de alcançar emissões líquidas zero, o chamado Net Zero, até meados do século é central nos compromissos climáticos globais. O Brasil está no caminho certo para atingir essa meta?
O ano de 2025 é decisivo, pois os países devem apresentar novas metas climáticas globais. Essas metas, agora com horizonte até 2035, precisam reduzir o chamado "gap de ambição" identificado pela ciência. Pesquisas indicam que esta década, até 2035, é a última oportunidade para limitar o aquecimento a 1,5°C. Para isso, será necessário reduzir as emissões em 65% até 2035 e alcançar emissões líquidas zero até a metade do século.
No cenário global, a maioria dos países não está no caminho para atingir o net zero. É esperado que incluam esse objetivo em suas NDCs (Contribuição Nacionalmente Determinada) e apresentem estratégias de longo prazo (Long Term Strategies - LTS) detalhando como chegar à neutralidade climática até 2050. Entretanto, ainda não existe um plano claro e consistente para isso.
O Brasil apresentou sua NDC para 2035 em novembro de 2024, durante a COP-29. Embora os países possam reapresentar metas a qualquer momento, não há sinais de que isso vá ocorrer. A proposta brasileira foi criticada por trazer duas metas diferentes: uma praticamente igual à de 2030 e outra com uma redução linear até 2035, postergando para depois desse período cortes mais profundos, que teriam de ser abruptos para cumprir o net zero até 2050.
Quais são os principais problemas de uma NDC que apresenta duas metas distintas?
Ter duas metas envia um sinal confuso ao país e ao mundo, dificultando o planejamento de implementação. Essa indefinição compromete a mobilização de setores estratégicos, que não têm incentivo claro para perseguir a meta mais ambiciosa. A diferença entre as duas metas equivale a cerca de 200 milhões de toneladas de CO2, similar às emissões anuais de um país como a Colômbia.
O Brasil, portanto, está adiando os cortes mais relevantes, desalinhado com o que a ciência indica como necessário para limitar o aquecimento a 1,5°C. Segundo o Observatório do Clima, o país poderia ser mais ambicioso, inclusive se cumprisse integralmente compromissos já assumidos, como o de zerar o desmatamento. Embora não seja impossível atingir o net zero com a meta atual, essa estratégia concentra esforços em um curto prazo no futuro, quando o ideal seria implementar mudanças consistentes o quanto antes.
Em relação aos combustíveis fósseis, como garantir que temas como petróleo, gás e carvão ganhem espaço nas negociações da COP-30?
O tema dos combustíveis fósseis não está na agenda de negociação, o que é motivo de preocupação. Em 2023, na COP-28, foi aprovada a decisão de zerar o desmatamento e iniciar o afastamento dos combustíveis fósseis ainda nesta década. Essa transição precisa ser feita de forma justa, equitativa e equilibrada, conforme previsto no texto, mas os países deveriam estar discutindo como colocar essa decisão em prática. Trata-se de um desafio que nenhum país consegue enfrentar sozinho, pois o setor é globalmente interligado, essencial para a economia e com implicações que ultrapassam fronteiras.
É preciso detalhar o que significa essa transição justa, incluindo a definição de recursos, quais países iniciarão a mudança e quais terão mais tempo para explorar. Essas conversas não estão acontecendo. Não há garantia de que serão realizadas, e existe resistência por parte dos países em discutir setores específicos. Há mecanismos possíveis para tratar do tema, como um diálogo sobre a implementação da decisão de 2023 ou o programa de transição justa, mas o assunto precisa estar claramente na mesa de negociação da COP-30, e isso ainda não acontece.
A presidência da conferência aposta na agenda de ação, que envolve atores além dos governos, como empresas, entes subnacionais e sociedade civil. No entanto, isso não é suficiente, pois o tema exige aprofundamento e coordenação direta entre países. Sem esses acordos, dificilmente as medidas sairão do papel.
O setor de petróleo, gás e carvão é responsável por cerca de três quartos das emissões globais e está no centro da crise climática. É preciso enfrentar esse desafio com coragem e promover conversas francas e difíceis para avançar de forma concreta.
Como você avalia o papel do setor privado brasileiro na agenda climática? Que tipo de ações concretas são esperadas de empresas em um país que será vitrine global durante a COP-30?
Um dos grandes destaques da presença da COP-30 é a agenda de ação, que envolve atores que não são partes da convenção, como o setor privado. Esse setor precisa fazer parte da solução. Cabe aos países estabelecer políticas públicas e, aos estados e municípios, implementar ações no âmbito local. Temas como adaptação são fortemente dependentes do contexto local. Já as empresas devem implementar medidas e, principalmente, se planejar para o médio e longo prazo.
Estamos falando de uma transição para longe dos combustíveis fósseis e da neutralidade de carbono até meados do século. As empresas precisam alinhar seus planejamentos a essa trajetória e adotar ações concretas. A agenda de ação permite que assumam compromissos públicos, anunciem acordos e metas, mas não basta se comprometer: é fundamental transformar esses compromissos em ações reais para evitar o greenwashing (parecer sustentável sem realmente ser).
É necessária a liderança do setor privado, não apenas no Brasil, mas em escala global, para implementar efetivamente as mudanças. Seria muito bom vê-lo na vanguarda da descarbonização, da eliminação dos combustíveis fósseis, do fim do desmatamento e de outras medidas essenciais para enfrentar as causas da crise climática. Como as empresas têm capacidade de agir mais rapidamente do que os países, seu protagonismo pode acelerar significativamente essa transição.
Que estratégias o governo brasileiro pode adotar para garantir que os resultados da COP-30 em Belém tenham continuidade após o evento, transformando-se em políticas públicas efetivas?
A COP-30 terá uma série de decisões que terão continuidade em processos posteriores, como na COP-31. Muitos temas já têm previsão de não serem encerrados na conferência em Belém. Cada país precisa transformar o que é decidido nas COPs, dentro desse marco internacional de cooperação, em políticas públicas concretas.
O compromisso assumido na NDC, por exemplo, estabelece uma meta numérica de redução de emissões que, para ser efetivamente cumprida, precisa ser traduzida em ações políticas no território. No caso do Brasil, está sendo elaborado pela primeira vez um plano clima, abrangendo mitigação e adaptação, para orientar os setores, definir responsabilidades, priorizar ações e indicar onde investir. Áreas como energia e transporte exigem planejamento e investimento de longo prazo, e as metas precisam ser desdobradas em medidas concretas.
Entretanto, esse planejamento enfrenta desafios. Um deles é o fato de a meta brasileira não ser única, mas composta por duas opções. Nem mesmo a mais ambiciosa é suficiente para limitar o aquecimento a 1,5°C ou compatível com compromissos públicos já assumidos pelo Brasil. Essa incoerência entre a meta e as ações internas representa um dos principais desafios para o governo brasileiro.
Em um evento marcado por negociações entre governos, como garantir espaço real para a participação da sociedade civil na COP-30?
A UNFCCC (United Nations Framework Convention on Climate Change) possui um processo formal de participação da sociedade civil, que sempre pode e deve ser aprimorado. Há credenciamento para observadores e acesso a salas de negociação, embora com limitações, já que nem todos podem entrar. Esse formato é mais aberto do que em outros fóruns, como G20 e BRICS, onde o acesso é muito mais restrito.
Na UNFCCC, a sociedade civil tem acesso a documentos e pode se manifestar por meio de submissões, mantendo há três décadas um papel ativo nas negociações climáticas. Embora não participe das decisões, exerce influência para torná-las mais ambiciosas e compatíveis com a urgência das ações necessárias.
Há conquistas importantes impulsionadas pela sociedade civil, como a criação do fundo de perdas e danos decidido na COP do Egito, e a inclusão da expressão "transitioning away from fossil fuels" (abandono gradual dos combustíveis fósseis) na COP de Dubai. Esse trabalho envolve acompanhar textos, pressionar governos e atuar como uma espécie de "watchdog" para garantir que nada avance sem escrutínio.
Apesar do espaço existente, há críticas. Muitas decisões ocorrem fora das salas de negociação, em grupos restritos aos quais a sociedade civil não tem acesso. Também há demanda por mais oportunidades de fala.
É igualmente importante que governos sintam a pressão não apenas de quem está dentro da zona azul da ONU, mas também de um público mais amplo. A mobilização popular fora das negociações, incluindo manifestações nas ruas durante as COPs, é relevante para mostrar que a demanda vem de um número muito maior de pessoas. Esse é um aspecto significativo para fortalecer a influência da sociedade civil.
Em termos práticos, que tipo de legado você acredita que a COP-30 pode deixar para o Brasil e para a agenda climática global? Há potencial para que esse evento represente um divisor de águas?
A COP-30 tem potencial para deixar um legado relevante, embora o contexto atual das negociações seja desafiador. O cenário global inclui guerras violentas, até com genocídios, conflitos comerciais, ausência de países que se afastam do regime multilateral e incerteza sobre a participação de alguns, como os Estados Unidos, que estão deixando o Acordo de Paris, mas permanecem na convenção. Além disso, há eleições em diversos países com risco de vitória da extrema direita.
Mesmo diante desse quadro, há oportunidades. Entre os temas previstos na agenda de negociação, está o marco de adaptação, que deve ser finalizado ainda este ano e representa um resultado esperado e importante. Outro ponto é a decisão sobre um programa de transição justa, que pode se tornar uma das entregas mais relevantes da COP-30 se houver ambição suficiente para avançar da discussão para a implementação. A sociedade civil apresentou uma proposta concreta para colocar a justiça no centro da agenda climática, com um mecanismo específico para implementar a transição justa, o Belém Action Mechanism, que poderia ser um marco liderado pelo Brasil.
O passo mais significativo, que poderia colocar a COP-30 na história, seria iniciar o debate sobre como os países implementarão o afastamento dos combustíveis fósseis decidido na COP-28. A forma como isso será feito é complexa, precisa ser justa, equitativa e equilibrada, e exige ações urgentes nesta década.
O Brasil não precisaria concluir a negociação, mas, ao liderá-la, assumiria de fato um papel de liderança climática, promovendo um diálogo responsável que reconheça as diferenças entre países e garanta que as nações desenvolvidas liderem o processo. Isso seria de grande relevância para o enfrentamento da crise climática e para o interesse nacional brasileiro.
Serviço
O que: Summit Estadão ESG
Quando: 21 de agosto
Onde: Teatro Bravos (Rua Coropé, 88 - Pinheiros)