Lula chega à França para cúpula do G7 focada nos desequilíbrios econômicos globais
Em um contexto de crise de confiança entre antigos aliados, os países industrializados do G7 (Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Canadá e Japão) reúnem-se a partir desta segunda-feira (15) na cidade de Évian, nos Alpes franceses. O Brasil participa como país parceiro dos debates, ao lado de Coreia do Sul, Índia, Quênia e Egito, a convite do governo francês.
Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a Évian
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou nesta manhã em Genebra e deve ser um dos primeiros líderes a chegar à cúpula, antes do meio-dia. Neste primeiro dia, as reuniões são fechadas aos membros plenos do grupo de potências desenvolvidas, mas Lula poderá aproveitar a ocasião para ter encontros bilaterais com lideranças presentes no encontro, como o presidente Emmanuel Macron.
O Planalto não esconde o desejo de uma conversa com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que é esperado para o jantar de recepção dos chefes de Estado do G7, esta noite. Até o momento, nenhuma reunião entre os dois está prevista, mas os líderes poderiam manter um diálogo informal à margem da agenda oficial, como já ocorreu no passado.
Para Brasília, a cúpula representa uma oportunidade para tentar amenizar as novas tarifas de 25% que o governo americano anunciou sobre uma série de produtos brasileiros importados há duas semanas. O bom entendimento pessoal demonstrado pelos dois presidentes durante a visita de Lula à Casa Branca, em maio, poderia favorecer o diálogo.
Trump fica até o final?
No entanto, o comportamento imprevisível do líder americano deixa o jogo em aberto. A participação de Trump é um mistério até para a presidência francesa, que chegou a adiar a data do início da cúpula, prevista inicialmente para 14 de junho, dia do aniversário de Trump, no intuito de aumentar as chances de sua vinda ao encontro.
Washington confirmou que ele estará presente e deve ser recebido por Macron para um jantar exclusivo no Palácio de Versalhes, na noite de quarta-feira, após o encerramento da cúpula em Évian. Entretanto, em plena assinatura de um acordo para encerrar o conflito contra o Irã, não pode ser descartada a hipótese de que o presidente dos Estados Unidos deixe a França antes do previsto.
A agenda oficial do evento está carregada de desafios de peso, a começar por uma reunião sobre a guerra na Ucrânia, com a presença do presidente Volodymyr Zelensky, na manhã de terça. A primeira ambição é que todos os países concordem com a necessidade de manter o apoio à Ucrânia, incluindo a soberania do país sobre o seu território, ocupado pela Rússia.
Os Estados Unidos praticamente abandonaram o apoio militar e financeiro a Kiev. A intenção de Paris é voltar a atrair a atenção de Trump para o conflito na Europa, que foi deixado em segundo plano após a ofensiva contra o Irã.
Em seguida, a guerra no Oriente Médio entra em foco, com a participação de potências árabes que têm contribuído na mediação de uma saída duradoura para o conflito: Egito, Catar e Emirados Árabes Unidos. O objetivo número um é a reabertura completa do Estreito de Ormuz, mas também as negociações sobre o futuro do programa nuclear iraniano.
Em um comunicado comum, França, Reino Unido, Alemanha e Itália afirmam estar "empenhados em desempenhar o nosso papel para alcançar esse objetivo (...), inclusive por meio de uma missão estritamente defensiva e independente para tranquilizar o tráfego comercial e realizar operações de desmontagem de minas".
"Trabalharemos intensamente com os Estados Unidos, o Irã e os parceiros regionais para aproveitar esta oportunidade, manter o ímpeto e alcançar uma solução diplomática de longo prazo", diz o texto, publicado durante a madrugada.
Discursos de Lula
Na sequência, abrem-se os trabalhos em formato ampliado aos países parceiros do G7. O Brasil participa de sessões de trabalho sobre a ajuda dos países ricos às nações em desenvolvimento, na tarde desta terça (16), e o crescimento econômico internacional e a inteligência artificial, ambas na quarta-feira. O presidente Lula deve discursar nas duas primeiras reuniões.
O assunto das tarifas unilaterais poderia ser tratado na sessão sobre os desequilíbrios macroeconômicos globais, com potencial de gerar uma crise mundial. O tema está no centro das preocupações na agenda econômica deste G7.
O mundo encontra-se refém de uma dinâmica perigosa de dependência de produtos da China, que produz e exporta muito, mas consome pouco, enquanto os Estados Unidos mantêm o consumo em alta à custa do aumento do endividamento, e a Europa não investe o suficiente para competir neste cenário. Para os países do sul global, a queda da ajuda internacional ao desenvolvimento, sob condições cada vez mais rigorosas, estrangula a capacidade das nações mais pobres de aliviar o sufoco da dívida.
Na última quinta-feira, pela primeira vez no contexto de um G7, a China foi convidada para uma videoconferência com os países do grupo para abordar este aspecto. Pequim concordou que os desequilíbrios representam um entrave ao crescimento mundial e devem ser combatidos. O assunto deverá ser retomado no âmbito do G20, este ano presidido pelos Estados Unidos.
Dezesseis textos são negociados
A expectativa é que, ao final do evento, um comunicado final comum dos integrantes do grupo seja publicado, que poderá ou não ser apoiado pelos cinco países convidados. O governo brasileiro esteve presente em uma série de reuniões preparatórias à cúpula em diversos temas, do comércio ao meio ambiente, passando por segurança e tecnologia, entre outros. Um total de 16 textos estão sendo negociados pelos países.
Além deles, instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) também foram convidadas. Na última sessão da cúpula, um almoço de trabalho sobre as big techs, focado na proteção dos menores no ambiente digital, contará com a presença dos CEOs de algumas das maiores empresas de tecnologia do planeta, como o da OpenAI, Sam Altman, e o da DeepMind, Demis Hassabis.
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