Haddad diz que patamar de juros é injustificável, mas defende Galípolo: 'Assumiu BC em meio à crise'
Segundo ministro, transição no comando do Banco Central foi 'muito complexa'; para ele, Brasil sempre 'erra para cima'
BRASÍLIA E SÃO PAULO - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta terça-feira, 23, que o atual patamar da taxa Selic é "injustificável". Ele participou de entrevista no portal ICL Notícias.
Segundo Haddad, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, assumiu a autoridade monetária durante uma crise, mas que ele entregará um "resultado consistente".
"Foi uma transição muito complexa, não foi uma transição simples. Isso não foi devidamente diagnosticado, na minha opinião", afirmou, se referindo da troca de Roberto Campos Neto para Galípolo.
Apesar de defender o presidente do BC, dizendo que não vota no Comitê de Política Monetária (Copom), o ministro declarou que há espaço para os juros caírem.
"Eu penso que o Galípolo vai chegar num momento em que ele vai juntar a diretoria e tomar essa decisão. Eu entendo que tem espaço para esse juro cair", disse.
Ele afirmou ainda que, no Brasil, sempre se erra para cima, mas que ele defende que não se erre nem para mais, nem para menos, além de afirmar que, apesar de um "repique" do dólar, a inflação já está voltando para patamares próximos do teto da meta.
Meta de inflação
O ministro disse que não vê como um equívoco a mudança de meta de inflação calendário para contínua sem mudar o centro desta.
Segundo ele, a decisão foi tomada para adequar o Brasil ao resto do mundo porque nenhum lugar do mundo tem meta de inflação gregoriana. O novo regime, em vigor desde janeiro, prevê que o cumprimento da meta seja apurado com base na inflação acumulada em 12 meses. Se a taxa ficar acima ou abaixo do intervalo de tolerância por seis meses consecutivos, considera-se que o Banco Central perdeu o alvo.
A meta é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto porcentual para mais ou para menos. O ministro da Fazenda pode propor uma alteração ao Conselho Monetário Nacional (CMN), mas é necessário esperar 36 meses para que qualquer mudança tenha efeito.
Haddad avaliou hoje que foi a decisão correta naquele momento e que disse ele faria novamente. E citou, sem entrar em detalhes, que as pessoas ainda vão saber o quão difícil foram as transições de governo e no Banco Central.
O ministro declarou que tinha que "driblar" crises com muita frequência e que estas, muitas vezes, eram produzidas artificialmente. Segundo ele, mesmo com o desmonte de governos anteriores, o governo está fazendo investimento em infraestrutura e em portos e aeroportos, por exemplo.
Temas sensíveis
Sobre a reforma do Imposto de Renda apresentada pelo governo, Haddad afirmou que é a primeira vez que o País toca no tema da desigualdade. Ele repetiu que o Brasil está entre os dez países mais desiguais do mundo.
O ministro afirmou que, aos poucos, o Brasil começa a lidar com temas antes "intocáveis" e que, com os protestos do último domingo promovidos pela esquerda, volta a haver uma "chama" no país que lhe dá esperança de uma mudança para melhor do país.
Haddad disse esperar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancione até outubro a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. O projeto de lei que traz a medida ainda precisa ser aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado.
Segundo Haddad, a isenção fiscal já está madura, mas as compensações ainda não. "Agora, eu acho que o Congresso está muito maduro para aprovar a isenção. O problema é aprovar a compensação, que é o andar de cima", disse.
Ainda assim, ele declarou que será a maior isenção dada por um governo, saindo de R$ 1,9 mil para R$ 5 mil e que são 20 milhões de pessoas que vão deixar de pagar esse imposto sobre seus salários.
"A lei, na minha opinião, vai ser sancionada em outubro. Ou seja, nós vamos para 20 milhões de pessoas que vão deixar de pagar o Imposto de Renda durante este mandato", afirmou.
Essa seria, segundo ele, uma oportunidade importante de o Congresso colocar o Brasil na rota da igualdade social. "É uma oportunidade muito importante de colocar o Brasil nessa rota da justiça social, na rota do combate à desigualdade", afirmou.
Ele refutou que foi mais fácil aparecerem R$ 30 bilhões para empresários afetados pelo tarifaço dos Estados Unidos do que para os trabalhadores.
Segundo o ministro, os recursos para os exportadores não é a "fundo perdido" e que, na prática, há cerca de R$ 300 bilhões para os trabalhadores. "Vai aparecer 300 de crédito para o trabalhador com as medidas que nós estamos tomando", declarou.
Haddad voltou a criticar os benefícios fiscais: "Nós temos mais de R$ 600 bilhões de renúncia fiscal no Brasil, que, na minha opinião, é o maior escândalo".
Tarifas
O ministro disse que não faz sentido taxar commodities como fez o governo dos Estados Unidos em relação à parte das exportações brasileiras.
Segundo Haddad, desde o início ele comunicou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que dois terços das exportações aos EUA não são afetadas pelo tarifaço e que não era preciso realocar essas vendas.
Para ele, haveria pouco impacto macroeconômico e o Brasil não teria dificuldade de encontrar novos compradores para seus produtos, que são os "melhores do mundo".
Ele classificou as sanções norte-americanas como "descabidas" e disse que Lula está mantendo uma postura sóbria, sem usar o tema como palanque.