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Guerra sem fim à vista no Irã pressiona reservas estratégicas de petróleo

28 mai 2026 - 16h10
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Reservas mundiais estão diminuindo rapidamente à medida que países as liberam para amortecer impacto da guerra no Irã. Estoques podem atingir níveis criticamente baixos até o fim de junho.A guerra no Irã e o subsequente bloqueio do Estreito de Ormuz provocaram um choque na oferta de petróleo numa escala não vista há décadas.

Os Estados Unidos estão entre os países com as maiores reservas mundiais de petróleo
Os Estados Unidos estão entre os países com as maiores reservas mundiais de petróleo
Foto: DW / Deutsche Welle

A crise levou países do mundo todo a buscar rapidamente alternativas para compensar a perda de fornecimento.

Muitos governos, especialmente de países asiáticos altamente dependentes da energia do Oriente Médio, também implementaram medidas para reduzir a demanda por combustíveis.

Em março, a Agência Internacional de Energia (AIE) coordenou uma liberação maciça de reservas de petróleo dos estoques de emergência de países industrializados, totalizando cerca de 400 milhões de barris. A medida teve como objetivo garantir oferta suficiente e estabilizar os preços do petróleo.

Naquele momento, o estoque total dos membros da AIE (que inclui sobretudo países ocidentais, bem como Austrália, Japão e Coreia do Sul) era de mais de 1,2 bilhão de barris, com outros 600 milhões de barris em estoques industriais mantidos sob obrigação governamental.

Proteção com as reservas estratégicas

Antes da guerra, o mercado global de petróleo bruto estava em superávit. E as principais economias acumularam vastas reservas estratégicas, sendo que os maiores estoques do mundo estavam na China, nos Estados Unidos e no Japão.

Em dezembro de 2025, a China possuía quase 1,4 bilhão de barris em seus estoques, incluindo reservas comerciais e do governo, segundo estimativa da Administração de Informação de Energia dos EUA. A China, que não integra a AIE, não divulga dados sobre seus estoques de petróleo.

Os Estados Unidos mantinham cerca de 413 milhões de barris em sua reserva estratégica de petróleo, além de outros 411 milhões de barris em estoques comerciais de petróleo bruto. O país liberou 172 milhões de barris via AIE.

O Japão detinha o terceiro maior volume de estoques estratégicos, com cerca de 263 milhões de barris apenas em reservas controladas pelo governo. A contribuição do Japão para a liberação recorde de reservas foi de 80 milhões de barris.

Já os países da União Europeia são obrigados por lei a manter estoques de emergência equivalentes a pelo menos 90 dias de importações líquidas ou 61 dias de consumo.

As nações do bloco contribuíram com cerca de 20% dos 400 milhões de barris liberados na ação coordenada pela AIE, com a Alemanha liberando 19,5 milhões de barris, seguida pela França (14,6), Espanha (11,6) e Itália (10).

A Índia possuía cerca de 21 milhões de barris em suas reservas estratégicas, segundo a AIE. Esse estoque cobre aproximadamente 9,5 dias de importações líquidas de petróleo, de acordo com a S&P Global. Mas esse número sobe para 74 dias se forem consideradas também as reservas mantidas por empresas estatais de petróleo.

Além dessas reservas estratégicas, milhões de barris de petróleo russo parados em petroleiros no mar também se tornaram disponíveis para compradores na Ásia depois que os EUA suspenderam temporariamente, em meados de abril, sanções sobre esse petróleo para aumentar a oferta global.

Quando as reservas de petróleo atingirão níveis críticos?

Esses estoques têm ajudado a amortecer o choque energético e a administrar a volatilidade da oferta. Mas, três meses após o início da guerra, o tráfego de petróleo pelo Estreito de Ormuz continua paralisado, apesar das expectativas de um acordo entre Washington e Teerã para encerrar o conflito.

À medida que o bloqueio persiste, os países continuam consumindo rapidamente tanto suas reservas estratégicas quanto os estoques comerciais.

A AIE afirmou que os estoques globais de petróleo caíram em ritmo recorde em março e abril, com redução de 246 milhões de barris. O diretor da agência, Fatih Birol, alertou que os estoques de petróleo não são infinitos e estão diminuindo rapidamente em todo o mundo. Ele também enfatizou que levará muito tempo para que a produção e a capacidade de refino retornem aos níveis anteriores à guerra.

O banco de investimento Goldman Sachs emitiu alerta semelhante na semana passada e afirmou que os estoques globais estão sendo reduzidos em ritmo recorde neste mês.

"No ritmo atual de redução, os estoques comerciais de petróleo podem atingir níveis criticamente baixos até o fim de junho", escreveu Neil Shearing, economista-chefe da Capital Economics, em nota de pesquisa de 18 de maio. Se as condições de oferta não melhorarem em breve, "os preços podem subir acentuadamente", alertou Shearing.

Como a redução dos estoques afetará os preços?

A situação tem gerado temores de escassez, especialmente durante o pico de demanda no verão do Hemisfério Norte.

Essa escassez não será sentida de forma igual em todas as regiões e setores, avaliou o especialista em energia Antoine Halff, da Universidade de Columbia, nos EUA.

Ele afirmou que países asiáticos devem ser os mais afetados devido à forte dependência da energia do Oriente Médio. Entre os setores econômicos, o mais afetado deverá ser o transporte aéreo.

Mesmo assim, o aumento nos preços do petróleo será sentido em todo o mundo, inclusive em países com oferta doméstica abundante, como os EUA, diz Halff.

Os preços do petróleo já estão elevados em relação aos níveis anteriores ao conflito, refletindo restrições de oferta e o risco embutido.

Ao mesmo tempo, os preços têm sido voláteis e sensíveis a notícias, caindo após declarações que indicam uma resolução rápida do conflito e subindo quando há sinais de que o estreito permanecerá fechado por mais tempo.

Para a analista Helima Croft, chefe de estratégia global de commodities e pesquisa para Oriente Médio e Norte da África no RBC Capital Markets, o mercado global pode estar subestimando os desafios para resolver o conflito.

"A realidade fundamental é que as expectativas de uma recuperação total e rápida de Ormuz se baseiam em suposições irrealistas sobre a facilidade de resolução e os cálculos estratégicos de todas as partes envolvidas", escreveu em relatório.

Se a atual taxa de diminuição da oferta se manter, estima a especialista, "as perdas acumuladas de petróleo bruto ultrapassarão 1 bilhão de barris até o fim do mês e poderão chegar a 1,5 bilhão até o fim de junho".

Isso levaria os preços do petróleo aos níveis máximos de 2008. "Nesse ponto, destruir a demanda provavelmente será o fator de equilíbrio do mercado." Alguns países já adotaram medidas para conter o consumo e economizar combustível, como semanas de trabalho mais curtas nas Filipinas e redução no uso de transporte no Paquistão.

Outra liberação coordenada de reservas?

Diante da queda nos estoques, os governos parecem hesitar em realizar uma segunda liberação coordenada de reservas estratégicas.

O ministro das Finanças da França, Roland Lescure, que recebeu seus parceiros do G7 na semana passada, disse ao jornal Financial Times que os estoques são finitos e não podem ser liberados "sem que haja visibilidade sobre a duração e a intensidade do conflito".

Halff afirma que, caso o Estreito de Ormuz permaneça bloqueado por muito mais tempo, "os governos simplesmente não têm muito o que fazer para garantir o abastecimento e ao mesmo tempo manter os preços sob controle".

"A liberação de petróleo das reservas estratégicas pode ajudar, mas só até certo ponto, já que os estoques não são ilimitados", afirma.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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