Fed deve manter juros em reunião com pelo menos dois dissidentes, preveem analistas
Aposta do mercado é que manutenção dos juros na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano não será por consenso; membros de comitê demonstraram preocupação com atual nível da inflação nos EUA
A quinta reunião do Federal Reserve (Fed) de 2026 começa nesta terça-feira, 28, sob forte expectativa de manutenção dos juros na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano. A última vez que o Banco Central americano fez alguma alteração foi em dezembro do ano passado. A taxa foi cortada no último mês de 2025, quando ainda nem se imaginava um confronto militar contra o Irã, tampouco uma guerra que completa cinco meses e um choque de oferta de energia sem data para acabar. Segundo a ferramenta FedWatch, do CME Group, o mercado precificava, na manhã desta terça-feira, 70% de chance de manutenção da taxa no patamar.
Independentemente da decisão desta quarta-feira, 29, uma aposta do mercado é que não será por consenso. O Bank of America (BofA) e o Citi veem sinais de que dois membros votantes do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, em inglês) — Beth Hammack (Fed Cleveland) e Lori Logan (Fed Dallas) — votarão pelo aumento da taxa de juros. "A visão de manutenção em julho é uma decisão mais apertada do que esperávamos após a inflação suave de junho. O aumento do preço do petróleo elevou os riscos de alta", afirmou Mark Cabana, economista do BofA.
Nas últimas semanas, contudo, mais membros votantes e não votantes do Fomc fizeram declarações públicas demonstrando sua preocupação com o atual nível da inflação. "Mais do que dois votos dissidentes, enviaria um sinal hawkish mais forte", afirmou o economista-chefe para EUA do Citi, de Andrew Hollenhorst.
Projeção agressiva
A projeção de aumentos de juros ao longo dos próximos 12 meses é considerada exagerada por especialistas do mercado. O diretor de investimentos da Monte Bravo, Guilherme Loureiro, afirma que momentos de grande incerteza como o atual prescrevem que bancos centrais sinalizem cautela e vigilância, além de se abster de compromissos futuros, como o Fed fez ao retirar o forward guidance.
"Nosso entendimento, porém, é que o Fed deve manter os juros no atual nível e que o próximo passo seria um corte no ano que vem. Não nos parece que os EUA estejam vivendo um problema inflacionário", diz Loureiro. Ele argumenta que o núcleo de médias aparadas da inflação está rodando entre 2,3% e 2,4%, nível observado desde os anos 90.
Na equipe de análise do UBS, o entendimento é semelhante. Um relatório do banco suíço mostra que, embora os riscos de inflação nos EUA devam manter o banco central em "espera" pelo resto do ano, a "convicção atual do mercado em torno de aumentos de taxas pelo Fed no próximo ano é um tanto agressiva". Eles entendem, inclusive, que as tendências de crescimento econômico provavelmente mais lentas e a desinflação na segunda metade deste ano devem ajudar a apoiar uma mudança em direção a juros mais baixos em 2027.
Visão distinta tem o ex-presidente do Fed de Nova York William Dudley. Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele afirmou que elevaria os juros nesta reunião, por considerar que a política monetária ainda não dá sinais suficientes de restrição e que o Banco Central está falhando mais em seu mandato de inflação do que no de emprego. Para Dudley, o maior risco hoje é não agir e comprometer a credibilidade da autoridade monetária.
Aditya Bhave, economista do BofA, concorda com esta avaliação. Por outro lado, elevar os juros agora seria algo sem precedentes, segundo Cabana, também do BofA, que argumenta que, desde 1994, o Fed nunca aumentou juros com menos de 60% de chance precificada.
O economista-chefe para EUA do Citi entende que seria um momento estranho para os membros do Fed se sentirem pressionados a aumentar os juros para manter a credibilidade do BC inalterada. Hollenhorst argumenta que as expectativas de inflação caíram para níveis baixos, sugerindo pouca preocupação do mercado com um excesso prolongado de inflação.
Ainda que minoritária, a probabilidade de uma alta de juros em julho ficou mais razoável para muitos analistas depois da primeira reunião de política monetária sob o comando de Warsh, realizada no mês passado. Embora tenha sido indicado pelo presidente americano Donald Trump, defensor assíduo de juros baixos, Warsh foi classificado pelo mercado como hawkish após a entrevista à imprensa de junho.
BCE dá o tom
Se mantiver os juros inalterados nesta reunião, o BC dos EUA não estará sozinho. Na semana passada, o Banco Central Europeu (BCE) manteve a taxa inalterada e sinalizou que um aumento poderá vir na reunião de setembro. "O Banco Central Europeu definiu o tom na semana passada com o que se tornou a reação padrão de política monetária para a crise atual. O Federal Reserve e o Banco da Inglaterra provavelmente seguirão o mesmo roteiro em suas reuniões desta semana. Não esperamos mudanças nas taxas de juros de nenhum dos dois", afirmou Neil Shearing, economista-chefe da Capital Economics.
O BC dos EUA divulga a decisão de política monetária nesta quarta-feira, 29, às 15h (de Brasília). Warsh comenta os resultados da reunião em entrevista à imprensa 30 minutos depois.
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